Zezinha, a primeira numerária auxiliar do Brasil

Apresentamos uma breve biografia de Maria José de Jesus Silva, primeira numerária auxiliar do Brasil, que faleceu na madrugada do dia 3 de julho de 2011, festa de São Pedro e São Paulo. Mais longo do que o habitualmente publicado em nosso site, o texto abaixo é uma forma de agradecimento a Deus pela vida de Zezinha, como era carinhosamente chamada, e também a ela, com quem tanto aprendemos.

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Zezinha nasceu em Monteiro, Paraíba, em 1947. Cresceu numa família simples, na qual o sofrimento, às vezes muito profundo, não foi motivo para arrancar a alegria do lar e a delicadeza com que se tratavam entre si. Eram vinte e um filhos e vários morreram ainda muito jovens – fato comum na época, pela escassez de recursos – e isso serviu para unir ainda mais a família. Zezinha era a mais velha dos seis filhos que sobreviveram.

O seu pai, sr. Manuel, hoje com 96 anos, teve um papel fundamental nesse ambiente acolhedor no qual Zezinha viveu a infância. Sua maneira de enxergar a vida fez dele um poeta, embora não de profissão; sempre trabalhou no campo. Há alguns anos, algumas de suas poesias foram publicadas num livro, junto com outros autores. No último encontro que teve com a filha, ao sentir que seria a despedida final, deu-lhe a benção e recitou-lhe alguns poemas.

Marília (1957)

Em 1961, quando Zezinha teve o seu primeiro contato com a Obra, a família estava em Duartina, no interior de São Paulo. Perto dali, em Marília, há quatro anos tinha sido erigido o primeiro Centro do Opus Dei no Brasil, onde funcionava a Escola de Arte e Lar Ataupaba. O sr. Manuel viu na escola a oportunidade de que Zezinha tivesse uma melhor formação. Maria Laura Correia, uma das primeiras numerárias que vieram de Portugal para ajudar os trabalhos da Obra no Brasil, foi buscá-la em Duartina.

Ao chegar em Ataupaba, o que mais lhe chamou a atenção foi o ambiente de família da casa, ainda que fossem poucas as que lá moravam. Lembrava-se sempre do entusiasmo com que foi recebida. Em particular, impressionou-lhe como se vivia a pontualidade. Comentava que havia uma intensa exigência em relação ao profissionalismo, mas muito equilibrada com o carinho na maneira de exigir. Assim foi conhecendo o espírito da Obra mais a fundo e aprendeu como encontrar a Deus nas aulas e tarefas domésticas diárias: transformando cada pequeno detalhe do seu trabalho bem feito numa manifestação de amor a Deus. Descobria assim o “segredo” que fazia irradiar naquele Centro o calor de lar.

Escola de Arte e Lar Ataupaba (1959)

Numa ocasião, pouco depois de chegar, Zezinha caiu de cama, gripada. Coincidiu que o seu pai foi visitá-la, sem saber desse fato. Ao chegar, ficou impressionado com o carinho com que tratavam a sua filha, e confirmou-se nele a impressão de que ela estava no lugar certo.

Enquanto ela aprendia a realizar o seu trabalho por amor, foi percebendo que Deus a chamava para entregar sua vida a Ele, dedicando-se profissionalmente à atenção dos trabalhos domésticos das sedes dos centros da Prelazia. Ao ter a certeza da sua vocação, foi conversar com o pai, e contou-lhe que já não lhe bastava trabalhar num centro da Obra, ela queria fazer parte da família do Opus Dei. Continuaria cumprindo as mesmas tarefas com amor, mas agora com o coração de mãe, difundindo ao seu redor o calor de família da Obra. A notícia o deixou muito contente: entendeu que Zezinha estava fazendo a Vontade de Deus e apoiou a filha a vida toda. No dia 8 de dezembro, há quase 50 anos, Zezinha escreveu uma carta a São Josemaria, pedindo a admissão no Opus Dei, como numerária auxiliar. A primeira do Brasil!

Lourdes e Zezinha em Capivari (1963)

Em janeiro do ano seguinte, o Centro em que morava transferiu-se para São Paulo, capital, onde já se havia iniciado o trabalho apostólico do Opus Dei. Zezinha contava que sua primeira reação foi de tristeza. Num segundo momento, viu que aquela mudança seria fundamental para o crescimento da Obra e, cheia de entusiasmo e alegria, como sempre, dispôs-se a servir a Obra onde quer que fosse necessário.

Nessa época, Maria Augusta Almeida e Carminda Rodrigues, numerárias auxiliares portuguesas, já tinham vindo para o Brasil, além de Ascensión Escolano, da Espanha. Elas receberam Zezinha na Administração do Centro Universitário do Pacaembu, na Rua Gabriel dos Santos. Um ano depois, mudou-se para a Administração do Centro do Sumaré, residência do então Conselheiro da Obra no Brasil, Pe. Xavier Ayala.

Zezinha, Maria Augusta e Ascensión na Administração do Sumaré (1967)

Em 1974, conheceu pessoalmente São Josemaria, fundador do Opus Dei, na sua vinda ao Brasil. Teve a oportunidade de servi-lo como copeira, já que ele ficou hospedado exatamente no Centro em cuja Administração ela morava e trabalhava. Sabendo que ele se encantara com a natureza brasileira e, principalmente, com as cores e os perfumes das flores, Zezinha ofereceu-lhe uma rosa pequena. Agradecido pelo detalhe, São Josemaria colocou-a junto a uma imagem de São José, como manifestação da sua devoção ao Santo Patriarca.

