Crescer: um projeto em família (2)

Ninguém chega ao mundo por acaso; cada pessoa vale muito, vale tudo. O valor da própria vida se aprende, em primeiro lugar, na família, espaço para a forja da personalidade.

Formação da personalidade
Opus Dei - Crescer: um projeto em família (2)

É a cara da mãe! O mesmo sorriso, esse movimento da mão enquanto fala... Até o modo de andar... Muitas vezes ouvimos ou fazemos comentários desse tipo. Porque, de fato, tomamos muitos os aspectos da personalidade de nossos pais e irmãos, sem perceber. Alguns traços são herdados, como a cor dos olhos ou o temperamento, o modo de ser; outros, ao contrário, são forjados com a convivência, os confrontos diários, a formação: a vida.

As características da maturidade pessoal (que foram tratadas nesta série de artigos) precisam ser cultivadas e crescer no contexto familiar. Por isso, como é importante cuidar da família! É, deve ser, a terra boa onde se inicia, se desenvolve e acaba nosso caminho: “em todas as fases da vida, em cada situação e condição social, somos e permanecemos filhos” [1].

A oração de muitas pessoas se dirigiu de todos os lugares do mundo aos padres sinodais para que, unidos ao Papa e com as luzes do Espírito Santo, interpretassem com profundidade os desafios com os quais a família se enfrenta. Porém a responsabilidade sobre a instituição familiar, querida por Deus, concerne a todos nós, quer seja como pais ou irmãos… e, ao mesmo tempo, sempre como filhos. Vamos considerar nosso papel no lar em duas etapas: na primeira, neste artigo, refletiremos sobre o que faz a família ser única, e o “ofício” de pais e filhos. Em uma segunda parte, aprofundaremos na vida familiar e nos detalhes que a enchem de luz e de alegria.

Dar o melhor no lar é dar-lhe tudo

Cada um tem sua história, a marca que tantas situações, alegres ou dolorosas, deixaram na sua vida. O nosso passado também faz parte dos planos de Deus, que às vezes são misteriosos para nós. Há lares em que não houve um exemplo cristão, ainda que cedo ou tarde a figura de Cristo acabou por aparecer em um amigo, parente ou professor. Em muitas outras famílias o carinho e o esforço para educar na fé, estão presentes junto com os defeitos e limitações de pais e irmãos.

Não escolhemos nossos familiares, porém Deus sim que os escolheu: Ele contava não só com suas virtudes, mas também com seus defeitos, para fazer-nos cristãos. “E, na família – disto todos somos testemunhas ‒, os milagres fazem-se com o que há, com o que somos, com aquilo que a pessoa tem à mão. Muitas vezes não é o ideal, não é o que sonhamos, nem o que «deveria ser»” [2].

Todos ‒ avós, país, filhos, netos ‒ estamos chamados a dar em cada momento o melhor de nós mesmos, com a ajuda de Deus, para que a família tenha uma ‘forma cristã’. Os pais também crescem com os filhos e, à medida que passam os anos, os papéis na família podem mudar: o que empurrava antes, agora é levado, o que ia à frente deixa seu lugar aos que vem atrás. O lar, que é formado por todos em conjunto, é muito mais que do primeiro recurso para as necessidades elementares de nutrição, calor e vestuário. É, junto com tudo isso, o lugar em que se descobre a beleza dos autênticos valores humanos; do domínio de si e do respeito, tão necessário para as relações interpessoais[3]; da responsabilidade, da lealdade, do espírito de serviço. Todos estes valores se forjam a fogo lento, que requer um simples, porém forte sentido de pertença: a consciência de não ter sido simplesmente jogados no mundo, mas acolhidos desde o princípio numa pequena porção de mundo, não feita de terra, mas de carinho: uma família.

O próprio Deus “quis nascer numa família humana, que Ele mesmo formou. Forjou-a num longínquo povoado da periferia do Império romano (...).E poder-se-ia dizer: «Mas este Deus que vem para nos salvar perdeu trinta anos ali, naquela periferia de má fama?». Perdeu trinta anos! Ele quis que fosse assim” [4].

Saber que nos amam

Centenas de vezes por minuto se renova na terra o que aconteceu também conosco, quando nascemos: «alegria que sente de haver nascido um homem no mundo» [5]. Somos, sim, um a mais entre tantos que nasceram no mesmo dia que nós... E, contudo, somos únicos e queridos desde toda a eternidade: «Cada um de nós é o fruto de um pensamento de Deus. Cada um de nós é querido, cada um de nós é amado, cada um é necessário» [6].

Ninguém chega ao mundo por acaso, cada pessoa vale muito, vale tudo. Inclusive quem talvez não conheceu os seus pais, ou foi acolhido em adoção por uma família. «cada alma é um tesouro maravilhoso; cada homem é único, insubstituível. Cada um vale todo o sangue de Cristo» [7]. A nossos pais, sejam quem forem, com seus defeitos e suas dificuldades, devemos tanto! Eles sabem tudo o que Deus espera deles, e se esforçam para responder a essa chamada suave, mas exigente: «era criança abandonada e fostes para Mim uma família; era órfão e Me adotastes e educastes como um filho vosso» [8].

