Traços principais da personalidade de São Josemaria: um coração de Pai e de Mãe

São Josemaria possuiu a excelência de todas as virtudes naturais e sobrenaturais, vividas em grau heróico, à altura da missão que o Senhor lhe confiou. Lançando um olhar para o século XX, que foi realmente o seu - viveu-o e amou-o apaixonadamente -, verificamos como se antecipou aos tempos (da cultura, da sociedade, da Igreja), lutando pela superação das suas profundas crises.

Bibliografia e ensaios

São Josemaria possuiu a excelência de todas as virtudes naturais e sobrenaturais, vividas em grau heróico, à altura da missão que o Senhor lhe confiou. Lançando um olhar para o século XX, que foi realmente o seu - viveu-o e amou-o apaixonadamente -, verificamos como se antecipou aos tempos (da cultura, da sociedade, da Igreja), lutando pela superação das suas profundas crises. Esta foi a razão do seu existir, e por ela se “espremeu como um limão”, para que Cristo reinasse sobre todas as coisas e fosse levado pelos cristãos ao cume de todas as atividades humanas.

1. Estas crises mundiais são crises de santos

A espiritualidade do Opus Dei (que, pela graça e total inspiração de Deus, viu naquele 2 de Outubro de 1928) abriu um novo caminho de santificação pessoal, fundamentado na filiação divina, vivida com um sentido de unidade que definitivamente enlaça o temporal e o eterno, a terra e o Céu, a contemplação e a acção; reconciliação que se chama amor, que inunda de alegria e de paz os sofrimentos e as tribulações, dando dimensão de transcendência ao mais pequeno pormenor da criação e a toda e qualquer tarefa humana. Este caminho de santificação, a que todos e cada um somos universalmente chamados, responde aos desafios do novo milénio, às exigências de evangelização de um mundo congregado pela fé e pelo amor, como no-lo recorda João Paulo II. Apelo especialmente relevante e significativo, na medida em que vivemos uma cultura da desagregação, mais propriamente falando uma anti-cultura, sem valores à altura de unificar esta multiplicidade dispersa.

Falar de São Josemaria não é tarefa fácil.

Com efeito, se é sempre e já difícil falar da pessoa humana, muito mais árduo é falar de uma pessoa santa. Neste caso, de um grande santo para os nossos tempos, um dos homens que mais carismas receberam na história da Igreja e que corresponderam com maior generosidade aos dons de Deus[1], em palavras de Paulo VI; um desses santos que a Providência divina suscita de longe em tarde, com intervalos de séculos, para renovar a Igreja, segundo testemunho do então Cardeal Arcebispo de Milão Ildefonso Schuster[2], já beatificado, para mais não citar.

A vida de São Josemaria é uma perfeita união entre o natural e o sobrenatural. Falar deste coração de pai e de mãe é aceitar o convite de abertura da razão às instâncias de sentido que a precedem e a excedem, e às quais ela incessantemente aspira, no afã inquieto por alcançar a plenitude. Instâncias de sentido que se consubstanciam, mesmo a nível simplesmente humano, em torno do fenómeno da fé. Ninguém vive sem crenças, toda a postura existencial as supõe: este foi um dos gritos da filosofia contemporânea de recorte vitalista/ existencialista. Merleau-Ponty, entre outros, destaca, no seu agnosticismo, a primazia da fé filosófica, da crença no mundo.

Com efeito, o saber humano, a partir da modernidade, não levou a cabo a sua melhor opção, ao tentar divorciar a razão da fé, na senda de uma lógica nominalista e dicotómica que também tentou emancipar o pensamento da realidade.

A pobre razão humana, fechada na soberba da sua pseudo-autonomia, tornou-se, há mais de três séculos a esta parte, superficial e preguiçosa. Míope, face ao sentido profundo e misterioso em que se alicerça o existir, não vai além do efeito, do fascínio pelo produzido. Não penetra no âmago do homem, não intima com ele, ignorando, por desafecto, a essência invisível e sobrenatural de toda a manifestação.

É assim que o saber actual erige o edifício do seu próprio enclausuramento, ao ponto de desencadear, por parte da pós-modernidade, o movimento da sua desconstrução. À tentativa de construção de um saber sem Deus, segue-se-lhe a da desconstrução de um saber sem o homem.

Não é meu propósito desenvolver aqui questões académicas que poderiam ser emblemáticas do hodierno filosofar, tão bem reflectidas pelo Papa João Paulo II na encíclica A fé e a razão.

Estas breves considerações introdutórias têm como objectivo a simples chamada de atenção para o impacto contemporâneo da vida de São Josemaria sobre a cultura e a ciência do seu tempo. Face ao santo, o sábio sente-se incapaz. À lógica da simples coerência teórica de um discurso auto-possessivo e abstracto, escapa o espírito que anima a vida do santo, a graça divina, cuja lógica de amor encontra a sua plena realização no escândalo e na loucura da Cruz.

