Homilia do Prelado do Opus Dei no primeiro aniversário da canonização de São Josemaria Escrivá

Queridíssimos: Passou um ano desde o dia feliz da canonização de São Josemaria Escrivá. Não posso deixar de recordar que, durante os longos meses de preparação espiritual para esse acontecimento.

Homilias
Opus Dei - Homilia do Prelado do Opus Dei no primeiro aniversário da canonização de São Josemaria Escrivá Dom Javier Echevarría, na Missa de ação de graças pela canonização de São Josemaria, 7/10/2002

Roma, Basílica de Santo Eugenio, 6 de Outubro de 2003

D. Javier Echevarría, Prelado do Opus Dei

1. Queridíssimos:

Passou um ano desde o dia feliz da canonização de São Josemaria Escrivá. Não posso deixar de recordar que, durante os longos meses de preparação espiritual para esse acontecimento de graça, o meu pensamento se detinha com frequência num ponto: a canonização deveria ser um novo encontro com Deus através da mediação deste santo sacerdote; devia ser, portanto, uma verdadeira e profunda conversão pessoal.

E assim foi. O dia 6 de Outubro de 2002, na Praça de São Pedro, tornou mais forte em nós a certeza que o Céu é o nosso porto definitivo, o lugar onde Deus nos espera, a meta da nossa vida. Da tapeçaria que pendia da fachada da basílica vaticana, o rosto sorridente de São Josemaria, dirigido a cada um de nós, comunicava-nos o núcleo da sua mensagem: a chamada universal à santidade.

O convite do Santo Padre na homilia da Missa, ajudou-nos a formular um propósito sincero: «Elevar o mundo a Deus e transformá-lo por dentro: eis aqui o ideal que o Santo Fundador vos indica (…). Ele continua a recordar-vos a necessidade de não vos amedrontardes por uma cultura materialista, que ameaça dissolver a identidade mais genuína dos discípulos de Cristo. Ele gostava de repetir com determinação, que a fé cristã se opõe ao conformismo e à inércia interior.

»Seguindo o seu exemplo, difundi na sociedade a consciência de que todos somos chamados à santidade, sem distinção de raça, classe, cultura ou idade. Esforçai-vos por ser santos, em primeiro lugar vós mesmos, cultivando um estilo evangélico de humildade de serviço, de abandono na Providência e de escuta constante da voz do Espírito. Desta forma, sereis “sal da terra” (cfr. Mt 5, 13) e “a vossa luz brilhará diante dos homens, para que vejam as boas obras que fazeis e louvem o vosso Pai que está nos céus” (Ibid. 16)» (1).

Para que este propósito se converta em realidade, deve manifestar-se desde o primeiro momento em atos de contrição pelas faltas grandes ou pequenas que há nas nossas obras, pela pobreza da nossa resposta aos dons de Deus. Esta é a perspectiva quotidiana, prática, a partir da qual devemos focar a conversão. Neste sentido hoje quero formular, para todos nós, o desejo de que o 6 de Outubro seja uma data que não se apague nunca da nossa memória. Um dos ensinamentos mais constantes na pregação de São Josemaria, não o esqueçamos, é esta: «Precisamente a tua vida interior deve ser isso: começar… e recomeçar (2) ».

2. Outro pensamento que me vinha à mente durante os meses de preparação era este: o 6 de Outubro ia ser uma festa de toda a Igreja. São Josemaria pertence ao patrimônio de santidade que constitui a insondável riqueza do mistério da Igreja: a sua doutrina e o seu exemplo indicam-nos um caminho que todos nós – homens e mulheres, jovens e idosos, sacerdotes e leigos, intelectuais e trabalhadores manuais, sãos e enfermos, casados, solteiros e viúvos – somos chamados a percorrer: «Elevar o mundo a Deus e transformá-lo por dentro», segundo a expressão usada pelo Papa.

«São Josemaria foi escolhido pelo Senhor para anunciar a vocação universal à santidade e para ensinar que a vida do dia-a-dia, as atividades comuns, são um caminho de santificação»

Um santo de toda a Igreja. Esta ideia percebe-se com clareza nas palavras pronunciadas por João Paulo II no dia a seguir à canonização: «São Josemaria foi escolhido pelo Senhor para anunciar a vocação universal à santidade e para ensinar que a vida do dia-a-dia, as atividades comuns, são um caminho de santificação. Poder-se-ia dizer que ele foi o santo da normalidade. Com efeito, ele estava convencido de que, para quem vive segundo uma perspectiva de fé, tudo é ocasião de um encontro com Deus, tudo se torna estímulo à oração. Considerada assim, a vida diária, revela uma grandeza insuspeitada. A santidade fica verdadeiramente ao alcance de todos» (3).

Tantos acontecimentos, grandes e pequenos, ocorridos durante este ano, ratificaram essa realidade com a força dos fatos. Temos recebido inúmeros testemunhos, provenientes do mundo inteiro e de todo o tipo de pessoas, que demonstram quanta gente recorre, de qualquer lugar, à sua intercessão perante Deus, e recebe favores espirituais e materiais; por vezes, verdadeiros milagres. A devoção a São Josemaria tem-se difundido ainda mais nestes meses que acabam de decorrer, e estimula-nos a ser cristãos coerentes, sem desfalecimentos.

