Vida de Maria (XI): Regresso a Nazaré

Contemplamos os primeiros anos da Sagrada Família em Nazaré, no regresso do Egito, quando Jesus ia crescendo e fortificando-Se como homem graças aos cuidados de Maria e de José.

Nossa Senhora
Opus Dei - Vida de Maria (XI): Regresso a Nazaré

Não se sabe com certeza o tempo que durou a estadia da Sagrada Família no Egito. A maior parte dos estudiosos pensa que se prolongou por um ou dois anos. São Mateus, o evangelista que nos relata estes acontecimentos, mostra-se lacônico, como em outras ocasiões. Morto Herodes — escreve — o Anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egito e disse-lhe: "Levanta-te, toma o Menino e Sua mãe, e vai para a terra de Israel; porque morreram os que procuravam tirar a vida ao Menino" (Mt 2, 19-20).

A resposta do Patriarca foi imediata, como em outros momentos: Ele levantou-se, tomou o Menino e Sua mãe, e voltou para a terra de Israel (Mt 2, 21). Nem uma dúvida, nem uma vacilação. Apenas o tempo necessário para recolher as ferramentas do seu ofício, os poucos bens de que dispunha. Teria se despedido das pessoas em cuja companhia tinha vivido aqueles meses e teria feito as diligências adequadas para empreender o regresso.

"José levantou-se, tomou o Menino e Sua mãe, e voltou para a terra de Israel " (Mt 2, 21). Nem uma dúvida, nem uma vacilação. Apenas o tempo necessário para recolher as ferramentas do seu ofício, os poucos bens de que dispunha.

As tradições coptas indicam que a Sagrada Família fez a viagem de regresso por via marítima, e não por terra. É uma hipótese provável. Uma vez terminado o perigo, esse caminho era mais econômico e oferecia menos privações do que as trilhas das caravanas terrestres. Provavelmente partiram em alguma das numerosas embarcações que sulcavam o Nilo a partir de Menfis (atualmente Cairo) até Alexandria, onde apanhariam um pequeno barco que, em quatro ou cinco dias, navegando próximo da costa do Mediterrâneo, atracava em Ascalón, Joppe ou Yamnia.

Ao desembarcar, José recolheu informações sobre o novo rei da Judeia. Era Arquelau, filho de Herodes, e quase tão cruel como o pai, pois acabava de decapitar milhares de súditos no próprio Templo. Num primeiro momento, o esposo de Maria tinha pensado estabelecer-se em Belém, lugar do nascimento do Messias; mas como o anjo não tinha indicado nada de concreto — tinha-lhe dito somente que regressasse à terra de Israel — encarou a possibilidade de ir para um lugar que não estivesse sujeito à jurisdição do rei. O Senhor confirmou-o nos seus propósitos por intermédio de um anjo: ouvindo dizer que Arquelau reinava na Judeia (...), teve medo de ir para lá; e, avisado por Deus em sonhos, retirou-se para a região da Galileia (Mt 2, 22). Se a profecia de Miqueias tinha anunciado o nascimento de Jesus em Belém, outros oráculos — como São Mateus indica — designavam Nazaré como o lugar onde o Messias havia de crescer e chegar à idade adulta. E foi habitar numa cidade chamada Nazaré, cumprindo-se deste modo o que tinha sido anunciado pelos profetas: "Será chamado nazareno" (Mt 2, 23).

A viagem de regresso foi tranquila e com curtos momentos para o repouso. Podemos imaginar a emoção da Virgem e do seu Esposo quando, ao atravessar a planície de Esdrelón, já na Galileia, foram descobrindo os locais que lhes eram familiares, nos quais tinham decorrido os anos da sua meninice e adolescência. Em Nazaré reencontraram-se com parentes e amigos, que ficariam assombrados ao vê-los regressar depois de tantos meses sem terem notícias deles. Não faltariam as perguntas embaraçosas, motivadas pelo carinho e uma sã curiosidade, a que responderiam com descrição, para não revelar a verdade sobre Jesus que só eles conheciam e guardavam no coração.

Era uma família em que o amor a Deus e aos outros se identificava com os cuidados que dispensavam a Jesus, Verbo eterno do Pai.

Instalaram-se em uma pequena casa, uma construção pobre contígua a uma das grutas tão frequentes em Nazaré. Talvez a encontrassem em mau estado, depois de tanto tempo sem estar habitada, mas não se lamentaram: imediatamente puseram mãos à obra. José reparou-a do melhor modo possível, Maria limpou-a com cuidado, talvez ajudada por Maria de Cléofas, sua prima, mãe de Santiago e de José, de Simão e de Judas e de outras pessoas da família.

A vida e o trabalho da Sagrada Família retomaram o seu ritmo quotidiano, sem nenhum acontecimento especial digno de referência. São Lucas, que a partir deste momento retoma a sua narração, refere apenas que o Menino crescia e fortificava-Se cheio de sabedoria, e a graça de Deus estava com Ele (Lc 2, 40). A Virgem Santíssima, como todas as mães, seguia com olhar amoroso o crescimento humano do seu Filho e Senhor, cheia de admiração diante da naturalidade do modo de agir de Deus. José trabalhava com empenho, agradecido de servir com o seu trabalho o mistério da Redenção. Era uma família em que o amor a Deus e aos outros se identificava com os cuidados que dispensavam a Jesus, Verbo eterno do Pai, que aprendia a falar com palavras humanas e a amar com coração de homem.

J.A. Loarte