Tinha razão São Josemaria quando afirmava que era mais fácil ser sábio do que santo, embora mais acessível ser santo que sábio[3]. Não é complicado ser santo, mas é muito difícil. Exige uma luta sem trégua contra a soberba, a renovação da má em boa vontade, pela humildade e pela fé. É a isto que se chama heroicidade. Com efeito, ao sábio não se lhe pede o que se pede ao santo: que se despossua (do seu saber e de si mesmo) para se repossuir em Deus, numa entrega heróica e generosa. Entrega supra-racional, e nunca irracional, como pretendeu o modernismo, num convite esquizofrénico de vivência da fé apartada das realidades temporais. A modernidade criou realmente um hiato entre o sábio e o santo, e forjou uma caricatura de ambos. Acabou por dominar o imperialismo do sábio, responsável pela dessacralização do mundo, por uma laicização de signo agnóstico, quando não ateu.

O santo, esse parece ter-se eclipsado, por ausência de expressão social. Na partilha de terrenos, a entrada do santo na cidade dos homens parece ter sido pura e simplesmente vetada. E disto teve prematura consciência São Josemaria, ao proclamar em alta voz: estas crises mundiais são crises de santos[4], de santos com um profundo sentido laical.

O século XX conheceu avanços científicos e tecnológicos sem precedentes. A filosofia, bem como as demais ciências humanas, alcançou quotas de teorização e complexidade impressionantes. O poder sediou-se no saber. Mas este último, apartado do real, perdeu o senso, arquitectando utopias que flagelaram a humanidade com os maiores horrores, em quotas de degradação que a mesma humanidade, em palavras de H. Arendt, tem de perdoar[5].

Impressiona a actualidade do carisma fundacional com que o Senhor o agraciou. Só através da santidade a que todos, sem excepção, estamos chamados, por meio da santificação das estruturas do mundo, e através delas (algo que viu preclarissimamente várias décadas antes do Concílio Vaticano II), se pode renovar a face desta terra dessacralizada e desta humanidade paganizada, no arranque do terceiro milénio.

Só o santo pode reencaminhar o sábio (e todas as multidões que idolatricamente o seguem), numa busca amorosa da verdade; reconduzi-lo ao fundamento que conforma e ilumina o seu conhecer e o seu querer, a fim de que se reate a tradição anselmiana: credo ut intelligam (creio para entender).

São Josemaria cumpriu exemplarmente o que viu naquele 2 de Outubro, e que não mais deixou de anunciar: a santificação de todas as realidades temporais, assumidas por Deus Encarnado. Assinala, deste modo, ao sábio, a chave que abre definitivamente as portas do sentido, que se não tem as suas raízes na razão pura, fria e neutral, mas no coração do Homem-Deus e, por Ele, no coração do homem. O materialismo cristão[6], característico do perfil de santidade que nos brindou, provoca o sábio; e convoca-o à escuta despreconcebida da verdade como dom.

2. A miséria do pecador e a grandeza da sua filiação divina

A existência de São Josemaria está totalmente enraizada no mais profundo sentido da Verdade como Dom: Que possuis tu que não tenhas recebido de Deus? - interpelava constantemente [7]. Verdade que é também Caminho e Vida.

Eu não sou nada, não tenho nada, não valho nada! Nada! Nada!, repetia sem cessar [8]. Estava plenamente convencido de que tudo, absolutamente tudo, o recebera gratuitamente das mãos amorosas do seu Pai Deus. Um Pai providente que nos dá todas as coisas e que no Filho demonstra que o seu Amor não são apenas palavras, mas actos de suprema generosidade[9].

Esta realidade ficou-lhe bem gravada na alma quando, a 16 de Fevereiro de 1932, em Madrid, ao dar a comunhão a umas freiras na Igreja de Santa Isabel, dizia com ambição de criança: Amo-te mais do que esta... e que esta... e que esta...; imediatamente ouviu, como resposta, no íntimo do coração: Obras é que são amores; não as boas razões![10].

Tudo se recebe de Deus menos o pecado, fruto do uso pervertido do maior de todos os dons: a liberdade pessoal. Talvez por isso mesmo, e num gesto de suprema e sincera humildade, resumiu assim a sua vida ao escolher o epitáfio: Peccator (Pecador). Eu sou um pobre pecador que ama com loucura Jesus Cristo[11]. Pecador que aborreceu por completo o pecado, ao qual tinha – inclusivamente ao venial – verdadeiro horror[12].

Sendo quase uma criança, a nova Eva que, como a primeira, nasceu sem pecado, a Virgem Maria, correspondeu plenamente à graça, no uso perfeitíssimo da liberdade. No seu fiat corredentor, encontrou São Josemaria o porto mais seguro, enchendo-a com puras delicadezas de um coração enamorado. Dizia muitas vezes aos seus filhos:

Se nalguma coisa quero que me imiteis, é no amor que tenho à Virgem[13].

À protecção da criatura mais perfeita saída das mãos de Deus - filha de Deus Pai, mãe de Deus Filho, esposa de Deus Espírito Santo (como costumava dizer [14]) - se acolheu desde muito cedo, suplicando-lhe como filho pequeno tudo aquilo de que se via tão necessitado. Ainda muito jovem, ele - que de menino não tinha beijos prontos para saudar as visitas na casa dos pais - sempre que saía do seu quarto para se ocupar das coisas que o Senhor lhe confiara, beijava a imagem de um quadro da Virgem Maria, pedindo-lhe oitenta anos de gravidade. E essa Virgem dos Beijos, de milhares de beijos sem fim, num gesto de intervenção extraordinária que sempre guardou com o maior pudor, sorria-lhe ternamente.

