Junto à maior favela da África

Um Centro de Formação Profissional (Eastlands College of Technology) no bairro de Eastlands, Nairobi. Mose, e as pessoas que o acompanham nesta iniciativa, têm uma grande esperança para dignificar a situação profissional e humana dos mais pobres da sua sociedade.

Iniciativas Sociais
Opus Dei - Junto à maior favela da África Mose, um professor do Eastlands College of Technology, luta há muitos anos para que os meninos do maior conjunto de favelas da África tenham um futuro.

Durante uma viagem para Nairobi, o escritor espanhol Javier Aranguren realizou uma entrevista com Mose Muthaka, um dos idealizadores do Eastlands College. Durante a conversa, Mose acabou apresentando para Javier outro projeto realizado com os meninos de rua do bairro, o "Karibu sana".

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Depois de 13 anos procurando, encontraram o lugar para a instalação do Centro de Formação. Precisaram de seis anos para esclarecer os termos legais (é muito comum o engano na posse da terra, e até ter tudo nas mãos é melhor não construir, porque senão as obras podem ficar mais caras).

Quando finalmente tiveram tudo assinado, os novos donos resolveram cercar o terreno. Para isso decidiram pedir ajuda a uns meninos que andavam pelo local: ganhariam uma quantia de dinheiro por cada poste que pusessem. Mose fechou o trato com um sorriso e um aperto de mãos.

«Você é um de nós! Deu a mão para a gente!»

A cara de surpresa das crianças chamou a sua atenção. “Você é um de nós! Deu a mão para a gente! Sabia que as pessoas nos evitam, têm medo de nós, pensam que somos animais?”. E começaram a contar como viviam na rua, como mal conseguiam uma refeição diária e de alimentos pouco nutritivos, como para esquecer a fome usavam a cola (com o entorpecimento experimentavam a saciedade...).

–«Mas vocês não são animais! Eu também tenho fome às vezes, ou posso ficar triste, ou alegre!»

–«Como, é serio? Somos normais?» Foi assim que Mose conheceu os seus ‘filhos’.

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–«Mãe, poderia acolher em casa os meus filhos?». No início ela achou estranho: «Você não tinha dito que queria ficar solteiro para poder dedicar o seu tempo a ajudar os outros? E agora fala de filhos no plural! O que está fazendo?». Disse a sua mãe do outro lado do telefone. –«Fique tranquila, que eu te explico…».

Ela, mãe de onze, viúva, com uma casinha na metade de uma colina onde mora sozinha com a vaca, duas cabras, duas porcas..., disse-lhe que tudo bem, que havia espaço no quarto debaixo.

No começo foram dois. Dividiam o mesmo quarto. Mas depois apareceram mais: também dividiam o mesmo quarto. O momento mais crítico foi quando nesse quarto dormiam 20.
–«Em nossa cultura, uma criança não tem só o seu pai e a sua mãe. Todo mundo pode cuidar dela. Minha mãe e eu mesmo tínhamos isso bem claro: deixá-los na rua, para que em poucos anos estejam mortos ou se tornem criminosos? No começo foram dois. Dividiam o mesmo quarto. Mas depois apareceram mais: também dividiam o mesmo quarto. O momento mais denso foi quando nesse quarto dormiam 20. Eu, que sou testemunha, asseguro que o quarto é maior do que o uso no Quênia, e muito menor do que tenho em Bilbao. 20? Agora são oito, e há outros em outras casas de pessoas decididas a dar uma mão.

Javier, o autor deste relato, em uma das favelas de Nairóbi.

–«No Quênia, duas ou três pessoas podem compartilhar uma cama sem nenhum problema. Lembro-me que no funeral do meu pai dormimos quatro na parte de cima do beliche. E conseguimos dormir! Em baixo estavam as mulheres, outras quatro. É possível chegar a seis. De qualquer forma, com os meninos fazemos que cada um tenha o seu lugar, que às vezes pode ser no chão: na África não é fácil entrar num quarto quando se está dormindo».“Agora minha mãe cuida de oito, no ano passado, eram onze. Uns vizinhos têm três, e outros, um. Ao longo destes seis anos cuidamos – e educamos – mais de cem. No ano passado, contando os que eram educados no campo e os que cuidávamos em Nairóbi, 70 iam à escola”.

