O lugar da Ascensão

Jesus Cristo realizou a obra da redenção humana principalmente pelo mistério da sua paixão, da sua ressurreição dos mortos e da sua gloriosa ascensão. São Lucas refere alguns detalhes da cena: 'depois, levou-os até junto de Betânia e, erguendo as Suas mãos, abençoou-os. E enquanto os abençoava, separou-Se deles e começou a elevar-se ao céu. E eles adoraram-no'.

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Gráfico: J. Gil

Jesus Cristo realizou a obra da redenção humana principalmente pelo mistério da sua paixão, da sua ressurreição de entre os mortos e da sua gloriosa ascensão (Cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 1067). A liturgia põe diante dos nossos olhos o último dos mistérios da vida de Jesus Cristo entre os homens: a sua Ascensão aos céus. Desde o seu Nascimento em Belém, muitas coisas aconteceram: encontramo-lo no berço, adorado por pastores e por reis; contemplamo-lo nos longos anos de trabalho silencioso, em Nazaré; acompanhamo-lo pelas terras da Palestina, pregando aos homens o reino de Deus e fazendo o bem a todos. E, mais tarde, nos dias da sua Paixão, sofremos ao presenciar como o acusavam, com que fúria o maltratavam, com quanto ódio o crucificavam.

À dor seguiu-se a alegria luminosa da Ressurreição. Que fundamento tão claro e tão firme para a nossa fé! Não deveríamos continuar duvidando. Mas talvez ainda sejamos fracos, como os Apóstolos, e perguntemos a Cristo neste dia da Ascensão: É agora que vais restaurar o reino de Israel? ; é agora que vão desaparecer definitivamente todas as nossas perplexidades e todas as nossas misérias? O Senhor responde-nos subindo aos céus (É Cristo que passa, 117).

Os relatos bíblicos são muito sucintos sobre este acontecimento que afirmamos no Credo. São Marcos, depois de narrar algumas aparições de Cristo ressuscitado aos seus discípulos, acrescenta: o Senhor, depois de assim lhes ter falado, elevou-Se ao céu e foi sentar-se à direita do Pai (Mc 16, 19). São Lucas, tanto no Evangelho como nos Atos dos Apóstolos, acrescenta alguns detalhes da cena: depois, levou-os até junto de Betânia e, erguendo as Suas mãos, abençoou-os. E enquanto os abençoava, separou-Se deles e começou a elevar-se ao céu. E eles adoraram-no (Lc 24, 50-52). Estavam olhando atentamente para o céu enquanto ele subia, quando se apresentaram diante deles dois homens com vestes brancas que disseram:

Um recinto octogonal delimita o local da Ascensão, que é recordado no centro, dentro de uma capela. Foto: Mattes (Wikimedia Commons).

- Homens da Galileia, porque estais aí parados olhando para o céu? Esse Jesus que, separando-Se de vós, foi arrebatado ao céu virá do mesmo modo que o vistes ir para o céu.

Então, voltaram para Jerusalém, pelo monte chamado das Oliveiras, que dista de Jerusalém a jornada de um sábado (At 1, 10-12).

De acordo com estes dados, a tradição situa a Ascensão no cimo da colina central do monte das Oliveiras, a pouco mais de um quilômetro da cidade, em direção a Betfagé e Betânia. Nessa elevação, de uns 800 metros de altitude, foi construída uma igreja durante a segunda metade do século IV. Segundo várias fontes, a iniciativa partiu da nobre patrícia Poemenia, que tinha ido de Constantinopla, em peregrinação, à Terra Santa. Esse santuário era conhecido com o nome de Imbomon. Graças à peregrina Egéria, sabemos que os fiéis de Jerusalém se reuniam nesse lugar para algumas cerimônias na Semana Santa e no dia de Pentecostes.

Da mesma maneira que o Santo Sepulcro e outros edifícios de culto da Palestina, o Imbomon sofreu danos quando da invasão dos persas, no ano 614, e foi posteriormente restaurado pelo monge Modesto. Contamos com uma valiosa descrição transmitida pelo bispo Arculfo, que o visitou pelo ano 670: trata-se de uma igreja redonda com três pórticos no interior, e uma capela também redonda no centro, não fechada com abóbada ou telhado, mas sim a céu aberto para lembrar aos peregrinos a cena da Ascensão; na parte oriental desse espaço havia um altar protegido por uma pequena cobertura, e no meio uma rocha muito venerada, pois os fiéis consideravam-na o último lugar onde o Senhor tinha pousado os pés, e reconheciam as suas pegadas impressas na pedra (Cf. Adamnano, De locis sanctis, 1, 23 (CCL 175, 199-200).

O santuário foi reformulado durante a época dos cruzados, quando uma parte se converteu em mosteiro dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho. No século XIII, os muçulmanos arrasaram todos os edifícios exceto a capela central – é a que chegou até nós – e posteriormente levantaram ao lado uma mesquita. Se bem que o lugar faça parte ainda hoje das propriedades do waqf – instituição religiosa islâmica –, na solenidade da Ascensão é permitido celebrar ali a Santa Missa: é um direito que os franciscanos da Custódia da Terra Santa obtiveram das autoridades otomanas.

Na capela não há culto, mas a Custódia da Terra Santa tem o direito de celebrar a Santa Missa em cada ano, por ocasião da festa da Ascensão. Foto: Alfred Driessen.

