Mensagem do Card. Ratzinger na abertura do Simpósio "Santidade e Mundo"

Mensagem do Card. Ratzinger na abertura do Simpósio Teológico "Santidade e Mundo", sobre o fundador do Opus Dei.

Entre aspas

"Do meio das misérias da terra surge o louvor. O trono de Deus está rodeado de um coro sempre crescente de almas salvas, cujas vidas se converteram num movimento de alegria e de glória, esquecidas de si próprias.

Mas este coro não canta apenas no além, vai-se preparando no devir da história e está já presente nela de forma oculta. Isto manifesta-se claramente na voz que provém do trono, isto é do Deus oculto: "Louvai o nosso Deus, vós todos, os seus servos, todos os que o temeis, pequenos e grandes" (Ap 19, 5). Trata-se de um chamamento ao nosso mundo para que nos dediquemos àquilo que é o único importante, e pertence, desde já, à liturgia da eternidade".

Pronunciei estas palavras há pouco mais de um ano, em Maio de 1992, na homilia de uma das Missas celebradas em ação de graças pela beatificação de Josemaria Escrivá. Era lógico que, nessa ocasião, evocasse a liturgia celeste: qualquer beatificação constitui um ato mediante o qual a Igreja, reconhecendo que um dos seus filhos mereceu entrar na intimidade de Deus, proclama a união entre a terra e o céu. O povo cristão, peregrino na terra, no meio de dificuldades e amarguras por vezes grandes, sabe que faz parte de uma realidade muito mais ampla: a Cidade dos santos que, iniciada na terra, encherá os céus.

Era lógico - repito - que, na Missa de ação de graças por uma beatificação, se evocassem e recordassem estas perspectivas da fé cristã: ou acaso não é a celebração eucarística o momento em que a Igreja confessa e vive com maior profundidade e participação a unidade entre a terra e o céu de que nos falam as beatificações e as canonizações? Mas será lógico também evocar tais perspectivas nestes momentos, no início de uma reunião científica? Um Simpósio de estudo será o lugar adequado para tecer considerações místicas e piedosas? Ou não será de preferência o momento para deixar atuar a razão científica, entendida quer como razão histórica que analisa criticamente os textos do passado, quer como razão argumentativa que necessita de conceitos e reclama demonstrações?

A Teologia, ciência no sentido mais pleno da palavra, é sem dúvida fruto da razão científica. Apesar disso, não é inadequado evocar neste contexto a realidade do céu; antes pelo contrário, é necessário fazê-lo, porque só desse ponto de vista se pode entender a Teologia. Tomás de Aquino exprimiu-o com uma fórmula justamente famosa e amplamente repetida: a Teologia é ciência subalterna da ciência de Deus e da dos santos. Esta afirmação pressupõe a reflexão aristotélica; e, em concreto, os textos com que o Estagirita demonstrou que as ciências não configuram mundos intelectuais desconexos, mas sim conhecimentos relacionados entre si, de modo que umas encontram noutras o seu fundamento, e, por esse motivo, são subalternas das mesmas. Estas considerações sobre a interligação das ciências foram aduzidas por Tomás de Aquino com o fim de fundamentar a Teologia. O Cristão é um 'viator', um caminhante que não vê a Deus, mesmo quando a palavra da revelação o faz entrever o mistério. Por conseguinte, sabe, mas na dependência do saber de um outro. A Teologia que nasce da fé é, ao fim e ao cabo, subalterna relativamente ao saber que Deus tem de si mesmo e daquele que os santos gozam já de um modo imediato e definitivo.

Com esta consideração, São Tomás pretendia realçar que a ânsia de verdade presente no coração humano, e ainda mais no coração do crente, e da qual nasce a Teologia, não é fruto de uma ilusão, de um desejo destinado a ficar permanentemente insatisfeito; representa a expressão de uma capacidade que Deus inscreveu no nosso espírito e que Ele próprio saciará um dia. A Teologia desembocará na visão, naquela visão que para os santos é já uma realidade.

