O coração cristão, motor do desenvolvimento social

O coração cristão e o desenvolvimento social. Reflexões a partir dos ensinamentos de S. Josemaria. Publicamos a conferência pronunciada por D. Javier Echevarría, Prelado do Opus Dei, por ocasião da Jornada comemorativa do 10º aniversário de Harambee.

Bibliografia e ensaios

O coração cristão, motor do desenvolvimento social. Reflexões a partir dos ensinamentos de S. Josemaria.

Conferência pronunciada por D. Javier Echevarría, Prelado do Opus Dei, por ocasião da Jornada comemorativa do 10º aniversário de Harambee

Conferencia em formato PDF

Queridos amigos de Harambee-África:

O décimo aniversário da vossa associação conduz-nos diretamente à recordação – sempre atual – da canonização de S. Josemaria Escrivá. Permiti, por isso, que passados dez anos desde aquele 6 de Outubro de 2002, comece com um agradecimento a Deus por este pastor exemplar, que com a sua correspondência heróica aos dons espirituais e humanos recebidos, fez com que fosse possível, entre outras coisas, que tantos milhares de pessoas em todo o mundo sintam o desejo de ajudar os homens e mulheres dos países economicamente menos favorecidos.

Pessoalmente, gostaria de manifestar também a minha gratidão ao Senhor pela difusão universal da devoção ou da sua ajuda nesta década, desde aquela cerimónia em que o amadíssimo João Paulo II definiu Josemaria Escrivá como o santo da vida corrente.

Cerimónia da canonização de S. Josemaria. Vista da Praça de São Pedro. 6 de outubro de 2002.

Um grande coração

S. Josemaria foi um sacerdote com um grande coração, como se pode sentir nos seus escritos, na sua pregação oral, nas obras de serviço à sociedade que impulsionou durante o seu caminhar terreno, que continuou inspirando – através da sua mensagem – em todos os continentes, e de modo particular em África, terra de esperança que é hoje o centro da nossa reflexão nesta jornada de estudo.

Penso que a sua grande capacidade de amar, explica que em tantos lugares do mundo tenham surgido igrejas, capelas, edifícios, ruas e praças que têm o seu nome; congressos e estudos sobre a sua mensagem de procurar Deus nas ocupações quotidianas; livros e produções audiovisuais; pessoas que se aproximam da Igreja graças a um contacto com a figura e os ensinamentos de S. Josemaria. Em cada dia 26 de Junho, quando a Igreja celebra a sua memória litúrgica, recebem-se notícias de milhares de celebrações nos mais variados lugares do planeta. Missas em que mulheres e homens de todas as raças e condições pedem a Deus, através da sua intercessão, que “realizando fielmente o trabalho quotidiano no Espírito de Cristo, sejam configurados com o vosso Filho e sirvamos a obra da Redenção, cheios de amor ardente”(1).

O primado do amor

Foto: Ismael Martínez Sánchez

Mas entremos já plenamente no tema desta sessão. S. Josemaria pregava que «um homem ou uma sociedade que não reaja diante das amarguras ou das injustiças e se não esforce por as aliviar, não é um homem ou uma sociedade à medida do amor do Coração de Cristo»(2).

Ao falar do “coração humano” não nos limitamos aos sentimentos e, menos ainda, a esse órgão físico. Com muita frequência, comenta S. Josemaria, «aludimos à pessoa toda que quer, que ama, que convive com os outros. Ora, na maneira de os homens se exprimirem, que a Sagrada Escritura utiliza para nos dar a entender as coisas divinas, o coração é tido como resumo e fonte, expressão e fundo íntimo dos pensamentos, das palavras, das acções. Um homem vale o que vale o seu coração - diríamos com palavras bem humanas»(3).

Como recordou Bento XVI no início da sua primeira encíclica: «“Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (1 Jo 4, 16). Estas palavras da I Carta de João exprimem com singular clareza o centro da fé cristã: a imagem cristã de Deus e também a consequente imagem do homem e do seu caminho»(4).

A caridade, o amor reto, não só é o centro da vida cristã, mas também da existência humana tout court. Com efeito, «pelo facto de Deus ser amor e de o homem ser imagem sua, compreendemos a identidade profunda da pessoa, a sua vocação para o amor. O homem foi feito para amar; a sua vida só se realiza plenamente se é vivida no amor»(5). Daí que a criatura se torne incompreensível, inclusive para si própria, se não se encontra com o amor, se não o experimenta ou não o torna próprio, se não participa vivamente desta riqueza(6). E vice-versa, o ser humano revela-se tanto mais profundamente e desenvolve-se mais como pessoa quando cresce no amor e na reta doação de si próprio, quando supera a lógica do receber para se projetar na lógica da gratuidade e do dom.

