Textos sobre o Advento (3): "Nasceu rodeado de afeto"

Para a terceira semana do Advento, sugerimos esta carta do Bem-aventurado Álvaro, em que propõe que nos preparemos interiormente, purificando-nos, para a chegada de Cristo.

Textos
Opus Dei - Textos sobre o Advento (3): "Nasceu rodeado de afeto" Adoração dos pastores, de Lorenzo Lotto (1534).

(Texto de 1 de dezembro de 1988, publicado em "Caminar con Jesús al compás del año litúrgico", Ed. Cristiandad, Madrid 2014, pp. 19-25).

Uma vez mais, a Igreja Santa mostra-nos na liturgia o modo de percorrer com fruto estas semanas que precedem o Natal do Senhor. Oh! Deus omnipotente, concede aos teus fiéis a vontade de ir com obras ao encontro de Cristo que vem, para que, colocados à sua direita, mereçam possuir o reino dos céus [1]

Ao longo destes dias voltaremos a escutar as vozes dos Profetas que anunciaram, há séculos, a vinda do Redentor. Reviveremos com alegria a expectativa e a esperança de todos os justos da antiga Lei, a fé dos que assistiram mais de perto a tão grande acontecimento — São José, João Batista, Isabel, Zacarias — e, de modo especialíssimo e único, a humildade, a fé e o amor de Maria, que com a sua entrega tornou possível a Encarnação do Filho de Deus.

Minhas filhas e meus filhos, saiamos ao encontro do Redentor do mundo. Ponhamo-nos a caminho uma vez mais, com renovado amor nos nossos corações, com luz nova nos olhos, com mais vigor nas nossas almas, fortalecidas pelo alimento diário da Sagrada Eucaristia. Deitemos fora os fardos — as pequenas concessões à comodidade, ao egoísmo, ao amor próprio — que, talvez, tornam menos airoso o nosso passo e retardam a nossa marcha para Deus. Com a ajuda do Espírito Santo, podemos! Devemos levá-lo a cabo com a intercessão da nossa doce Mãe Maria, que nos traz do Céu, neste Advento, uma graça nova para renovar a fundo a nossa entrega.

O convite para olhar para Nossa Senhora, para ponderar na nossa oração os sentimentos que enchiam o seu coração, para procurar imitá-la constantemente, é uma recomendação do Magistério da Igreja [2], que nestas semanas se reveste de particular atualidade. A atitude e as respostas de Maria Santíssima — já antes do anúncio do Arcanjo e, sobretudo, durante os meses que medeiam entre a Encarnação e o Nascimento do Salvador — constituem a melhor escola na qual nós, cristãos, nos preparamos para o nascimento espiritual de Cristo nas nossas almas, que Deus deseja renovar em cada Natal. Agradeçamos à Trindade Santíssima este dom infinito e demos graças também ao nosso Padre pela sua fiel e heróica correspondência, com que nos ajudou a descobrir a dita incomparável — mesmo do ponto de vista humano — de deixar nascer Cristo nas nossas vidas, de pertencer tão intimamente à Família de Nazaré.

Oxalá o Senhor nos conceda neste Advento — assim lho peço cheio de confiança — encarnar de tal modo o espírito da sua Mãe Santíssima, que se cumpra em nós aquela afirmação de um Padre da Igreja, que o nosso Fundador, com tanta alegria, considerou muitas vezes[3] : «Que em cada um de vós esteja a alma de Maria, para louvar o Senhor; que em cada um esteja o espírito de Maria, para se alegrar em Deus. Porque se uma só é a Mãe do Senhor segundo a carne, segundo a fé, Cristo é fruto de todos nós»[4].

A solenidade da Imaculada Conceição, que celebramos no dia 8 de dezembro, é outro esplêndido pórtico do Advento. Detenhamo-nos a considerar a figura puríssima de Nossa Senhora, concebida sem mancha de pecado original em atenção aos méritos de Cristo, cheia de todas as graças e virtudes. Para nos ajudar a fazer propósitos operativos, o nosso Fundador convidava-nos a fazer exame. «Assim ama Jesus Cristo a sua Mãe», dizia há muitos anos atrás, depois de enumerar as graças e privilégios com que a Bondade divina enriqueceu Maria. E continuava: «E tu, como honras a Senhora? Que lhe ofereces? Quantas jaculatórias lhe diriges ao longo do dia? Como sabes dominar as tuas pequenas misérias, lembrando-te que és filho de uma Mãe tota pulchra, puríssima, imaculada?»[5].

