Um "continuum" de Amor

A sociedade indiana de filantropia, Sampradaan, publicou na sua revista anual um artigo que comenta os ensinamentos de São Josemaria.

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A expressão "obras de caridade" aplica-se tantas vezes a iniciativas sem fins lucrativos e a organizações não governamentais que esquecemos a sua origem: a caridade, o amor. Usamos a palavra filantropia (derivada etimologicamente da palavra grega que significa "amor ao homem") para definir o apoio em donativos a obras de misericórdia, algo que parece afastado da realidade da auto-doação pessoal.

O amor é: darmo-nos a nós mesmos aos outros. Damos a nossa estima e apreço ao outro, desejamos o bem para o outro, repartimos a alegria, compadecemo-nos da dor, ou procuramos socorrer as necessidades dos outros. Esta força vital e a comunhão mútua dão sentido ao que fazemos.

Mas, será assim? Será esse o motivo real da filantropia? Será o amor ao outro ou será o amor a mim mesmo? Inundados de preocupações administrativas, às vezes travamos batalhas insignificantes, talvez procurando o reconhecimento do nosso ego ou a evasão dos problemas por meios que não são propriamente rectos. Começamos com a melhor das intenções mas, em dado momento, ao longo do caminho, desviamo-nos para o egoísmo, o orgulho e a avareza.

De todos nós faz parte um "medidor de hipocrisia" que trabalha muito melhor para detectar a hipocrisia nas outras pessoas do que em nós próprios. Quando olhamos para o que tem sido a nossa vida, e contemplamos na oração as nossas ações, podemos examinar os motivos que nos moveram, com a ajuda de Deus, que é a fonte do amor, é o Amor: "Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, foi Ele que nos amou" (1 Jo 4, 10).

Toda a religião respeita a regra de ouro de fazer aos outros o que gostaríamos que nos fizessem a nós. De Deus aprendemos a amar. "Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o Seu amor é perfeito em nós" (1 Jo 4, 12). O amor indivisível é a receita mais segura contra a tristeza e seremos mais felizes quando fizermos as coisas por amor autêntico aos outros.

No âmbito da filantropia existe o risco da hipocrisia, da incoerência e de uma ruptura no “continuum” do amor. Talvez, seja mais fácil dar dinheiro para aliviar a nossa consciência, para imaginar que somos generosos para com uma multidão anônima de necessitados, que ser paciente com os detestáveis defeitos do marido. A filantropia soa a algo de sublime, importante e extremamente valioso. A amabilidade quotidiana no lar é agradável, mas não fica inscrita nos livros de história ou nos jornais. Passa despercebida.

No século XX, Josemaria Escrivá, que foi declarado santo a 6 de Outubro de 2002, ensinou o valor das coisas comuns, do serviço escondido aos outros. Dizia que o trabalho feito com amor se converte em trabalho de Deus. Aconselhava a viver a "unidade de vida" que impede que os crentes sejam espiritualmente esquizofrênicos, quer dizer, que digam com as palavras uma coisa e com as ações manifestem algo totalmente diferente.

Colocar os nossos talentos, as nossas energias e os nossos interesses ao serviço dos outros, isso é que é verdadeira auto-doação. É o sono que sacrificamos por um membro da família que está doente, conter um comentário irritado quando nos sentimos cansados de nós mesmos, procurar irradiar optimismo quando todos protestam, arranjar tempo para preparar um jantar familiar, fazer alguma coisa bem, inclusivamente se é outro que fica com o mérito.

O interesse humano é que é o verdadeiro "amor ao homem" que os gregos entendiam por "filantropia". Pode também ser expressão de amor para com Deus e para com as pessoas que Ele criou. Escrivá dizia a miúdo que Deus não se deixa vencer em generosidade. Nós descobrimos que, quando nos damos a nós mesmos, apesar de "ficarmos com menos", ganhamos muito mais. Quem trabalha pessoalmente em obras de caridade experimentou, de certeza, a felicidade inesperada que recebe em troca.

"A quem sentir a angústia de uma situação difícil, eu aconselharia que procurasse também esquecer-se um pouco dos seus próprios problemas para se preocupar com os problemas dos outros. Fazendo isto, terá mais paz e, sobretudo, santificar-se-á", dizia Escrivá (Temas atuais do cristianismo, n. 97).

A vida devia ser uma contínua luta por ser um melhor "filantropo". Não é necessário ter abundância de recursos para participar na filantropia: começa por te dar aos mais próximos de ti na tua vida diária, e Deus te ajudará a querer mais.

Barbara Spencer

Sampradaan, Nova Deli, Índia, 2004