A caridade, como diz o Compêndio da doutrina social da Igreja, é uma «força capaz de suscitar novas vias para enfrentar os problemas do mundo de hoje e para renovar profundamente a partir do seu interior as estruturas, organizações sociais e ordenamentos jurídicos.

Parafraseando um ensinamento de S. Josemaria, podemos dizer que o grande privilégio da criatura humana reside em poder amar, transcendendo assim o efémero e o transitório(7); por isso cada uma, cada um, não deve limitar-se a fazer coisas: o seu comportamento mostra-se plenamente coerente com a sua natureza quando nasce do amor, quando manifesta o amor e se ordena ao amor(8). Mais ainda, devemos sublinhar com palavras do Santo Padre que «a vocação para o amor é o que faz que o homem seja a autêntica imagem de Deus: é semelhante a Deus na medida em que ama»(9). A caridade, o serviço, a entrega ao próximo expressam, portanto, a vocação fundamental e inata da pessoa; ela desenvolve-se amando e sendo amada. Assim pois, devemos adotar essa direção na norma constante e suprema da própria conduta, já que o exercício das virtudes está animado pela caridade, vínculo da perfeição. De facto, diz-nos S. Josemaria, «vivendo a caridade - o Amor -, vivem-se todas as virtudes humanas e sobrenaturais do cristão, que formam uma unidade e que não se podem reduzir a enumerações exaustivas. A caridade exige que se viva a justiça, a solidariedade, a responsabilidade familiar e social, a pobreza, a alegria, a castidade, a amizade...»(10).

Foto: Ismael Martínez Sánchez

Esta verdade abarca toda a humanidade, e particularmente os discípulos de Jesus: recordemos que quando um doutor da lei lhe perguntou qual era o primeiro mandamento, o Senhor não se limitou a indicar que o amor a Deus é o maior e o primeiro mandamento, antes acrescentou a necessidade de amar o próximo como mandamento incluído no primeiro (Mt 22, 35-39). Disse assim que não é possível amar Deus se não se ama o próximo, já que uma caridade autêntica com Deus deve estender-se àquele que Ele ama, quer dizer, ao mundo e às pessoas. Recolhendo uma ideia de S. Máximo, Confessor, Bento XVI ensina que «o amor de Deus se manifesta na

responsabilidade pelo outro»(11); e mostra que «nos Santos, torna-se óbvio como quem caminha para Deus não se afasta dos homens, antes pelo contrário torna-se-lhes verdadeiramente próximo»(12).

Deve sublinhar-se igualmente que não existe um verdadeiro amor ao próximo se não se ama Deus: «Unidos a Cristo na sua consagração ao Pai, participamos da sua compaixão pelas multidões que reclamam justiça e solidariedade e, como o bom samaritano da parábola, comprometemo-nos a apresentar respostas concretas e generosas»(13). O amor é exigente, requer entrega, que se torna possível graças à plena entrega amorosa de Cristo a todos os homens, que nos pede e nos anima a tratá-los como Ele o fez (Jo 13,34;15,12): «Precisamente Jesus deu-nos a conhecer até que extremos se deve ir no caminho do amor e do serviço. Só se procurarmos compreender o arcano do amor de Deus, deste amor que vai até à morte, seremos capazes de nos entregar totalmente aos outros, sem nos deixarmos vencer pelas dificuldades ou pela indiferença.»(14). Evidentemente, embora na prática a autêntica e feliz caridade com o próximo seja mais imediata e dê provas do amor a Deus, não devemos esquecer que a energia para um verdadeiro serviço ao próximo deriva da caridade sobrenatural: a entrega e a união sincera com os outros são possíveis «graças à mais íntima união com Deus, em virtude da qual se fica totalmente permeado por Ele — condição esta que permite, a quem bebeu na fonte do amor de Deus, tornar-se ele próprio uma fonte «da qual jorram rios de água viva» (Jo 7, 38)»(15).

Esta interação entre o amor a Deus e o amor ao próximo, ensinada e vivida desde o início do cristianismo, foi salientada na encíclica Deus caritas est: «Se na minha vida falta totalmente o contacto com Deus, posso ver no outro sempre e apenas o outro e não consigo reconhecer nele a imagem divina. Mas, se na minha vida negligencio completamente a atenção ao outro, importando-me apenas com ser «piedoso» e cumprir os meus «deveres religiosos», então definha também a relação com Deus»(16).