Entre as principais características do tempo litúrgico em que nos encontramos, conta-se o convite imperioso para nos purificarmos dos nossos pecados e preparar nas nossas almas uma morada digna para Jesus. Como nos pedia o nosso Padre nestas datas, temos que caminhar durante a etapa do Advento «procurando construir com o coração um Presépio para o nosso Deus»[6]. O Senhor não desdenha alojar-se nos nossos pobres corações, mesmo que sejamos tão pouca coisa, se preparamos tudo com carinho, o melhor que possamos. Que comodidades encontrou em Belém, quando veio ao mundo há vinte séculos? Nasceu numa gruta paupérrima, porque não havia lugar para eles na pousada[7], mas rodeado do enormíssimo afeto de Maria e de José, que teriam limpado e arranjado o melhor possível aquele estábulo para receber Deus. Sobretudo, viviam com uma vigilância de amor, que os levava a detestar toda a imperfeição, por pequena que fosse e a corresponder à graça com todo o seu ser, de modo que nem a mais sutil separação os distanciasse desse Deus que se lhes entregava feito Menino.

Nem nos recusa a nós, ainda que estejamos cheios de defeitos e de misérias, se lutamos todos os dias e procuramos conservar bem limpas as nossas almas. Por isso, que lógico é que nestes dias cuidemos de modo especial a Confissão sacramental: o exame, a dor, os propósitos! E, em conjunto com a recepção frutuosa da Penitência, a satisfação generosa pelos nossos pecados e pelos do mundo inteiro, ofereçamos ao Senhor com alegria as contrariedades, as pequenas mortificações que a vida quotidiana traz consigo, o lógico cansaço de um trabalho profissional exigente... Esforcemo-nos, minhas filhas e meus filhos, com uma luta operativa, para que em qualquer instante, em todas as circunstâncias, cumpramos com amor o que mais agrada a Jesus.

Tudo isto é possível — tendes a mesma experiência que eu — graças às virtudes que o próprio Deus infundiu nas nossas almas com o Batismo: a fé, a esperança, a caridade; virtudes teologais que crescem especialmente mediante a recepção da Eucaristia. Cada vinda de Jesus à nossa alma e ao nosso corpo, na Sagrada Comunhão, significa uma nova sementeira abundante, dessas sementes divinas destinadas a um dia dar frutos de vida eterna, na contemplação e gozo da Santíssima Trindade. O nosso Padre, nos seus delírios de amor por Jesus Sacramentado, confiou-nos que Lhe dizia cheio de reverência e de adoração: «Bem vindo»! E mantinha- se em atitude vigilante para crescer em delicadezas de amor com este «nosso Deus, Pérola preciosíssima, que se digna descer a esta lixeira que eu sou».

Deixa-me que te pergunte: minha filha, meu filho, como te preparas cada dia para receber a Sagrada Comunhão? Procuras pôr, como aconselhava o nosso Padre, «limpeza nos teus sentidos, um por um; adorno nas tuas potências, uma a uma; luz em toda a tua alma»[8]? Recorres à tua Mãe — à nossa Mãe — para Lhe suplicar ardentemente que te ajude a receber o Senhor com aquela pureza, humildade e devoção com que o acolheu no seu corpo e na sua alma puríssimos?

A última semana do Advento, já na iminência do Natal, convida-nos a aprofundar nos propósitos e desejos que preenchiam o espírito de Nossa Senhora. As leituras evangélicas impulsionam-nos a considerar a fé e a humildade de Maria, a sua pureza sem mancha, a sua entrega absoluta e sem dilações ao Senhor, a sua rendida obediência, o seu espírito de serviço..., virtudes que todos os cristãos temos de nos esforçar por praticar, se verdadeiramente queremos que as nossas almas, como a de Nossa Senhora, se convertam em templo vivo da divindade, cheio da luz do Espírito Santo[9].

Poderíamos passar horas e horas, meus filhos, esmiuçando as lições que descobrimos na atitude constante da nossa Mãe. Tão rica de conteúdo divino no-la mostra o Santo Evangelho! Mas sois vós, cada uma e cada um, nos vossos tempos de oração durante o tempo litúrgico que iniciámos, quem deve — devemos — ir confrontando a nossa existência quotidiana com a de Nossa Senhora, para aprender d'Ela e nos prepararmos do melhor modo possível para o Natal.