Tal como no Magnificat, a baixeza da sua condição de servo era o leitmotive da sua bem-aventurança. Que Tu cresças, e eu diminua, jaculatória do mais profundo sentido ascético, proferida espontaneamente sempre que subia umas escadas[15]. E era assim, sobrenaturalizando naturalmente o natural, e naturalizando naturalmente - sem rebaixamentos - o sobrenatural (por exemplo, ao deixar passar em primeiro lugar o seu Anjo da Guarda numa porta, com um gesto de delicadeza imperceptível), era assim - dizia - que, da prosa quotidiana, fazia estupendos decassílabos [16]. Versos heróicos forjados numa luta constante e abnegada, com a perseverança e a tenacidade de um aragonês persistente (tozudo). A lutar! A lutar!, Grito de ânimo, saído da voz carinhosa de um pai que quer ajudar o filho, o irmão, a prosseguir no caminho de encontro com o Senhor. A impressionante humildade que transparecia da sua pessoa, sem qualquer resquício de apoucamento, tinha como fundamento a filiação divina, vivida até ao últimos instantes do seu existir terreno com a mesma paixão e juventude dos primeiros anos. Melhor dizendo: com mais paixão e mais juventude. O frescor do seu coração vigoroso, num pobre corpo já gasto, levara-o a oferecer a vida - e mil vidas que tivesse - pela Sua Mãe, a Santa Igreja, tão conturbada na era pós-conciliar. Esta filiação divina, que aprendera dos seus pais na recitação do Pai-Nosso, conheceu matizes inapagáveis naquele 16 de Outubro de 1931, como relata nos seus Apontamentos Íntimos:

Quis fazer oração depois da Missa, na quietude da minha igreja. Não o consegui. Em Atocha, comprei um jornal (o ABC) e apanhei o eléctrico [...] não consegui ler mais do que um parágrafo do jornal [...]. Senti afluir a oração afectiva, copiosa e ardente [---]. Senti a acção do Senhor que fazia germinar no meu coração e nos meus lábios com a força de algo imperiosamente necessário, esta terna invocação: Abba, Pater! E andei pelas ruas de Madrid talvez uma hora, talvez duas... o tempo passou sem o sentir. Devem ter-me tomado por doido. Estive a contemplar com luzes que no eram minhas essa verdade assombrosa que ficou acesa como uma brasa na minha alma, para nunca mais se apagar [...] Compreendi que a filiação divina havia de ser una característica fundamental da nossa espiritualidade, ey que, ao viver a filiação divina os meus filhos estariam cheios de alegria e de paz, também no sofrimento próprio e alheio[17]. Quer dizer: a oração mais elevada teve-a no bulício da rua, nell bel mezzo della strada. Essa era a sua cela.

3. Alegria e paz do fundador do Opus Dei

Alegria e paz: consequência de quem se sabe filho de Deus. Esta era a tónica marcante do seu carácter que, muito embora de temperamento enérgico e forte, rápido e impulsivo, nada teve de violento, e sempre revelou um perfeito autodomínio, como nota Javier Echevarría[18]. A heróica luta para domar o potro[19], como humoradamente dizia, fez dele esse burro sarnento[20], obediente e simpático, sempre pronto a dar mais uma volta à nora, por muito que pesasse a carga e o cansaço, com o entusiasmo do primeiro dia.

Impressiona-me a sua predilecção pelo burrico - um jumento fora o trono do Senhor em Jerusalém -, nos antípodas do asco que lhe tinha Nietzsche. A descrição que o filósofo faz deste animal é uma verdadeira antítese da de Josemaria Escrivá[21]. Afinal, Zaratustra, o Anti-Cristo, tinha que odiar as virtudes da humildade e da obediência, a alegre laboriosidade do burrico. É bem certo que o demónio – que nunca tira férias - está sempre pronto a meter-se na vida dos homens. E ao burrico sarnoso, como é bem sabido, rondou-o frequentes vezes, saindo sempre vencido.

Alegria e paz, forjada na mortificação passiva e activa, intensificada esta última quando se tratava de arrancar do Senhor grandes benefícios: a compreensão da Obra de Deus que tanto padeceu a contradição dos bons, a expansão apostólica, a aprovação jurídica da Obra, que chegara com um século de antecedência ..., e, no final da vida, a profunda crise que atravessavam alguns sectores da Igreja. Grandes motivos para completar, na sua carne, o sofrimento redentor da Paixão de Cristo. Não era outro o sentido do cilício, das disciplinas, da dura mortificação corporal a que se submetia, com a maior naturalidade e discrição. Uma alma apaixonada anseia o que anseia o seu amado: meter-se nas chagas de Cristo, sendo também ele uma chaga, um corpo a chispar sangue e uma alma em brasa a incendiar todos os caminhos da terra. Nos Apontamentos Íntimos, anota: Senhor! Concede-me ser tão teu que não entrem no meu coração nem os aspectos mais santos senão através do teu Coração chagado[22].