Necessidade de colocar o coração na vida social

Dispensário no Congo

O facto de o comportamento das criaturas ser plenamente humano quando nasce do amor é uma realidade que «também é válida no âmbito social: é necessário que os cristãos sejam testemunhas profundamente convictas e o saibam mostrar, com a sua vida»(17). Por isso a caridade, o serviço, deve estar presente e penetrar todas as relações humanas: «é o princípio não só das micro-relações estabelecidas entre amigos, na família, no pequeno grupo, mas também - afirma Bento XVI - das macro-relações como relacionamentos sociais, econômicos, políticos»(18). Devemos persuadir-nos, e procurar persuadir os outros, de que a sociedade não se constitui primariamente com os vínculos contratuais e utilitários, mas com os vínculos mais profundamente humanos presididos pelo amor: um princípio, portanto, que se destaca como critério primário também para o desenvolvimento da sociedade, e deve ser considerado como alma de toda a ordem social(19). A caridade, ensina o Compêndio da doutrina social da Igreja, é uma «força capaz de suscitar novas vias para enfrentar os problemas do mundo de hoje e para o renovar profundamente a partir do interior das estruturas, organizações sociais, ordenamentos jurídicos. Nesta perspectiva, a caridade torna-se caridade social e política: a caridade social leva-nos a amar o bem comum e a procurar efetivamente o bem de todas as pessoas, consideradas não só individualmente, mas também na dimensão social que as une»(20).

Daí a exigência, que afeta todas as componentes da sociedade - em primeiro lugar os cristãos e a própria comunidade eclesial -, de se esforçar por querer, com obras e de verdade, ao próximo, não só nas “relações próximas” (por exemplo, na família), mas com um amor que abranja ordenadamente até os mais distantes. Se queremos realizar uma sociedade mais humana, mais digna da pessoa, é necessário dar a importância que lhe corresponde, para que esta inspire, purifique e enalteça todas os laços humanos, políticos, econômicos, etc. Em última análise, o principal critério para o progresso de todos e para o avanço social é o preceito do amor(21): a caridade deve impregnar desde o seu interior todas as estruturas sociais. Por isso, o Santo Padre resumiu a função da doutrina social da Igreja afirmando que é «“caritas in veritate in re sociali” , anúncio da verdade do amor de Cristo na sociedade»(22).

Algumas consequências

Encontramo-nos perante uma realidade que implica diversas consequências práticas, para a vida da Igreja e de cada fiel concreto; vejamos algumas.

A exigência de anunciar o Deus-Amor revela que, também na esfera social, o empenho na caridade não pode considerar-se como algo bom, mas secundário; antes constitui uma parte substancial da missão da Igreja e de cada cristão. Por isso, a organização eclesial da caridade começou com os primeiros passos da própria Igreja e, desde logo, com diversas modalidades, foi-se prolongando e há-de prolongar-se ao longo de toda a história. Assim o afirmava S. Josemaria: «Compreende-se muito bem a impaciência, a angústia, os anseios inquietos de [... os cristãos coerentes que] não se resignam perante a injustiça pessoal e social que o coração dos homens chega a criar. Tantos séculos de convivência entre os homens e ainda tanto ódio, tanta destruição, tanto fanatismo acumulado em olhos que não querem ver e em corações que não querem amar. Os bens da terra, repartidos entre uns poucos; os bens da cultura, encerrados em cenáculos. E, lá fora, fome de pão e de conhecimento, vidas humanas que são santas, porque vêm de Deus, tratadas como simples coisas, como números de uma estatística. Compreendo e comparto essa impaciência, que me impele a olhar para Cristo, que continua a convidar-nos a levar à prática esse mandamento novo do amor»(23).

S. Josemaría em Roma com algumas mulheres africanas do Opus Dei

Promover a caridade social compete, por conseguinte, a todos, como tarefa necessária a nível individual, associativo e também eclesial. O Concílio Vaticano II sublinhou-o com vigor: «Todos tomem a peito considerar e respeitar as relações sociais como um dos principais deveres do homem de hoje», lembrando também que «o cristão que descuida os seus deveres temporais, falta aos seus deveres para com o próximo e até para com o próprio Deus, e põe em risco a sua salvação eterna»(24). Nesta lógica, S. Josemaria ensinava que «os cristãos - conservando sempre a mais ampla liberdade quando se trata de estudar e de pôr em prática as diversas soluções, segundo um pluralismo bem natural - terão de convergir no mesmo anseio de servir a humanidade. Se não, o seu cristianismo não será a Palavra e a Vida de Jesus: será um disfarce, um embuste feito a Deus e aos homens»(25).