Se há matrícula escolar, há educação. E com a educação, um futuro sem dormir na rua

Perguntei por suas prioridades: o que precisam? Respondeu-me que este é o grande dilema. Às vezes parece que o urgente é dar-lhes um teto – que é urgente -, mas talvez seja melhor a educação, porque com o primeiro não lhes damos a capacidade de resolver a vida. Por esse motivo, a grande prioridade é o pagamento da matrícula escolar. Sem ele, não são admitidos no colégio, e sem educação não há futuro. E essa é a realidade, mesmo que durmam na rua. Claro que por esse motivo, encontrou a outra solução: as casas de acolhida, sua mãe.

–«Quanto custa a matrícula?»

–«240.000 shillings, ou seja, uns 220 euros (8.750 reais) por ano, na Educação Secundária. Na Primária, que em teoria é obrigatória e vai até os doze anos, custa uns 300 shillings – três euros (11 reais) – por mês. A primeira cifra é inalcançável não só para os meus meninos, mas para muitos das favelas».

–E os outros gastos?»

–«Eles não têm nada. O pão diário são 50 schillings, o mesmo que o leite: com um euro por dia quase poderíamos dar-lhes de comer. Leve em consideração que eu mesmo comia carne duas vezes por ano, e que o meu primeiro bolo de aniversário foi aos 25, quando comemorei com meus amigos de Nairóbi».

“Não percebe, meu filho, de que o que têm é fome?”

E me conta uma estória sobre bolos: faz quatro anos pensou que os meninos deveriam ter uma comemoração no Natal, senão a festa passaria despercebida. Comentou com sua mãe. «Quantos?», disse a paciente senhora. «Os meninos…, alguns das chácaras vizinhas. Uns vinte?», respondeu. Apareceram 50 desde o início da manhã, e sua mãe teve que sair para fazer compras, pedir ajuda às vizinhas e trabalhar muito para oferecer-lhes algo. Mas não pôde preparar outro bolo (o único Mose trouxe de Nairóbi, pediu um aos professores do Strathmore University). «Mas se cortar bem fino, muito fino, onde havia um pouco para 20 tem um pouco (menos) para 50. E todos experimentaram». No ano seguinte, vieram 150. No outro, 180…, e a coisa continua crescendo.

–«Agora organizamos jogos, com os quais se divertem muito, e tentamos dar alguns prêmios. No primeiro ano levamos canetas para que cada um tivesse um presente de Natal. Minha mãe me chamou: “Não percebe, meu filho, que o que eles têm é fome? Menos canetas e mais comida, por favor”. No ano passado consegui um montão de bolas de tênis. Já eram usadas, porém eles não se importaram nem um pouco».

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–«Alguma situação mais dramática? Repare que penso que muitos desses rapazes – tanto tempo sozinhos, na rua – necessitarão de assistência psicológica, não?»

–«A verdade é que isso nunca me preocupou. Talvez tenha razão.O fato mais dramático que encontrei foi uma moça que morava na rua. Tinha três filhos, o menor com algumas semanas, e ninguém a sustentava. Um homem se ofereceu para alimentá-la em troca de favores. Em um mês a abandonou. Ela começou a sentir alguma coisa estranha no estomago. Pensava que tinha um tumor, pois estava muito doente e debilitada.

Um desses rapazes me contou que sua irmã estava se prostituindo para que pudessem comer em casa. O que eu podia fazer?

Acompanhei-a ao hospital. Estava grávida desse homem que a havia deixado. Em menos de dez meses teve dois filhos. O último nasceu muito fraco e morreu logo. Ela faleceu um pouco mais tarde. Como as crianças eram muito pequenas, o Estado se encarregou delas. Porém, se ninguém as acolher, quando completarem cinco anos, podem acabar perfeitamente na rua.

Em outra ocasião um destes rapazes me contou que sua irmã estava se prostituindo para que pudessem comer em casa. O que poderia fazer? Procurei dinheiro para fazer um empréstimo à mãe para que pudesse montar um pequeno negócio, antes que sua filha destruísse a sua vida entre os indesejáveis do ‘slum’.