Mas a consideração da Teologia como ciência subalterna relativamente ao saber de Deus e dos santos não implica apenas uma tensão em direção à escatologia, em direção à consumação final, em direção àquele momento em que a verdade entrevista, recebida com a palavra, se revela plenamente e conduz à situação definitiva dos santos. Implica também, em virtude do seu próprio conceito, uma referência à união vital com Deus que se torna possível já aqui na terra, para aqueles que, abrindo-se com fé à palavra divina, a tomam não apenas com a inteligência mas com a totalidade do coração. Porque Deus é simultânea e inseparavelmente verdade, bondade e beleza, e a força unitiva do amor não conduz apenas a deixar-se penetrar pela sua bondade, mas também a aprofundar na sua verdade.

O teólogo deve ser homem de ciência, mas também, enquanto teólogo, homem de oração. Não deve estar atento apenas ao desenrolar da história e ao desenvolvimento das ciências, mas também - e mais ainda - ao testemunho de quem, tendo percorrido até ao fim o caminho da oração, alcançou já, aqui na terra, os cumes mais altos da intimidade divina; isto é, ao testemunho daqueles que, na linguagem vulgar, denominamos com o qualificativo de santos. A compreensão de Deus, afirmam os santos, constitui - como já afirmei noutra ocasião - "o ponto de referência do pensamento teológico que avaliza a sua retidão. Neste sentido, o trabalho dos teólogos é sempre "secundário", face à experiência real dos santos. Sem este ponto de referência, sem esta íntima conexão com tais experiências, a Teologia perde o seu carácter de realidade" (J. Ratzinger, Guardare Cristo: Esercizi di fede, speranza e carità, Milano: Jaca Book, 1989, p.29). Praticar a Teologia, dedicar-se à investigação e docência teológicas, não é o mesmo que empenhar-se num trabalho frio e desencarnado, mas sim ocupar-se de Deus que é amor, e a quem se acede através do amor.

Superando a ruptura entre teólogos e espirituais que se deu nos inícios da idade moderna e, mais radicalmente ainda, o vincado intelectualismo que constitui um dos limites da posição iluminista, a teologia contemporânea proclama a íntima conexão entre Teologia e Espiritualidade, retomando, deste modo, a grande tradição cristã. Por conseguinte, nada mais lógico que organizar - como ponto culminante de um ano destinado a celebrar uma beatificação - um Simpósio de estudo. E que, nas palavras que introduzem esta reunião, tenha evocado precisamente a liturgia celeste, o coro dos anjos e santos que alcançaram a visão de Deus, tendo em conta que a Teologia se alimenta desta visão e da sua antecipação na oração contemplativa.

Torna-se oportuno, e mesmo necessário que, enquanto teólogos, escutemos a palavra dos santos a fim de descobrir a sua mensagem: uma mensagem multiforme, já que os santos são muitos e cada um recebeu um carisma particular, e ao mesmo tempo unitário, porque os santos remetem-nos para o único Cristo, ao qual se unem, e cuja riqueza nos ajudam a penetrar. Nesta sinfonia múltipla e unitária na qual, como diria Mölher, consiste a tradição cristã, que traços caracterizam Josemaria Escrivá? Qual o impulso que a Teologia recebe sob a sua luz? Não me cabe responder agora a estas perguntas: os intervenientes do Congresso apresentarão as suas reflexões pessoais, às quais se juntarão as daqueles que, participando do espírito de Josemaria Escrivá e em conexão com a sua mensagem, se dedicarem, com o passar dos anos, ao ensino e á investigação teológica.

No entanto, existe uma realidade que salta à vista quando alguém se aproxima da vida de Josemaria Escrivá ou entra em contacto com os seus escritos: um sentido muito vivo da presença de Cristo. "Aviva a tua fé. - Cristo não é uma figura que passou. Não é uma recordação que se perde na História. Vive! "Jesus Christus heri et hodie: ipse et in saecula!" - diz São Paulo. Jesus Cristo ontem e hoje e sempre!" (Caminho, n. 584). Este Cristo vivo é também um Cristo próximo, um Cristo em que o poder e a majestade de Deus se tornam presentes através das coisas humanas, simples, comuns.