Na alegria, nenhum dia sem Cruz!: lema que figurava na primeira página da sua agenda, renovado ano a ano, para que a todos os pequenos ou grandes incidentes quotidianos não faltasse o sal da mortificação.

Padeceu graves doenças físicas. Entre elas, destaca-se uma terrível diabetes mellitus, que sofreu durante dez anos (entre 1944-54), e da qual se curou inexplicavelmente. As fortes e contínuas dores de cabeça, a extrema sede, os ataques de fome devidos à descarga de insulina, as febres altíssimas, os tumores que se lhe formavam, a diplopia - visão dupla - durante uma longa temporada, e mesmo a perda de visão, foram outras tantas ocasiões de vivência bem humorada do sofrimento, num total esquecimento de si em benefício dos outros. Este talante é próprio de quem muito percebe do jogo do amor de Deus e de quem toma a Cruz por trono. As reacções manifestadas face à doença surpreendiam, certamente, aqueles com quem mais intimamente convivia e abria a alma: os seus custódios. Eles foram os testemunhos mais directos da fé gigantesca de um homem que nunca fez a sua vontade, que nunca se sentiu só nem aborrecido. Os demais não chegavam a aperceber-se que, por detrás de um sorriso franco e irradiante, a iluminar todo o rosto, de uma voz simultaneamente forte e meiga, de um olhar profundo e claro (que penetrava até ao âmago da alma), de uns braços, ora abertos em gesto decidido, ora apertados em cruz contra o peito, em gesto humilde e acolhedor, de umas mãos vibrantes ao ritmo do coração; por detrás de todo um porte elegante e erecto, de uma batina de irrepreensível pulcritude, mil vezes remendada, tem mais bordados que um xale de Manila, como dizia cheio de humor[23], se escondia uma carne repleta de hematomas e, no final da vida, os quatro ossos que restam do meu pobre corpo[24].

Na última viagem de catequese pela América, quem imaginaria que estava praticamente cego? Foram, sem dúvida, esses olhos da alma que o Senhor lhe abrira ao fim de onze anos de humilde petição - Senhor, que veja! Senhor, que seja! -, foram esses olhos que desde então viram sempre, que, no final da vida, supriram as deficiências da cegueira física a que o Senhor o não poupou; cegueira, em grande parte agravada pelas lágrimas de dor que derramou, em noites intermináveis de insónia, rezando de pena pela sua Mãe, a Santa Igreja, e pelo Romano Pontífice, o doce Cristo na terra, a quem queria com loucura.

Padeceu também muitos e dolorosos sofrimentos morais: escárnios, calúnias (ao ponto de se sentir uma escarradeira), diabólica tentativa de o expulsar da Obra de Deus, há precisamente meio século... Superava estas circunstâncias imediatamente (era raro referi-las), tal como uma mãe esquece tudo o que sofreu por um filho. E não o fazia por um empenho esforçado da vontade sobre a memória, mas porque podiam mais as delícias de estar com os seus filhos, em quem via bulir o sangue de Cristo. A este propósito, costumava dizer: «Não precisei de aprender a perdoar, porque o Senhor me ensinou a amar »[25].

Alegria e paz que irrompia num permanente cântico de acção de graças à Santíssima Trindade (Obrigado, meu Deus, obrigado)... Quem tudo recebe como vindo das mãos de Deus, tudo agradece. Daí o profundo optimismo realista, concretizado no lema paulino que ungia o seu quotidiano: Tudo é para bem.

Em certa ocasião, estando em jogo a própria honra - talvez o que mais prezava como bom aragonês -, imediatamente reagiu, recorrendo ao sacrário do Oratório de Diego de León em Madrid, num gesto de absoluta entrega: Senhor, se Tu não necessitas da minha honra, eu para que a quero?[26]

Alegria de coração apaixonado que semeou de Ave-marias e de canções as estradas da Europa calcorreadas em inúmeras viagens de catequese e apostolado, e também nas romarias aos santuários da Virgem espalhados pelo mundo, para suplicar e para agradecer. À minha - nossa - Virgem de Fátima, em Terras de Santa Maria, visitou-a uma dúzia de vezes. Sim, porque outras viagens não fez. Morreu sem experimentar o que era ser turista. Morreu, por isso mesmo, sem ter visitado a Terra Santa, que apenas conheceu pelo pensamento e pela imaginação, num constante peregrinar com Cristo através das diferentes cenas evangélicas.

Alegria que irrompia espontaneamente a cantar, a rezar cantando as canções populares, que se referem quase sempre ao amor. Delicio-me a ouvi-las ... e transformássemos em divino o amor nobre das cantigas humanas [27].

Elevava ao Senhor, logo pela manhã, a bela voz de barítono, fina e agradável[28], quando, ao oferecer-Lhe o dia, muitas vezes cantava as orações que aprendera dos lábios da sua mãe. Recordo essa, de sabor místico e acentuado tom profético, que remonta a Teresa de Ávila, e que lhe ensinara uma das avós: «sou teu, para Ti nasci, que queres, Senhor, de mim?[29]. No final do dia, já recolhido em oração no quarto, cantava frequentemente ao Senhor e a sua Mãe Santíssima, até reconciliar o sono. Gostava de cantar e de ouvir cantar os seus filhos e filhas, ao som de guitarras e de moderníssimos conjuntos musicais, como, por exemplo, o das raparigas de Ville delle Rose, em Castelgandolfo.