A caridade – que é amor – deve abranger a própria criatura na sua integridade, corporal e espiritual: «Os homens têm necessidade do pão da terra que sustente as suas vidas e também do pão do Céu que ilumine e dê calor aos seus corações»(26). Uma carência impreterível exige a oferta urgente de ajudas materiais em tantos momentos específicos, mas não se devem nunca esquecer as ajudas espirituais: a caridade deve, de algum modo, colocar perante os olhos, o amor a Deus. Neste sentido, a atividade caritativa cristã deve ter uma peculiaridade específica, que não pode perder-se nem diluir-se numa filantropia puramente humana, boa mas insuficiente para cumprir a missão que Cristo nos confiou. Convém realçar também que a força de todas as ações caritativas dependerá da força da fé e do amor a Deus daqueles que as realizam: como afirma Bento XVI, «Só com base num compromisso quotidiano a acolher e viver plenamente o amor a Deus é possível promover a dignidade de cada ser humano. (…) Sem um fundamento transcendente, sem uma referência a Deus Criador, sem a consideração do nosso destino eterno, nós corremos o risco de ser vítimas de ideologias prejudiciais»(27).

Por outro lado, para não ficar numa quimera estéril, é necessário evidenciar que o amor social requere a sua institucionalização: «Sob tantos aspectos, o próximo a ser amado apresenta-se “em sociedade” (...): amá-lo no plano social significa, de acordo com as situações, valer-se das mediações sociais para melhorar a sua vida ou remover os factores sociais que causam a sua indigência. Sem dúvida alguma, é um ato de caridade a obra de misericórdia com que se responde aqui e agora a uma necessidade real e urgente do próximo, mas é um ato de caridade igualmente indispensável o empenho dirigido a organizar e estruturar a sociedade de modo que o próximo não se venha a encontrar na miséria, sobretudo quando esta se torna na situação em que se debate um incomensurável número de pessoas e mesmo povos inteiros»(28).

Parece imprescindível salientar que, embora as estruturas sociais sejam necessárias, a sua finalidade não consiste em substituir o amor entre as pessoas, porque a dignidade humana só com o amor se torna incomensurável, e não simplesmente com o que é justo, razoável, etc.: «Convencei-vos de que apenas com a justiça nunca resolvereis os grandes problemas da Humanidade. Quando se faz apenas justiça, não é de estranhar que as pessoas se sintam feridas: a dignidade do homem, que é filho de Deus, pede muito mais do que isso. A caridade tem que ir dentro e ao lado, porque dulcifica tudo e tudo deifica: Deus é amor (I Jo 4,16). Temos de atuar sempre por amor de Deus, que torna mais fácil amar o próximo e purifica e eleva os amores terrenos»(29). Além disso, «a afirmação segundo a qual as estruturas justas tornariam supérfluas as obras de caridade, esconde uma concepção materialista do homem»(30). Por isso as instituições e as leis não chegam para edificar uma sociedade digna da pessoa; exige-se também a caridade pessoal como base firme da vida social.

O que dissemos destina-se a qualquer situação social, mas é necessário aplicá-lo especialmente aos grupos sociais mais indigentes; quer dizer, pôr em prática o amor preferencial pelos pobres, na sua dimensão social e planetária, promovendo formas de cooperação para o desenvolvimento que superem as divisões religiosas, raciais, ideológicas, territoriais, etc. S. Josemaria recordava que «o Opus Dei [terá de estar presente] onde haja pobreza, onde haja falta de trabalho, onde haja tristeza, onde haja dor, para que a dor se leve com alegria, para que a pobreza desapareça, para que não falte trabalho - porque formamos as pessoas para que possam tê-lo -, para que metamos Cristo na vida de cada um, na medida em que o queira, porque somos muito amigos da liberdade»(31). E como indicava noutra ocasião, «não há, portanto, mais do que uma raça: a raça dos filhos de Deus. Não há mais que uma cor: a cor dos filhos de Deus. E não há senão uma língua: a que nos fala ao coração e à inteligência, sem ruído de palavras, mas dando-nos a conhecer Deus e fazendo que nos amemos uns aos outros»(32).