Pode-se, pois, falar relativamente a Josemaria Escrivá de um cristocentrismo vincado e singular em que a contemplação da vida terrena de Jesus e a contemplação da sua presença viva na Eucaristia leva à descoberta de Deus e à iluminação, a partir de Deus, das circunstâncias do viver cotidiano. "Jesus, crescendo e vivendo como um de nós, revela-nos que a existência humana, a vida corrente e comum, tem um sentido divino. Por muito que tenhamos pensado nestas verdades, devemos encher-nos sempre de admiração ao pensar nos trinta anos de obscuridade que constituem a maior parte da passagem de Jesus entre os seus irmãos, os homens. Anos de sombra, mas, para nós, claros como a luz do Sol. Mais: resplendor que ilumina os nossos dias e lhes dá uma autêntica projecção, pois somos cristãos correntes, com uma vida vulgar, igual à de tantos milhões de pessoas nos mais diversos lugares do Mundo" (Cristo que passa, n.14).

Duas consequências derivam desta consideração da vida de Jesus, do mistério profundo da realidade de um Deus que não só se fez homem, mas que assumiu a condição humana, fazendo-se em tudo igual a nós, excepto no pecado (cfr. Heb 4, 15). Antes de tudo o chamamento universal à santidade, para cuja proclamação Josemaria Escrivá contribuiu de modo notável, como João Paulo II recordava na sua solene homilia durante a Missa da beatificação. Mas também, para dar consistência a essa chamada, o reconhecimento de que a santidade consiste nisto: em viver a vida quotidiana com o olhar posto em Deus, em plasmar as nossas acções à luz do Evangelho e do espírito da fé. Toda a compreensão teológica do mundo e da História deriva deste núcleo, como muitos textos de Josemaria Escrivá o atestam, de modo preciso e incisivo.

"Este nosso mundo - proclamava numa homilia - é bom, porque saiu bom das mãos de Deus. Foi a ofensa de Adão, o pecado do orgulho humano, que quebrou a harmonia divina da criação. Mas Deus Pai, quando, chegou a plenitude dos tempos, enviou o seu Filho Unigênito, que - por obra do Espírito Santo - encarnou em Maria sempre Virgem, para restabelecer a paz; para que, redimindo o homem do pecado, adoptionem filiorum reciperemus (Gal 4, 5), fôssemos constituídos filhos de Deus, capazes de participar na intimidade divina, e assim fosse concedido a este homem novo, a esta nova estirpe dos filhos de Deus (cfr. Rom 1, 9-10), a libertação de todo o universo da desordem, restaurando todas as coisas em Cristo, que as reconciliou com Deus (cfr. Col 1, 20)" (Cristo que passa, n. 183).

Neste esplêndido texto, as grandes verdades da fé cristã (o amor infinito de Deus Pai, a bondade original da criação, a obra redentora de Cristo Jesus, a filiação divina, a identificação do cristão com Cristo) são apresentadas à colação com o fim de iluminarem a vida do cristão e, mais em particular, a vida do cristão que vive no meio do mundo, empenhado nas múltiplas ocupações seculares. As perspectivas dogmáticas de fundo projectam-se na existência concreta e esta, por sua vez, leva a considerar de novo, com uma preocupação inédita, a mensagem cristã no seu conjunto; deste modo, produz-se um movimento em espiral que implica e sustenta a reflexão teológica.

Mas, como dizia antes, não me cabe a mim enfrentar agora uma tarefa tal, mas apenas introduzir o presente Simpósio. Basta o que disse, acompanhado dos votos de que estes trabalhos, ao aprofundar a mensagem espiritual de Josemaria Escrivá, contribuam para o desenvolvimento da Teologia, para bem de toda a Igreja.

Card. Joseph Ratzinger

Simpósio Teológico "Santità e Mondo", sobre o fundador do Opus Dei, organizado pela Faculdade de Teologia do então Ateneo Romano della Santa Croce, de 12 a 14 de Outubro de 1993