A capela ergue-se no centro de um recinto octogonal, circundado por um muro onde ainda são visíveis algumas bases das colunas do período dos cruzados. Segundo os estudos arqueológicos, a pequena igreja, também octogonal, apresenta a planta um pouco deslocada em relação à construção bizantina; mesmo assim, cumpre a mesma função: preservar a memória das pegadas de Jesus e da sua Ascensão. No exterior, têm particular interesse artístico os arcos e as colunas, rematadas com capitéis finamente esculpidos, pois são originais do século XII; o ‘tambor’, a cúpula e o fecho dos vãos com muros de pedra foram acrescentados mais tarde. No interior, uma abertura no pavimento, assinalada por quatro peças de mármore, deixa ver a rocha venerada.

Entrada definitiva

O mistério da Ascensão abrange um fato histórico e um acontecimento de salvação. Como fato histórico, «marca a entrada definitiva da humanidade de Jesus no domínio celeste de Deus de onde há-de voltar, mas que, entretanto, o oculta aos olhos dos homens» (Catecismo da Igreja Católica, n. 665).

Ao considerar esta cena, São Josemaria chamava a atenção, muitas vezes, para a despedida do Senhor: como os Apóstolos, ficamos meio admirados, meio tristes ao ver que nos deixa. Na realidade, não é fácil acostumarmo-nos à ausência física de Jesus. Comove-me recordar que Jesus, num gesto magnífico de amor, foi-se embora e ficou; foi para o céu e entrega-se a nós como alimento na Hóstia Santa. Sentimos, no entanto, a falta da sua palavra humana, da sua forma de atuar, de olhar, de sorrir, de fazer o bem (...). Sempre me pareceu lógico - e me cumulou de alegria - que a Santíssima Humanidade de Jesus Cristo subisse à glória do Pai. Mas penso também que esta tristeza, própria do dia da Ascensão, é uma manifestação do amor que sentimos por Jesus, Senhor Nosso. Sendo perfeito Deus, Ele se fez homem, perfeito homem, carne da nossa carne e sangue do nosso sangue. E separa-se de nós, indo para o céu. Como não havíamos de notar a sua falta? (É Cristo que passa, 117).

Como acontecimento de salvação, a entrada de Cristo ressuscitado no Céu manifesta o nosso destino definitivo: «Jesus Cristo, Cabeça da Igreja, precede-nos no Reino glorioso do Pai para que nós, membros do seu corpo, vivamos na esperança de estar um dia eternamente com Ele» (Catecismo da Igreja Católica, n. 666). O Papa Francisco a poucas semanas de ter sido eleito, fazia-nos refletir sobre este significado da Ascensão e sobre as suas consequências na vida de cada cristão. O seu ponto de partida era a última peregrinação de Jesus a Jerusalém, quando compreende que se aproxima a Paixão: «enquanto sobe à Cidade santa, de onde terá lugar o êxodo desta vida. Jesus vê já a meta, o Céu, mas sabe bem que o caminho que o leva a chegar à glória do Pai passa pela Cruz, através da obediência ao desígnio divino de amor pela humanidade. O Catecismo da Igreja Católica afirma que “a elevação na cruz significa e anuncia a elevação da Ascensão ao céu” (n. 662).Também nós devemos ter claro, na nossa vida cristã, que entrar na glória de Deus exige a fidelidade quotidiana à sua vontade, também quando requer sacrifício, requer às vezes mudar os nossos programas» (Francisco, Audiência geral, 17-IV-2013).

Um buraco no pavimento permite ver a rocha de onde, segundo a tradição, Jesus subiu ao céu. Foto: (Seetheholyland.net).

Comentando estas palavras, o Padre recordava: nNão esqueçamos, filhas e filhos meus, que não há cristianismo sem Cruz, não há verdadeiro amor sem sacrifício, e procuremos conformar a nossa vida diária com esta realidade gozosa. Porque significa darmos os mesmos passos que o Mestre seguiu (Javier Echevarría, Carta 1-V-2013).

Na mesma audiência, o Papa também tirava um ensinamento do sítio escolhido pelo Senhor para a sua partida: «A Ascensão de Jesus tem lugar concretamente no Monte das Oliveiras, perto do lugar onde se tinha retirado em oração antes da Paixão para permanecer em profunda união com o Pai: uma vez mais vemos que a oração nos dá a graça de viver fiéis ao projeto de Deus

(Francisco, Audiência geral, 17-IV-2013).

Comove-me recordar que Jesus, num gesto magnífico de amor, foi-se embora e ficou; foi para o céu e entrega-se a nós como alimento na Hóstia Santa. Sentimos, no entanto, a falta da sua palavra humana, da sua forma de atuar, de olhar, de sorrir, de fazer o bem.

Jesus subiu aos céus, dizíamos. Mas, pela oração e pela Eucaristia, o cristão pode ter com Ele a mesma intimidade que tinham os primeiros Doze, inflamar-se no seu zelo apostólico, para com Ele realizar um serviço de co-redenção, que é semear a paz e a alegria (É Cristo que passa, n. 120).

São Lucas refere que os Apóstolos, depois de se despedirem do Senhor, voltaram para Jerusalém com grande alegria (Lc 24, 52). Essa reação só se explica pela fé, pela confiança; os discípulos compreenderam que, ainda que não vejam mais a Jesus, «permanece para sempre com eles, não os abandona e, na glória do Pai, os sustenta, os guia e intercede por eles» (Francisco, Audiência geral, 17-IV-2013).