As mães sabem distinguir elementos do temperamento: qualidades do choro, do sono, da fome... dos seus filhos desde as primeiras semanas de vida. Depois vem o primeiro sorriso, que é como o nascimento da personalidade, e ao mesmo tempo um dos primeiros sinais visíveis dessa capacidade de imitação tão evidente nas crianças, que imitam tudo o que vem. Os pais são para os filhos uma fonte de segurança: é eloquente esse gesto tão comum do pequeno que se abraça às pernas do o pai ou da mãe diante da chegada de um estranho. A partir desta segurança, a criança aprende a se comportar e a sair de si mesma, explorar o mundo e se abrir aos demais.

Não estamos totalmente determinados pelas circunstâncias do nosso nascimento e educação, mas para o crescimento harmônico da personalidade é decisivo que os filhos se saibam amados desde o primeiro momento na família para depois amar aos outros. O afeto e os cuidados – que incluem a exigência e fortaleza para ir polindo o egoísmo ao qual todos tendemos ‒ ajudam-nos a perceber o seu próprio valor e o dos outros: esse amor terno e forte dos pais lhes dá a autoestima que lhes permitirá amar, sair de si mesmos.

Os laços de amor que nascem numa família cristã não se rompem nem com o fim da vida. Quando alguém perde os seus pais nos primeiros anos, a fé faz ver ao próprio Jesus, a Santa Maria ou a São José, como seus representantes na terra, em muitas ocasiões através de outras pessoas de coração grande. Seguindo os passos desta Sagrada Família, tentamos ser muito humanos e muito sobrenaturais[9] e mantemos a esperança de que um dia acontecerá o que escreveu Santa Teresa: «Parecia-me estar metida no Céu, e as primeiras pessoas que ali vi foi a meu pai e a minha mãe»[10].

A autorrealização autêntica

“Mamãe, você gostava de cozinhar? Lavar a roupa? Limpar a casa? Levar-nos ao colégio?”. Este interrogatório de uma filha à sua mãe, já idosa, recorda à boa mulher esses momentos em que as coisas não iam bem, o cansaço diante dos trabalhos do lar, os apuros econômicos e as preocupações com as febres altas de inverno que derrubavam os pequenos…; um prato lançado contra a parede num momento de impaciência… E responde, lacônica: “gostar…, não muito, mas sim os amava muito e vibrava ao vê-los crescer”. Quantas mães e pais se comportam assim! Muitos poderiam ganhar um prêmio, comenta o Papa, pois aprenderam a «resolver uma equação que nem os grandes matemáticos sabem solucionar: em vinte e quatro horas fazem caber o dobro (...). De 24 horas fazem 48: não sei como fazem mas movimentam-se e fazem-no!»[11].

Uma família, não perfeita, mas harmoniosa, distingue bem a identidade de cada um dos seus membros. A autoridade é dos pais, mas não a impõem. Sua meta não é domar os seus filhos, mas guiá-los para desenvolverem as suas potencialidades, com a luz e o exemplo do seu carinho. São responsáveis, tanto o pai como a mãe, pelo ambiente de família e para cada um a entrega mútua e aos filhos converte-se em caminho de crescimento pessoal.

A convivência familiar também ajuda a descobrir talentos nos que talvez não tenhamos reparado, mas que os outros valorizam: capacidade de ternura, fortaleza de ânimo, bom humor, etc. O amor à própria família faz que, mesmo no meio das dificuldades, cada um tire o melhor de si, o lado positivo do próprio caráter. E quando, por cansaço ou tensão, aparecer o pior, será o momento de pedir desculpas e recomeçar. «Reconhecer que erramos e desejar restituir o que tiramos ‒ respeito, sinceridade, amor ‒ torna-nos dignos do perdão. É assim que se impede a infecção (…). Muitas feridas dos afetos, muitas dilacerações nas famílias começam com a perda deste vocábulo precioso: “Desculpa”». [12]

A mulher poderá descobrir que as suas qualidades como mãe são insubstituíveis. O esforço para ser fiel a Deus nesta missão a levará a criar um ambiente acolhedor e apto para o crescimento pessoal, para o carinho e o respeito, para o sacrifício e para o dom de si mesmo. «A mulher está destinada a levar à família, à sociedade, à Igreja, algo de característico, que lhe é próprio e que só ela pode dar: sua delicada ternura, sua generosidade incansável, seu amor pelo concreto, sua agudeza de engenho, sua capacidade de intuição, sua piedade profunda e simples, sua tenacidade...» [13].

O pai também se descobre como guia para os seus filhos: ajuda-os a crescer, brinca com eles e deixa que o modo de ser de cada um se desenvolva. Um pai cristão sabe que sua família será sempre seu negócio principal, onde se realiza em todas as suas dimensões. Por isso é preciso que esteja alerta perante os ritmos de vida muito intensos e estressantes, que distraem dos objetivos mais valiosos, e podem levar precisamente por isso a desequilíbrios psíquicos e a um prejuízo para as relações familiares.