Até uma razão pragmática leva, no mesmo sentido, a cooperar no desenvolvimento de todos, já que qualquer grupo humano só pode atingir o seu próprio desenvolvimento favorecendo o desenvolvimento dos outros. O Beato João Paulo II recordava que «a colaboração para o desenvolvimento do homem todo e de todos os homens é, efetivamente, um dever de todos para com todos e, ao mesmo tempo, há-de ser comum às quatro partes do mundo (…). Se, pelo contrário, se procurar realizá-lo numa só parte, ou num só mundo, isso far-se-á à custa dos demais; e onde isso começa, precisamente porque os outros são ignorados, hipertrofia-se e perverte-se»(33). Porém, para além desta razão pragmática, a cooperação para o desenvolvimento, particularmente dos mais necessitados, é um imperativo ético e cristão, que pressupõe a renúncia a qualquer forma de egoísmo. Esta união do humano e do divino apresenta-se como central na mensagem de S. Josemaria; afirmava que a vida dos membros da Obra implica «um serviço de metas exclusivamente sobrenaturais, porque o Opus Dei não é, nem nunca será - nem poderá ser - um instrumento temporal; porém, é, ao mesmo tempo, um serviço humano, porque não fazeis mais do que tentar conseguir a perfeição cristã no mundo, limpidamente, com a vossa libérrima e responsável atuação em todos os campos da atividade civil. Um serviço abnegado, que não avilta, antes educa, que engrandece o coração - fá-lo romano, no sentido mais amplo desta palavra - e leva a procurar a honra e o bem das gentes de cada país: para que haja cada dia menos pobres, menos ignorantes, menos almas sem fé, menos desesperados, menos guerras, menos insegurança, mais caridade e mais paz»(34).

Como tudo o que se refere à vida cristã, também os critérios indicados não se reduzem a uma bonita teoria para pregação, mas constituem sobretudo um estímulo para atuar eficazmente em prol do desenvolvimento integral dos homens, sem excepções(35). Este desenvolvimento deve considerar-se uma meta inexcusável, que exige um esforço - programado, responsável e regulado - que todos - cada um de acordo com o seu lugar na Igreja e na sociedade civil - somos chamados a realizar(36). Para o alcançar, talvez se deva contribuir para que mudem os estilos de vida, as estruturas de poder que governam a sociedade, os modelos de produção e de consumo, orientando-os segundo uma correta compreensão do bem comum de toda a humanidade(37).

Ninguém pode fugir ao empenho por viver desse modo, com o propósito de ajudar os nossos irmãos. Mas é igualmente imprescindível transmiti-lo aos outros; quer dizer, ajudá-los – como assinala S. Josemaria - «a superar o egoísmo e a empregar com generosidade parte do seu tempo ao serviço dos menos afortunados, participando em ocupações adequadas à sua idade, nas quais se manifeste um anseio de solidariedade humana e divina»(38).

Foto: Ismael Martínez Sánchez

Como as iniciativas de Harambee são dirigidas ao mundo africano, gostaria de mencionar umas palavras de Bento XVI na exortação apostólica Africae munus, do passado dia 19 de Novembro: «a consciência humana é interpelada por graves injustiças presentes no nosso mundo em geral, e no seio da África em particular. (…) A justiça, praticada em todas as dimensões da vida - privada e pública, econômica e social - precisa de ser sustentada pela subsidiariedade e a solidariedade e, mais ainda, de ser animada pela caridade»(39).

Harambee nasceu por ocasião da canonização de S. Josemaria. Ao desejar-vos hoje um feliz aniversário, agradeço o vosso trabalho e asseguro-vos a minha oração, para que cada vez participem mais pessoas neste esforço coletivo que procura apoiar pessoas e entidades da África que, por sua vez, desejam ser artífices e protagonistas do desenvolvimento das suas nações. Convosco dou graças a Deus pelos numerosos projetos educativos que já se puseram em marcha na África subsariana durante a década passada, e pelas numerosas atividades que tendes promovido no resto do mundo, também para difundir uma visão de África longe de estereótipos: nesse vosso continente concentram-se, é certo, algumas das injustiças que não podem deixar ninguém indiferente; mas a África é também terra de valores espirituais muito importantes para a nossa época.

