Natal: silêncio e ternura

Neste artigo reflete-se sobre o valor do silêncio: Advento é o tempo da espera humilde do Salvador, da alegria plena pelo Seu nascimento.

Ano litúrgico
Opus Dei - Natal: silêncio e ternura Gerard van Honthorst - Adoração dos pastores (1622)

Na sua encarnação, o Filho de Deus convidou-nos à revolução da ternura" [1]: o Papa Francisco mostra que, no mistério de Cristo, os sinais manifestam a ternura de Deus. E Santo Inácio de Antioquia diz que se conhece ao Senhor no Seu silêncio.

O tempo de Natal é anunciado por um Advento onde a moderação e o relativo silêncio dos instrumentos musicais na liturgia são sinais da espera humilde do Salvador, da alegria plena do Seu nascimento [2].

Verbo faz-se carne e O contemplamos Menino: “infans", em latim, o que literalmente significa “que não fala". A Palavra não sabe falar. O silêncio de Deus convida à contemplação, à admiração, à adoração. O Verbo abreviou-se, dizem os Padres da Igreja: o Filho de Deus fez-Se pequeno para que a Palavra esteja ao nosso alcance, sinal silencioso e terno que pede amor.

"A Palavra não sabe falar."

A liturgia estende esse silêncio a toda à natureza. “Enquanto um profundo silêncio envolvia o universo e a noite ia no meio de seu curso", reza o livro da Sabedoria, desceu do céu, “a vossa palavra onipotente" (Sb 18, 14-15). A aplicação deste texto ao nascimento de Jesus remonta provavelmente ao judeu-cristianismo, quer dizer aos primeiros tempos da Igreja [3].

O silêncio de Deus convida à contemplação, à admiração e à adoração.

A recitação do Ângelus vespertino nasceu da crença de que naquela hora, quando cai o silêncio da noite, a Virgem Maria recebeu a saudação do anjo. Pouco a pouco, o costume de recitar essa oração ao meio dia se estendeu, pedindo então, no século XV, pela paz da Igreja[4].

Maria, e José, o silencioso, voltarão a Nazaré: trinta anos de silêncio de Jesus, gostava de sublinhar São Josemaria [5]. Virá a vida pública, e inclusive um dia Cristo calar-se-á diante de Herodes “com um divino silêncio" [6].Isaías tinha profetizado: “No silêncio e na esperança residirá a vossa fortaleza"; São Josemaria aplicava-o também à adversidade: “Calar, confiar" [7]; pois, como dizia Bento XVI, as circunstâncias adversas “são misteriosamente «abraçadas» pela ternura de Deus"[8]. Com palavras de Francisco, “aos poucos é preciso permitir que a alegria da fé comece a despertar, como uma secreta mas firme confiança, mesmo no meio das piores angústias: «[…] Bom é esperar em silêncio a salvação do Senhor» (Lm 3,26)"[9].

Um poeta francês diz que os pensamentos são pássaros que só cantam quando estão na árvore do silêncio. O cristão pensa e reza: “Dias de silêncio e de graça intensa... Oração face a face com Deus..."[10].

Na pluma de São Josemaria, a palavra “silêncio" é frequentemente usada com os adjetivos fecundo, alegre, amável [11]. O trabalho calado é eloquente, o esforço silencioso dá frutos[12]…

O silêncio respira paz, humildade, descanso, serenidade, e até eficácia; permite o recolhimento. Elias escutou Deus “num sussurro de brisa suave", literalmente “na voz de um fino silencio" (1Rs 19,12), que expressava a intimidade de uma conversa [13].

São necessários tempos de “silêncio interior", constata São Josemaria[14]. Como diz a Beata Madre Teresa de Calcutá, “Deus fala no silêncio do coração. […] O fruto desse silêncio é a oração. O fruto da oração é a fé. O fruto da fé é o amor. O fruto do amor é o serviço. E o fruto do serviço é a paz. Porque a paz provém de quem semeia o amor transformando-o em ação"[15].

"O silêncio leva a estar atento aos outros e reforça a fraternidade."

Dá paz procurar um certo silêncio no trabalho, na família e na sociedade. Segundo uma bela tradição cristã, pode tender-se para o silêncio quando começa a tarde, em memória da paixão do Senhor, e guardá-lo durante a noite, para descansar n'Ele. Depois da morte na cruz virá o silêncio do sepulcro, até à glória da ressurreição. O grande silêncio dos cartuxos e de tantos religiosos acompanha e apoia a oração de toda a Igreja.