4. O Verbo Encarnado: modelo de unidade de vida

Desde a infância, pelo seu carácter leal e sincero, São Josemaria era uma personalidade íntegra que vivia naturalmente a unidade de vida. Sempre odiou a hipocrisia e o fingimento, aborrecendo, já na escola, que os companheiros, (aproveitando a ambiguidade da língua castelhana que pronuncia de igual maneira o b e o v), lhe chamavam "Escriba". Imediatamente corrigia a pronúncia, não consentindo ser alcunhado de "escriba e fariseu".

A virtude humana que mais prezava era a sinceridade, aconselhando os seus filhos a serem selvaticamente sinceros[30]... e nunca sinceramente selvagens, como humoradamente costumava acrescentar.

A vivência da unidade foi um dom que recebeu de Deus, radicado num coração magnânimo; coração que, como ele próprio afirma, é tido por resumo e fonte, expressão e fundo íntimo dos pensamentos, das palavras, das acções[31].

Tudo fazia de coração, símbolo da unificação de todas as potências do homem. Sua mãe, Dona Dolores, desde muito cedo o intuiu, avisando-o de que, com esse coração tão sensível, iria sofrer muito na vida. A este propósito, comenta Javier Echevarría: Garanto que aquele presságio materno se cumpriu[32].

Sobre um tal coração assentou a dimensão sobrenatural da unidade de vida, característica da espiritualidade do Opus Dei, e que tem em Cristo o modelo perfeito: Voltemos os nossos olhos para Jesus Cristo, que é o nosso modelo, o espelho em que nos devemos olhar[33].

Os seus escritos são profundamente cristológicos. Não palavras teóricas, mas vida apaixonada e intensa de amorosa identificação.

Desde muito jovem, quando aos quinze anos, pressentiu o Amor, entregou o seu coração ao Coração de Cristo, em quem habita corporalmente toda a plenitude da divindade[34]. Corações partidos, eu não os quero, e se eu lhe dou o meu, dou-lho inteiro[35].

Com o mesmo coração que chorou de dor e velou os túmulos de seu pai José e de sua mãe Dolores, São Josemaria chorou, destroçado, no Peru, em 1974, ao ver as fotografias de uma igreja soterrada - apenas ficara à superfície o campanário - por um enorme deslizamento de terras. Pensando em Jesus sacramentado, sepultado aí, passou a noite inteira em oração e adoração.

A santificação da vida corrente, inspirada na corredenção operada também nos trinta anos de vida oculta em Nazaré, é um carisma fundacional que veio reavivar algo que estava esquecido; algo que tanto urge não só ao cristão, mas a qualquer homem de hoje, estilhaçado por uma cultura de mosaico - característica da pós ou tardo modernidade - e por uma ciência cada vez mais sectorial, incapazes de responder ao sentido de unidade que toda a personalidade psiquicamente equilibrada reclama.

Unidade de vida: sobrenaturalização dos mais ínfimos detalhes do viver quotidiano. O cuidado das coisas pequenas é uma das linhas básicas do espírito do fundador do Opus Dei, consciência apurada e extremada da unidade de vida, só se nota com as pupilas que o amor dilatou.[36].

De espírito prático e realista, essa alma mística, que alcançou tão altos voos, buscava truques para manter a contínua presença de Deus, como esse isolador de vidro[37], que utilizava como pisa-papéis sobre a sua mesa de trabalho. Papéis em que via almas à espera da solicitude do pai.

As sentenças que muitas vezes utilizava, algumas inspiradas nos clássicos da literatura espanhola (que tão bem conhecia desde a juventude), outras, nos místicos do Século de Ouro, estão carregadas de um profundo cunho realista e alcance sapiencial.

Quando as cito nas aulas, os alunos ficam entusiasmados; querem saber mais desse filósofo, cujo pensamento tem um tal alcance prático: Faz o que deves e está no que fazes; Alma e calma; Ocupa-te do momento presente, esquecendo o passado que já não volta e o futuro que não sabes se chegará para ti; Agora começo; etc.. Na verdade, por muito que as ciências humanas arrastem em sentido contrário, o homem de hoje anseia por discursos de cunho edificante, de perfil ético, reabilitadores da virtude da prudência, só ela capaz de unir a teoria e a prática, dando à palavra força de compromisso.

A mística do oxalá, por irrealista, é inimiga da unidade de vida e sempre contrária à vontade de Deus. Ao transportar-nos a uma pseudo-realidade, essa louca da casa que é a imaginação impede que nos atenhamos ao presente, permitindo que se instale o pessimismo e o desalento, o desamor por nós mesmos. Contra ela preveniu São Josemaria, sempre com o coração no céu e os pés bem assentes na terra.

Cristo, modelo perfeito de unidade de vida, não é uma figura que passou. É de ontem, de hoje e de sempre. Cristo vive na Eucaristia, que São Josemaria adorava com loucura: ela é a maior prova de amor, de aniquilamento do seu Deus. Cristo vive!, bradava com entusiasmo. Assim se entende que a Missa fosse o centro físico do seu dia[38], a Obra de Deus por antonomásia, o fundir-se no Senhor connosco[39]. Desvive-se na sua celebração, acabando extenuado e a transbordar de alegria. Maior unidade não há: por isso, a Missa é, além de centro, raiz da vida cristã.