Neide, Hilda, Zezinha e Helena no Sítio da Aroeira (1968)

Durante a estadia de São Josemaria no Brasil, era ela quem guardava os presentes que ele ia recebendo. Numa ocasião, ele ganhou um peixe de vidro, do qual gostou muito. Com um sorriso no rosto, dizia “Mira! Mira!”, mostrando o enfeite aos que estavam presentes. Zezinha tinha o divertido costume de dar nome aos objetos e “batizou” o peixe, que dizia ser uma “peixa”, de Mira-Mira. Até hoje o enfeite está exposto numa vitrine e é apresentado a todos como Mira-Mira.

Zezinha tinha muita facilidade para fazer amigas. Cativava de tal maneira, que todas as pessoas que se aproximavam dela se sentiam únicas: interessava-se por cada detalhe da conversa e procurava ajudar a encontrar soluções para os problemas que lhe contavam. A todos transmitia alegria e bom humor, que lhe eram característicos desde criança: tinha sempre uma piada para contar ou um comentário para descontrair. Possuía um caráter forte, mas sempre se esforçou para tornar felizes as pessoas à sua volta. De fato, levava as pessoas no coração.

Zezinha com São Josemaria (1974)

Por meio do seu exemplo, foi ensinando o espírito da Obra e o amor à vocação às outras numerárias auxiliares que, ao longo desses anos, pediram a admissão ao Opus Dei. Muitas delas conheceram a Obra através da amizade com Zezinha. Todas que conviveram com ela aprenderam alguma coisa que ficou marcada para sempre, desde detalhes como arrumar a franja de um tapete ao passar e ver que estava “embaraçada”, ou fechar uma janela ao perceber que a sala pode ficar fria demais, até pormenores de carinho que faziam uma pessoa sentir-se realmente querida.

Em 1998, mudou-se para Brasília, onde havia trabalho apostólico do Opus Dei com as mulheres desde 1984. Como de costume, fez muitas amizades por lá, inclusive com os familiares de suas amigas. Em particular, era amiga da dona de uma floricultura, cujo marido possuía uma Kombi, utilizada para transportar as mercadorias. Certa vez, o ônibus que buscaria um grupo de pessoas numa das cidades satélite, para assistir à Santa Missa em honra do então Beato Josemaria Escrivá, não cumpriu o combinado. Zezinha recorreu à sua amiga florista, que, por sua vez, acionou o marido, e este, com a sua Kombi, conseguiu levar a tempo as pessoas até a igreja.

S. Josemaria com a rosa que Zezinha lhe deu

Depois de cinco anos em Brasília, voltou a São Paulo. Atualmente, residia na Administração de uma casa de retiros do Opus Dei, onde funciona o Centro de Capacitação Profissional Casa do Moinho. Era um grande apoio para a formação das alunas, que fazem os cursos Técnicos de Cozinha e Hospedagem na área da Hotelaria.

Sempre rezou com alegria pela fidelidade de todos os membros da Prelazia e também para que muitas pessoas se aproximassem de Deus. Gostava especialmente de cuidar de Nosso Senhor no Sacrário, tendo muitos detalhes na ordem e na limpeza de tudo o que se referia à liturgia. Nos últimos anos, dedicou-se principalmente a essa tarefa e, de vez em quando, brincava: "cuidar de Nosso Senhor é muito bom, mas Ele dá trabalho!"

Zezinha e sua família

Estava atenta à sua saúde e fazia anualmente os exames de rotina. Em 2010, começou a sentir um pequeno incômodo na mama e resolveu investigar mais a fundo. Descobriu-se que se tratava de um tumor. Desde então, começou a oferecer, sem nunca perder o bom humor, a doença e as indisposições do tratamento pelas futuras vocações do Opus Dei e pela fidelidade das que já fazem parte da Obra. Apesar de as dores serem muito fortes, não manifestava expressão de sofrimento e, quando alguém lhe perguntava se sentia dores, a resposta era sempre a mesma: “um pouco”.

Em junho de 2011, foi diagnosticada a metástase no fígado e no intestino. Em 22 de junho, precisou ser internada no Hospital da Luz, em São Paulo. Recebeu muitas visitas que, diante do seu bom humor e preocupação com os outros – ainda que estivesse numa cama de hospital –, não tinham outra reação a não ser lhe pedir orações por intenções diversas. Zezinha fazia com que todos se sentissem à vontade, mesmo estando numa situação tão delicada.

Não perdia a oportunidade de agradecer cada pequeno serviço das enfermeiras. Por exemplo, antes mesmo de ir para algum exame, já estava dizendo “obrigada”. Muitas pessoas, não só da Obra, mas familiares e amigas, conseguiram se despedir de Zezinha no hospital, o que deixou as enfermeiras e os funcionários admirados pelo imenso carinho. Na recepção formavam-se filas de pessoas que aguardavam a oportunidade de estar, pelo menos por alguns instantes, ao lado de Zezinha.

Faleceu rezando o terço, no dia 3 de julho de 2011. Nos últimos dias, gostava de se imaginar numa romaria por todos os Santuários do mundo dedicados a Nossa Senhora, oferecendo a vida pela fidelidade alegre dos membros do Opus Dei, especialmente das numerárias auxiliares. Estou certa que celebrará as bodas de ouro de sua vocação no Céu, ao lado de São Josemaria.

Ao seu funeral compareceram muitos familiares, amigos e fiéis da Prelazia. Todos queriam manifestar gratidão pela sua fidelidade e sua alegria em servir. Os seus restos mortais repousam no túmulo da Prelazia, no cemitério Santíssimo Sacramento, em São Paulo.

Na homilia da Missa de corpo presente, Mons. Vicente Ancona Lopez, Vigário regional da Prelazia do Opus Dei no Brasil, afirmou: “Hoje se encerra um dos mais belos capítulos da história da Obra no Brasil: a vida santa da primeira numerária auxiliar da Região”.

  • Silvia Pinto Lima