******

Depois de amanhã começa a XIII Assembleia do Sínodo dos Bispos sobre “A nova evangelização para a transmissão da fé cristã”. Convido-vos a rezar por esta intenção. No décimo aniversário da canonização de S. Josemaria podemos recorrer à sua intercessão: que esta Assembleia eclesial sirva para recordar ao mundo que a santidade não se limita a uma meta para privilegiados, mas que – como confirmou o Concílio Vaticano II – é um convite universal, alcançável por qualquer homem ou mulher de boa vontade. Peçamos ao Senhor que este Sínodo contribua, juntamente com o já iminente Ano da Fé, para dilatar muitos corações «à medida do amor do Coração de Cristo». Corações que, com a graça de Deus, sejam motor de outras conversões e de transformações, num ambiente social compatível com a dignidade do homem e do seu destino, para glória de Deus, na África e em todo o mundo.

(1) Oração colecta da Missa de S. Josemaria Escrivá de Balaguer, presbítero (26 de Junho).

(2) S. JOSEMARIA, Cristo que passa, nº. 167.

(3) S. JOSEMARIA, Cristo que passa, n. 164.

(4) BENTO XVI, Enc. Deus caritas est, nº. 1.

(5) BENTO XVI, Mensagem ao X Forum Internacional dos Jovens, 24-III-2010.(6) Cfr. BEATO JUAN PABLO II, Enc. Redemptor hominis, n. 10.

(7) Cfr. S. JOSEMARIA, O compromisso com a verdade, nº 8 (Discursos sobre a Universidade).

(8) Cfr. S. JOSEMARIA, Cristo que passa, nº. 48.

(9) BENTO XVI, Discurso ao Convénio eclesial da Diocese de Roma, 6-VI-2005.

(10) S. JOSEMARIA, Temas Atuais do Cristianismo, nº. 62.

(11) BENTO XVI, Enc. Spe salvi, nº. 28.

(12) BENTO XVI, Enc. Deus caritas est, nº. 42.

(13) BENEDICTO XVI, Discurso às organizações da Pastoral Social, 13-V-2010.

(14) S. JOSEMARIA, Cristo que passa, nº 98.

(15) BENTO XVI, Enc. Deus caritas est, nº. 42.

(16) BENTO XVI, Enc. Deus caritas est, n. 18.

(17) Compêndio da doutrina social da Igreja, n. 580.

(18) BENTO XVI, Enc. Caritas in veritate, n. 2.

(19) Cfr. Compêndio da doutrina social da Igreja, n. 32.

(20) Compêndio da doutrina social da Igreja, n. 207.

(21) Jesus Cristo «revela-nos que «Deus é amor» (1 Jo. 4, 8) e ensina-nos ao mesmo tempo que a lei fundamental da perfeição humana e, portanto, da transformação do mundo, é o novo mandamento do amor. (…) Adverte, ao mesmo tempo, que este amor não deve exercitar-se apenas nas coisas grandes, mas, antes de mais, nas circunstâncias correntes da vida.» CONCÍLIO VATICANO II, Const. past. Gaudium et spes, nº. 38.

(22) BENTO XVI, Enc. Caritas in veritate, n. 5.

(23) S. JOSEMARIA, Cristo que passa, n. 111.

(24) CONCÍLIO VATICANO II, Const. past. Gaudium et spes, nn. 30 y 43.

(25) S. JOSEMARIA, Cristo que passa, n. 167.

(26) S. JOSEMARIA, Cristo que passa, n. 49.

(27) BENTO XVI, Discurso à Caritas Internationalis, 27-V-2011.

(28) Compêndio da doutrina social da Igreja, n. 208.

(29) S. JOSEMARIA, Amigos de Deus, n. 172.

(30) BENTO XVI, Enc. Deus caritas est, n. 28 b).

(31) S. JOSEMARIA, Um olhar para o futuro desde o coração de Vallecas, Madrid 1998, p. 135 (palavras pronunciadas a 1-X-1967).

(32) S. JOSEMARIA, Cristo que passa, n. 106.

(33) BEATO JOÃO PAULO II, Enc. Sollicitudo rei socialis, n. 32.

(34) S. JOSEMARIA, Carta 31-IV-1943, n. 1.

(35) Cfr. BEATO JOÃO PAULO II, Enc. Centesimus annus, n. 57.

(36) Cfr. BEATO JOÃO PAULO II, Enc. Sollicitudo rei socialis, nn. 42-45.

(37) Cfr. JOÃO PAULO II, Enc. Centesimus annus, n. 58.

(38) S. JOSEMARIA, Temas Atuais do Cristianismo, n. 111.

(39) BENTO XVI, Exh. ap. Africae munus, n. 24.