5. Pai de uma família numerosa e pobre

Aproxima-se o limite temporal desta conferência e quase tudo ficou por dizer.

Quereria, ainda assim, referir sinteticamente essa faceta de pai que São Josemaria assumiu desde o primeiro dia da fundação do Opus Dei. Escolhera para a sua lápide tumular, como já referi, a seguinte palavra: Pecador. Rezai por ele. Com respeito a estas últimas palavras, comentou sorrindo: Se quiserdes, podeis acrescentá-las: Gerou filhos e filhas[40].

Os membros da Obra, espalhados pelos cinco continentes, são filhos dilectíssimos que vibram em uníssono, num só coração e numa só alma.

Este profundo sentimento de filiação ao Padre, ancorado na filiação divina, permanecerá para sempre na unidade inquebrantável de uma família.

Em nota autografada dos primeiros tempos da Obra, escreve São Josemaria:

É tremendo! Queira ou não queira, os outros farão depois o que o Padre fazia.

E acrescentava: O meu exemplo!!! [41]

Incutia nos seus filhos, com serenidade, o sentido de responsabilidade de quem se sabe elo de uma cadeia divina.

São inúmeros os relatos de manifestações de carinho e inefáveis os sentimentos de fervorosa gratidão, guardados no coração de cada filho[42]. Tinha o dom de empatizar, mal os conhecia, pondo-os à vontade, como se fossem íntimos de toda a vida. Adivinhava-lhes os gostos, punha-se ao seu nível, e desfrutava com a alegria de uma criança.

Chorava amargamente a morte de um filho, cuidava-o na doença, sem medo a contágios, vigiava constantemente pela sua vocação. A todos buscava como o pai do filho pródigo. Quando, Álvaro del Portillo, ante a eminência de uma intervenção cirúrgica, sofria dores muito agudas, fez tudo para o pôr a rir: até dançou![43]. E comentava que, estando ele bem preparado para morrer, não necessitava de mais considerações espirituais, mas de distracções que lhe fizessem esquecer as dores[44].

Nutria verdadeira predilecção pelas suas filhas, que só chegaram à Obra em 1930, depois de acolher intelectualmente o que o Senhor lhe pedia [45]. Lutou pela dignidade da mulher e pelo seu papel na família e na sociedade. Ela dá vida à humanidade e humanidade à vida. Também aqui foi precursor do que hoje se chama novo feminismo. Mas eram as filhas mais pequenas as que, como a Virgem no lar de Nazaré, se ocupavam do arranjo da casa para fazerem a vida alegre aos outros, que mais facilmente lhe roubavam o coração. Invejava-as e dizia-lhes que gostaria de pedir admissão na Obra, para ser como elas.

Pai carinhoso e exigente, tinha verdadeira alegria em rectificar quando, por precipitação ou impercepção, se enganava. E custava-lhe muito repreender os outros, fazendo-o sempre com oportunidade e decisão: sofria interiormente antes, durante e depois de corrigir[46]. Certo dia, quando o seu médico Luís Pastor lhe perguntou como passara a noite, respondeu-lhe em íntima confidência:

Olha, como vos quero tanto, tanto! Sempre tenho algum filho em quem pensar. Eu vos quero com coração, de pai, de mãe… e de avó! Às vezes, armo por dentro uma confusão entre o que deve exigir um pai, o que tem de compreender uma mãe e o que pode consentir uma avó…E, por vezes, sinto a falta de alguns pormenores, de algumas cartas, de algumas coisas dos meus filhos…Se, como o profeta Ezequiel, tivesse que pedir ao Senhor que mudasse o meu coração, não lhe pediria que me trocasse o coração de pedra por um de carne. Quando muito, pediria o contrário: que ao invés deste coração de carne, me desse um de pedra.[47]

Do seu dom de línguas, da sua excepcional capacidade de comunicação, do seu eros pedagógico, do seu amor apaixonado à liberdade, do seu espírito de cidadania, do seu perfil de universitário e de homem de cultura, da sua alma de artista, nada direi. Escutava com atenção, em tertúlias multitudinárias, sempre de cunho intimista, mães de família, universitários, empregadas domésticas, ciganos, operários, carteiros, toureiros, gentes da moda, jornalistas, homens de ciência, de todas as raças e lugares; para cada um tem o conselho oportuno. A esse constante frequentador do Espírito Santo, de cem almas, interessam-lhe as cem, adivinhando o que vai no mais íntimo dos corações. O seu afã apostólico, aspecto medular da Obra de Deus, levava-o, no final desses encontros, a jamais perguntar Como estive? O que imediatamente lhe saltava era: Algum destes terá decidido ir confessar-se?[48]. E assim acontecia: são incontáveis e comoventes os relatos de conversões que se seguiam a esses encontros.