Neste caminho que tem a sua meta em Belém, não vos esqueçais de São José, nosso Pai e Senhor. Seguindo o nosso Fundador, que tanto carinho teve e tem ao Santo Patriarca, colocai-vos muito perto da sua pessoa, pedi-lhe que vos ensine a tratar a sua Esposa Imaculada com um amor transbordante de ternura e respeito, de delicadeza e confiança. Este homem justo[10], em quem Deus se apoiou para realizar o seu desígnio redentor, ensinar-nos-á a aproximarmo-nos com maior intimidade da Virgem Santíssima; e, na companhia de Maria e de José, chegaremos à Noite Santa com a impaciência sobrenatural e humana de acolher o Menino Deus nos nossos corações.

E que diremos a Jesus, quando o virmos reclinado sobre as palhas do presépio? Procuraremos «cobrir o silêncio indiferente dos que não o conhecem ou não o amam, entoando cânticos de Natal, essas canções populares que cantam pequenos e grandes em todos os países de velha tradição cristã»[11]. Cada um lhe falará de modo pessoalíssimo, com as palavras e os afetos que saiam do seu coração; mas todos pediremos pela Igreja, pelo mundo, pelas almas, com o desejo ardente de que os frutos da Redenção — que Ele trouxe em plenitude à terra já há tanto tempo — se estendam uma vez mais por toda o globo.

No Natal, o nosso Fundador sabia introduzir-se no portal de Belém como um personagem mais. Às vezes imaginava que era um pastorzinho que se aproxima confiante de Jesus, oferecendo-lhe um pequeno presente; noutras ocasiões escolhia o lugar daquele outro, que — de joelhos ante o Menino Deus — só sabe adorar; colocava-se até no lugar da mula e do boi, que com o seu bafo contribuem para dar calor ao Recém-nascido, ou no de um cachorrinho fiel que está de guarda junto ao presépio... Eram as pequenas loucuras de uma alma apaixonada, que cada um de nós bem pode seguir, recordando o conselho do nosso Padre: «Ao tratar Jesus não tenhais vergonha, não contrarieis o afeto. O coração é louco e essas loucuras de amor ao divino fazem muito bem, porque acabam em propósitos concretos de melhoria, de reforma, de purificação, na vida pessoal. Se assim não fosse, não serviriam para nada»[12].

Minhas filhas e meus filhos, que esta intimidade com o nosso Deus e nosso Rei, recém nascido, vos ajude a intensificar as vossas orações pelas minhas intenções. Pedi-Lhe com confiança que nos escute. À intercessão do nosso queridíssimo Fundador, que tanto amou a Sagrada Família — a trindade da terra — peço que as suas filhas e os seus filhos do Opus Dei, as pessoas que beneficiam do trabalho apostólico da Prelazia, os cristãos e todos os homens de boa vontade, queiramos dar guarida nas nossas almas a Cristo que vem ao nosso encontro para nos acolher muito dentro do seu Coração e apresentar-nos a Deus Pai pela ação do Espírito Santo.



[1] Missal Romano, Domingo I do Advento (Oração Coleta).

[2] Cfr. Concílio Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, nn. 63 y 65.

[3] N. ed.Sempre que D. Álvaro escreve "nosso Fundador" ou "nosso Padre" está a referir-se a São Josemaría Escrivá de Balaguer. Quando escreveu estas cartas, o Fundador do Opus Dei não tinha ainda sido declarado santo pela Igreja; a canonização teve lugar em 6 de outubro de 2002. Por fidelidade ao texto, deixamos a expressão original.

[4] Santo Ambrósio, Exposição do Evangelho segundo Lucas II, 26; cfr. Amigos de Deus, n. 281.

[5] S. Josemaria, Notas de uma meditação, 7-XII-1953 (AGP, biblioteca, P01, II-1978, p. 8). A sigla AGP designa o Arquivo Geral da Prelazia

[6] S. Josemaria, Notas de uma meditação, 25-XII-1973 (AGP, biblioteca, P09, p. 199).

[7] Lc 2, 7.

[8] S. Josemaria, Forja, n. 834.

[9] Missal Romano, Missa de 20 de dezembro (Oração Coleta).

[10] Cfr. Missal Romano, Missa de 18 de dezembro (Evangelho: Mt 1, 18-24).

[11] S. Josemaria, Notas de uma meditação, 25-XII-1973 (AGP, biblioteca, P09, p. 200).

[12] Ibid.