3. Desejo acrescentar uma consideração consoladora e exigente ao mesmo tempo. Este santo, este sacerdote que goza de tão grande poder de intercessão perante Deus, continua exercendo – sobre cada um de nós – a paternidade que possuía quando estava na terra, e que era uma característica muito específica da sua personalidade humana e espiritual. Escutemos uma vez mais o Santo Padre: «Escrivá foi um santo de grande humanidade. Todas as pessoas que o conheceram, independentemente da cultura ou da condição social, não deixaram de o sentir como pai, totalmente consagrado ao serviço dos outros, porque estava persuadido de que cada alma é um tesouro maravilhoso, de que cada homem vale todo o Sangue de Cristo» (4).

Podemos ter, pois, a certeza de que do Céu se ocupa de nós, vela, reza para que sejamos fiéis aos planos de Deus. Com a graça divina, apesar das nossas limitações, qualquer meta espiritual se nos apresenta acessível. A santidade não é uma utopia. Mover-se guiados por esta esperança não é um sonho impossível. É verdade: a santidade alcança-se no quotidiano, ensinou São Josemaria; mas ser corrente não a torna trivial. Santidade é plenitude de amor. E o amor não dá espaço à mediocridade nem à rotina. O cristão deve voar alto.

Mas é uma certeza comprometedora. O vínculo filial que nos une a São Josemaria é inseparável da sua figura e da sua história; a figura e a história de um homem que se santificou cumprindo sem reservas a missão que Deus lhe confiou. Sobre este aspecto também falou o Papa no seu discurso: «O amor à vontade de Deus destaca-se na vida do Fundador do Opus Dei. De fato, existe um critério seguro de santidade: a fidelidade no cumprimento da vontade divina até às suas últimas consequências. O Senhor tem um projeto para cada um de nós, e confia a cada um uma missão na terra. O Santo nem sequer consegue conceber-se a si mesmo fora do desígnio de Deus: vive somente para realizá-lo (5).

Por tanto, São Josemaria fala-nos de fidelidade à vocação que Deus deu a cada um, fala-nos de perseverança, do dever de corresponder à graça de Deus que nos vem do Céu em cada circunstância. Na vida do cristão, dom e esforço pessoal entrecruzam-se sem poder separar-se.

4. Há poucos dias recordamos o septuagésimo quinto aniversário da fundação do Opus Dei. Para uma instituição que deve durar séculos, setenta e cinco anos são só o princípio. O nosso santo Fundador estava convencido de que quando o Senhor projeta uma obra, escolhe instrumentos absolutamente desproporcionados, inadequados, para que se veja que a obra é sua.

Nós, e tantas almas do mundo inteiro que se alimentam do espírito da Obra, somos esses instrumentos. Temos de suplicar perseverantemente a ajuda de Deus, conscientes da nossa pouca valia, e agradecer-lhe os frutos que nos concede. O melhor modo de expressar essa gratidão será amar cada dia mais os sacramentos, guardar zelosamente – junto a todos os nossos irmãos na fé – os bens com que Deus quis enriquecer a Igreja.

Permiti-me recordar ao mesmo tempo um desses bens: a estreita união, verdadeira devoção filial ao Papa, que São Josemaria nos ensinou. Esta união constitui um baluarte capaz de defender a fé dos cristãos face à influência de uma secularização que pretende tudo inundar.

Dentro de poucos dias, a 16 deste mês, em união com todos os católicos e com muitíssimos homens e mulheres de boa vontade, celebraremos o vigésimo quinto aniversário da eleição de João Paulo II como Sucessor de Pedro. Nesta efeméride queria que todos sentíssemos o dever de oferecer a nossa oração, a nossa mortificação e o nosso trabalho pelo Papa, pelas suas intenções, pela sua saúde. Mas não só isso: queria que nos sentíssemos também interpelados pelo testemunho da sua adesão à Cruz, cada vez mais evidente. No Santo Padre vemos hoje, de um modo eloquente, o rosto de Cristo que sofre, que carrega sobre si, pelo caminho do Calvário, o peso de toda a humanidade, tão necessitada de redenção. A união com o Papa, nestes momentos, significa sobretudo generosidade para levar juntamente com ele, sem queixas, com santa obstinação, com amor, com dignidade, cada dia, os nossos sofrimentos pessoais, participando na Cruz de Jesus Cristo.

Peçamos à Santíssima Virgem, erguida sobre o cimo do Gólgota, que vele com hábito maternal sobre o Papa e que no-lo conserve durante muito tempo, para bem da Igreja e de toda a humanidade. Assim seja.

(1) João Paulo II, Homilia durante a canonização de São Josemaria, 6-X-2002

(2) São Josemaria, Caminho, n.292

(3) João Paulo II, Discurso durante a audiência por ocasião da canonização de São Josemaria, 7-X-2002

(4) João Paulo II, Discurso durante a audiência por ocasião da canonização de São Josemaria, 7-X-2002

(5) João Paulo II, Discurso durante a audiência por ocasião da canonização de São Josemaria, 7-X-2002