Família numerosa e pobre: sem nada de supérfluo, desprendida mesmo do necessário, que gasta o que deve embora deva o que gasta, sempre metida em apuros económicos, como consequência da expansão apostólica. Essa grande senhora[49], a pobreza, elegante e envergonhada, que o Fundador aprendeu a viver na casa dos pais, ensinou-a tão bem aos filhos, que ninguém a nota. Num gesto de total desprendimento, jamais trazia dinheiro consigo, não cobrava estipêndios pelos serviços sacerdotais, nada tinha como próprio, e tudo cuidava para que lhe durasse uma eternidade: usou trinta e dois anos os mesmos óculos, segundo testemunha J. Echevarría. Tinha uma só batina, que usava de verão e de inverno, e até nas arestas dos papéis escreveria, se pudesse, para evitar desperdícios. Extremamente frugal nas refeições, respondeu heroicamente ao desprendimento das coisas e de si, numa plena identificação com a Vontade de Deus.

As virtudes da pobreza e da temperança, aliadas da pureza, que viveu e ensinou a viver como afirmação gozosa do Amor, são uma bofetada ao materialismo consumista e à imundice que empapa a civilização ocidental. Bofetada carinhosa a despertar a consciência histórica, adormecida e esquecida das suas profundas raízes cristãs.

São Josemaria foi pioneiro. Abriu-nos um futuro de santidade, alicerçado no passado exemplar, sempre actuante: a vida dos primeiros cristãos.

Veio lembrar algo perene que parecia estar adormecido. Na realidade, com a Encarnação, Morte e Ressurreição do Verbo de Deus, a eternidade entrou no tempo e santificou-o.

Josemaria Escrivá de Balaguer permanecerá, sem dúvida, para sempre, na história. Alcançada a eternidade na Cidade de Deus, imortalizou-se também na cidade dos homens. Só o santo cumpre este prodígio, porque vive em Cristo, que é o Senhor do tempo, a sua recapitulação, a sua plenitude. E, em palavras de João Paulo II: Entrar na ´plenitude do tempo´ significa, pois, atingir o termo do tempo e sair dos seus confins para encontrar o seu cumprimento na eternidade de Deus[50].

[1] Citado de A. DEL PORTILLO, Entrevista ...,Quadrante, S.Paulo, 1994, pp. 219.

[2] Citado de idem, pp. 219.

[3] Caminho, 282: Paradoxo: é mais acessível ser santo que sábio, mas é mais fácil ser sábio que santo.

[4] Caminho, 301. Também em Amigos de Deus, 4.

[5] H. ARENDT, La condition de l´homme moderne, Paris, 1983, pp. 306 e seguintes.

[6] Amar o mundo apaixonadamente, em Temas actuais do cristianismo, Lisboa, 1969. pp. 163.

[7] Amigos de Deus, 112.

[8] J. ECHEVARRÍA, Lembrando o Beato Josemaria Escrivá, Lisboa, Diel 2000, pp.16.

[9] Cfr. Cristo que passa, 162.

[10] Homem de Villa Tevere, S.Paulo, Quadrante 1996, pp.152.

[11] Citado de idem, pp. 200; e de A. DEL PORTILLO, Entrevista..., pp. 217.

[12] Cfr. Amigos de Deus, 243.

[13] Citado de F. DELCLAUX, Santa María en los escritos del Beato Josemaria Escrivá de Balaguer, Madrid, 1992, pp. 63; A. VÁZQUEZ DE PRADA, O fundador do Opus Dei, tomo 1,Verbo, Lisboa, 2002, pp.; RHF 20124, pp. 49.

[14] Caminho, 496.

[15] J. ECHEVARRÍA, Lembrando..., pp. 179.

[16] Temas actuais do cristianismo, pp. 164.

[17] Citado de A. VÁZQUEZ DE PRADA, O fundador..., pp. 354-356.

[18] Lembrando..., pp.93-94. Noutra ocasião, observa: Desde jovem, demonstrou grandes virtudes humanas. Como defeitos, teve de estar muito atento à rapidez e espontaneidade de carácter, e à viva indignação que costumava sentir quando considerava que as coisas se faziam mal ou não tão como se devia. De qualquer maneira, estes traços de carácter, que teriam podido chegar a ser apreciáveis defeitos, serviram de ponto de apoio para enriquecer a sua personalidade, e converteram-se em fundamento da firmeza que de que depois necessitou para enfrentar o que o Senhor lhe reservava: a impaciência transformou-se em santa audácia. e o temperamento impulsivo, em exigência consigo mesmo, e em compreensão com os outros (Idem pp. 13-14) [...] Lutou para transformar as suas tendências naturais em qualidades positivas; a rijeza e a energia; a rapidez na decisão; a agudeza de engenho; a capacidade de aperceber-se do que sucedia à sua volta; ou a habilidade dialéctica para responder às dificuldades [...]. Soube conseguir uma serena equanimidade, e extraordinária vitalidade do seu temperamento foi sempre moderada pela prudência e a fortaleza (Idem, pp. 14).

[19] Idem, pp. 178; P. URBANO, O homem..., pp. 196.

[20] Idem, pp. 314.

[21] F. NIETZSCHE, Ainsi parlait Zarathoustra, Paris, 1942; cfr. pp. 57 e 108.

[22] Citado de A. VÁZQUEZ DE PRADA, O fundador..., pp. 319.