Por isso é muito importante que os pais sejam próximos – sua ausência causa múltiplos problemas ‒, e que fomentem sempre o orgulho de transmitir aos filhos a sabedoria do coração![14]. Num lar «luminoso e alegre» [15], o pai vive e doa sua paternidade, a mãe vive e doa sua maternidade: qualidades complementares e insubstituíveis, capazes de encher o coração. E isto, independente de quantos filhos Deus enviar ao casal; e, se os filhos não chegarem, podem exercer uma paternidade e uma maternidade espiritual com outros membros da família e amigos.

A espera e o compromisso

«Talvez nem sempre estejamos conscientes disto, mas é precisamente a família que introduz a fraternidade no mundo» [16]. A estrutura básica dos povos, a paz das nações, se apoia no oferecimento livre, por amor, do homem e da mulher; na sua fidelidade a um sim que marca para sempre suas vidas.

Hoje é intensa a fome de aventuras. A oferta é múltipla: propostas variadas, intensas, breves, apaixonantes, como um mergulho no oceano, uma incursão ao teto do mundo ou um salto no vazio. O compromisso definitivo tem cores menos chamativas, porém sempre desperta admiração, porque fomos feitos para amar para sempre, e no fundo todas as outras coisas são passageiras. Um amor que não fosse para sempre, um sim com letra minúscula, não seria amor.

Na vida familiar é preciso suportar tempestades e crises, porém a fidelidade ao sim que fundou um lar pode ser sempre mais forte que todas elas: « o amor é forte como a morte» [17]. Grandes motivos fazem suportar grandes dificuldades; e aqui os motivos não são só uma ideia ou uma instituição: são, acima de tudo, pessoas. O sim do amor chega tão dentro do nosso ser que não podemos negá-lo sem destruir-nos.

É claro que todo grande projeto traz um grande risco, e muitos jovens hoje não se atrevem ao sim para sempre, por medo de errar. Porém é um erro ainda maior fechar as portas do amor ao qual o nosso coração está chamado. Por isso, trata-se de fortificar o coração, de fazê-lo crescer: esse é o sentido cristão do namoro, «um percurso de vida que deve maturar como a fruta,é um caminho de maturação no amor, até o momento que se torna matrimônio.»[18]. O melhor treinamento para esse sim, e o melhor test de sua solidez, é a capacidade de esperar, que a Igreja não se cansa de pedir aos namorados, embora às vezes não consigam entender os seus motivos: « Quem pretende tudo e imediatamente, depois também cede sobre tudo ‒ e já ‒ na primeira dificuldade (...). O namoro focaliza a vontade de preservar juntos algo que nunca deverá ser comprado ou vendido, atraiçoado ou abandonado, por muito aliciadora que seja a oferta»[19].

Os filhos aprendem de pais que guardam juntos esse amor. São estes lares que dão os melhores cidadãos, dispostos a sacrificar-se pelo bem comum: trabalhadores honrados nas suas coisas e nas dos outros, professores entusiasmados, políticos coerentes, advogados justos, médicos abnegados, cozinheiros que fazem do prato uma obra de arte... Sob esta sombra crescem novas mães e pais fiéis, e muitos que se entregam a Deus por completo para servir à família humana comum, numa vocação em que brilham também a maternidade e a paternidade.

Com o passar do tempo, a aventura prossegue: as paredes ficam pequenas, surgem novos lares, novos amores. Renasce o entusiasmo, a alegria de viver. Existe por isso «um vínculo estreito entre a esperança de um povo e a harmonia entre as gerações. A alegria dos filhos faz palpitar o coração dos pais e reabre o porvir»[20].

Wenceslao Vial


[1] Francisco, Audiência, 18-III-2015.

[2] Francisco, Homilia, 6-VII-2015.

[3] Cf. João Paulo II, Familiaris consortio, 22-XI-1981, n. 66.

[4] Francisco, Audiência, 17-XII-2014.

[5] Jo 16, 21.

[6] Bento XVI, Homilia no início do ministério petrino, 24-IV-2005.

[7] São Josemaria, É Cristo que passa, n. 80.

[8] João Paulo II, Carta às famílias, 2-II-94, n. 22.

[9] Cf. Forja, n. 290.

[10] Santa Teresa, Livro da vida, cap. 38.

[11] Francisco, Audiência, 26-VIII-2015.

[12] Francisco, Audiência, 13-V-2015.

[13] Questões atuais do cristianismo, n. 87.

[14] Cfr. Francisco, Audiências, 28-I-2015 e 4-II-2015.

[15] São Josemaria, É Cristo que passa, n. 78.

[16] Francisco, Audiência, 18-II-2015.

[17] Ct 8,6.

[18] Francisco, Audiência, 27-V-2015.

[19] Francisco, Audiência, 27-V-2015.

[20] Francisco, Audiência, 11-II-2015.