O silêncio leva a estar atento aos outros e reforça a fraternidade. O Evangelho pede, como recorda o Papa Francisco, “um exercício perene de empatia, de escuta do sofrimento e da esperança do outro"[16]. A ternura de Deus torna o nosso coração sensível, próximo. Abre-nos aos outros e descobrimos, com palavras de São Josemaria, “pessoas que necessitam de ajuda, de caridade e de carinho"[17]. Num tempo em que parece que temos que encher todo o nosso dia de iniciativas, de atividades, de ruído, é bom fazer silêncio fora e dentro de nós para poder escutar a voz de Deus e a do próximo.

Cada Advento evoca a alegre espera da segunda vinda do Senhor. Quando se abre o sétimo selo do Apocalipse, faz-se um silêncio no Céu (Ap 8, 1) que nos prepara para o mistério trinitário. O Céu cala porque reza, em humilde espera a manifestação de Deus. Como diz o Pseudo-Dionísio, veneramos em respeitoso silêncio o inefável de Deus: adoramos[18].

O Concílio Vaticano II recomenda na santa liturgia o “silêncio sagrado" diante de Deus[19]. Assim, durante a celebração eucarística, assinala Francisco, os corações “fazem silêncio e deixam-no falar a Ele"[20]. O Prelado do Opus Dei recorda como os tempos de silencio convidam a assembleia reunida na caridade a “escutar as sugestões íntimas" do Espírito Santo[21].

Acompanhemos o silêncio de Maria e de José.


A ternura de Deus manifesta-se nos sinais… Segundo uma bela expressão dos Padres, aprendamos a ler esses «modos de ser» de Deus, que se nos revela em Jesus Cristo. Acompanhemos o silêncio de Maria e de José. “Caía a tarde, num silêncio denso... Notaste muito vivamente a presença de Deus... E, com essa realidade, que paz!"[22].

Guillaume Derville

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[1] Francisco, Exortação apostólica Evangelii gaudium, 24 de novembro de 2013, 88.

[2] Cf. Ordenação geral do Missal Romano, 313.

[3] Cf. Jean Daniélou, Théologie du judéo-christianisme. Histoire des doctrines chrétiennes avant Nicée, 1, Desclée-Cerf, Paris 1991, p. 276.

[4] Cf. Mario Righetti, Historia de la liturgia I, Biblioteca de Autores Cristianos, Madri 1955, p. 206-207.

[5] Cf. São Josemaria, Sulco, 485; É Cristo que passa, 38; Amigos de Deus, 281, 284.

[6] São Josemaria, É Cristo que passa, 72; cf. Sulco, 485; cf. Via Sacra, 1, 4. Cf. Mt 26, 62.

[7] São Josemaria, Forja, 799. Cf. Is 30, 15.

[8] Bento XVI , Exortação apostólica Verbum Domini, 30 de setembro de 2010, 106.

[9] Francisco, Exortação apostólica Evangelii gaudium, 6.

[10] São Josemaria, Sulco, 179.

[11] Cf. São Josemaria, Caminho, 447, 645, 672;

[12] Cf. São Josemaria, Sulco 300, 530.

[13] Em hebreu, é a fórmula enigmática: “qol demama daqqa", que Francisco glosa na sua homilia em Santa Marta, cf. Osservatore Romano, 13 de dezembro de 2013, p. 8.

[14] São Josemaria, Sulco, 670.

[15] Beata Teresa de Calcutá, Entrevista concedida em 1987 ao jornalista R. Farina, e publicada no semanário italiano Il Sabato, cit. em J.L. Illanes, Tratado de Teologia espiritual, EUNSA, Pamplona 2007, p. 394-395.

[16] Francisco, Mensagem para a celebração da XLVII Jornada Mundial da Paz (1 de janeiro de 2014), 8 de dezembro de 2013, 10.

[17] São Josemaria, Questões atuais do cristianismo, 96.

[18] Cf. Pseudo-Dionísio, De divinis nominibus, c. I, n. 11, cit. em Fernando Ocáriz, Sobre Deus a Igreja e o Mundo, Quadrante, São Paulo 2013, p. 70.

[19] Concilio Vaticano II, Const. Sacrosanctum Concilium, 30.

[20] Francisco, Exortação apostólica Evangelii gaudium, 143.

[21] Javier Echevarría, Vivir la Santa Misa, Rialp, Madri, p. 70; cf. também p. 25, 106, 186. Cf. Ordenação geral do Missal Romano, 45, 55-56. Cf. Bento XVI, Exortação apostólica Verbum Domini, 66.

[22] São Josemaria, Sulco, 857.