[23] Citado de P. URBANO, O homem..., pp. 46.

[24] Citado de J. ECHEVARRÍA, Lembrando..., pp. 30.

[25] Sulco, 804.

[26] Citado de P. BERGLAR, Opus Dei, Madrid, 1987, pp. 353.

[27] Amigos de Deus 184.

[28] A. DEL PORTILLO, Entrevista..., pp. 48.

[29] Citado de J. ECHEVARRÍA, Lembrando..., pp. 37.

[30] Amigos de Deus, 188.

[31] Cristo que passa, 164.

[32] J. ECHEVARRÍA, Lembrando..., pp. 74.

[33] Amigos de Deus, 239.

[34] Cristo que passa, 163.

[35] Caminho, 145.

[36] Cfr. A. DEL PORTILLO, Entrevista..., pp. 79.

[37] Citado de Pilar Urbano, O homem…,pp. 197.

[38] Cfr. A. DEL PORTILLO, Entrevista..., pp. 138.

[39] Citado de J. ECHEVARRÍA, Lembrando..., pp. 37.

[40] Cfr. A. DEL PORTILLO, Entrevista..., pp. 258.

[41] Citado de J. ECHEVARRÍA, Lembrando..., pp. 49.

[42] Deixamos, a título de exemplo, o relato inédito de Angelino Seabra Lopes, sacerdote português da Prelatura, respeitante a dois episódios expressivos do carinho de São Josemaria pelos seus filhos: “Aconteceu em 1956, salvo erro, quando se estava a terminar o Oratório de Relíquias de Villa Tevere. Eu e outro aluno do Colégio Romano da Santa Cruz, Joaquín Ortiz, fomos encarregados de colocar relíquias de santos num relicário metálico, dourado, de forma quadrangular, com 125 compartimentos. Em cada um desses compartimentos colocava-se, com cola forte, uma pequena relíquia de um santo e por baixo uma pequeníssima tira de papel apergaminhado com o nome do santo. Era ao princípio da tarde, e sabíamos que ao Padre lhe agradaria que o trabalho estivesse terminado quando os operários saíssem, à 17.30 horas, para depois se poder colocar o relicário no local definitivo. Começámos a trabalhar colocando, com a ajuda de pinças, cada pequena relíquia e correspondente identificação com todo o cuidado. Pouco passava das 17 horas quando preenchemos o último compartimento. Respirámos fundo, contentes, pensando na alegria que o Padre teria ao chegar. E eis que demos conta que tínhamos feito tudo mal: o relicário estava preenchido ao contrário; tínhamos tomado por parte de cima o lado inferior. Neste momento, chega o Padre. Ambos esperávamos uma forte chamada de atenção, bem merecida. Mas ele, vendo o nosso desapontamento, com muita paz, como não dando importância ao acontecimento, disse-nos: ‘Meus filhos, isto vai acontecer-vos muitas vezes ao longo da vida. Amanhã terminam o trabalho’ ”.

“Foi no dia 14 de Abril de 1970, terça-feira, por volta das 16.30 horas, em Fátima. O nosso Padre tinha vindo a Fátima, exclusivamente para fazer uma ‘romaria’ penitente. Rezou o terço, descalço, desde a rotunda norte até ao alto da esplanada, acompanhado por um pequeno grupo de sete ou oito pessoas. Eu cheguei quando já tinha terminado o terço e outras orações, e se encontrava ainda descalço, junto da estátua de Pio XII. Ao ver-me aparecer assim, sozinho, quase como um intruso, não ficou passivo, à espera, mas adiantou-se para me abraçar e beijar e teve a preocupação de me introduzir no ambiente, contando, em poucas palavras, o que tinha vindo fazer. Olha, disse-me, vim rezar à Virgem. Essa gente, referia-se aos peregrinos, anda quilómetros e quilómetros a pé, e eu, pobre homem, apenas uns metros. E assim, com esta afectuosíssima recepção, me integrou perfeita e rapidamente no grupo que o acompanhava”.

[43] A. DEL PORTILLO, Entrevista..., pp. 108.

[44] Idem, ibidem.

[45] Cfr. A. VÁZQUES DE PRADA, O Fundador..., pp. 296: Dentro da Missa, imediatamente depois da comunhão, toda a Obra feminina! Não posso dizer que vi, mas sim que captei intelectualmente, com pormenor... o que havia de ser a Secção feminina do Opus Dei...

[46] Cfr. J. ECHEVARRÍA, Lembrando..., pp. 105-106.

[47] P. URBANO, O homem…pp. 99

[48] Retirado de P. URBANO, O homem..., pp. 126.

[49] Cfr. A. DEL PORTILLO, Entrevista..., pp. 184: A pobreza, minha grande senhora. Chamou-a assim desde que tinha trinta e um ou trinta e dois anos, até o fim da sua\1 vida [...]. Assim resumia as suas aplicações mais concretas: não ter nada como próprio; não ter nada supérfluo; não queixar-se quando falta o necessário; quando se pode escolher, ficar com a coisa mais pobre, menos simpática; não maltratar os objectos que se utilizam; fazer bom uso do tempo (Idem, pp. 185).

[50] Carta Apost. Tertio Millennio Adveniente.