Mostra-me umas fotos: próximo de Eastlands Technical School, a obra educativa que está sendo realizada com o esforço de muitos (apoio da Espanha e da Comunidade Europeia, além de generosos donativos de quenianos com e sem recursos). O riacho se converte em rio se chove. Uns rapazes (doze, quinze anos), banham-se nessa água que arrasta o lodo e o lixo do local. É a ocasião que os meninos da rua têm para banhar-se, e para divertir-se um pouco. Ao fundo passam os carros, na lateral os transeuntes.

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–«Quem te ajuda, Mose?».

–«No começo, umas senhoras de Singapura. Vou contar a história: o Pe. Connor (um sacerdote irlandês, que vive no Quênia, mas morou uns anos nas Filipinas e em Singapura) veio com elas. Nesse momento estávamos dando o almoço (o ‘lunch’) a 25 meninos. Elas nos deram cem dólares para comprar comida e para que construíssemos uma cabana. Mas eu pensei: teto ou educação? E optei pelo segundo: paguei a matrícula de todos os que pude. Para quê um teto se depois se dirigem à delinquência?

Quando o Pe. Connor veio novamente, ele quis ver a casa. Eu lhe mostrei os livros dos meninos, e ele me entendeu. Contou para as senhoras e, desde então, me mandam todos os anos uma boa quantia de dinheiro. Outro: um tcheco que veio dar aulas na Universidade Strathmore me envia todo ano 300.000 shillings que consegue com os amigos. E pessoas do Quênia, que às vezes só podem enviar entre 5.000 ou 1.000 shillings (180 ou 36 reias), ou roupa. Qualquer coisa.»

Sete meninos já chegaram à Universidade

Perguntei quais eram as necessidades. Disse-me que há sete desses rapazes que foram de rua estudando na Universidade. Deles, cinco precisam de 9.000 shillings por mês, e os outros dois 5.000, para o alojamento (330 e 180 reais, respectivamente).

A comida, se estão no campo, sai dos terrenos da mãe de Mose, da vaca o leite, e da ninhada das duas porcas talvez um pouco de carne.

A alimentação é a parte. A escolha se torna difícil quando se tem que escolher entre comer ou enfrentar as faturas. Entre os estudantes, a roupa por enquanto é a que ganham das pessoas (isso dá lugar a combinações impossíveis, próprias da situação de miséria: no dia em que fui visitá-los no campo um menino de 14 anos vestia um colete de um terno de três peças, uma camisa amarelada, uma calça cinza e uns chinelos que já não cumpriam a função de calçado há meses).

'Preparando' o café da manhã.

A comida, quando estão no campo, sai dos terrenos da mãe de Mose, da vaca o leite, e da ninhada das duas porcas talvez um pouco de carne... E as matrículas da escola, as viagens para poder ver algumas vezes os familiares, os cadernos, os livros, os lápis, o combustível para as lamparinas, a roupa de cama, o papel higiênico, etc., etc., dos donativos que de vez em quando recebem.

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Mas o mais importante é considerar o que fazer depois que terminarem a escola. Alguns, com bolsa de estudos, vão à Universidade. Outros teriam que começar a trabalhar. Mas para isso precisam de ajuda.

A ideia de Mose não é que vivam de donativos, mas que levem adiante a iniciativa que considerem oportuna, apoiados por microcréditos.Por um lado, em Eastlands College of Technology se dedicam a isso: oferecem cursos para adultos onde se ensinam os fundamentos básicos de contabilidade e gestão, com os quais poderiam dirigir uma dessas pequenas lojas que se encontram nos mercados ou às margens das rodovias: galinhas e ovos, frutas, roupas de esportes, sapatos, lembranças, material elétrico, etc.

Esses créditos se oferecem sem de juros, e têm que devolvê-los num prazo breve, de modo que se o beneficiário espera que o seu negócio prospere e pagar o que deve (pouco a pouco, não precisa devolver tudo de uma vez só, mas devem sentir o peso da responsabilidade e ficar de olho na gestão – assim aprendem a não gastar o que não têm, e a pensar a médio e longo prazo), poderá pedir outro empréstimo, começando assim uma rota de fuga da pobreza que não deveria parar.

A ideia de Mose é que não vivam de donativos, mas que levem adiante a iniciativa que considerem oportuna, apoiados por microcréditos.

Do que necessitam? Talvez do capital para realizar um primeiro investimento (compras de categoria, aluguel do local), ou dinheiro para investir num veículo que lhes sirva de base para o negócio: as motos chamadas ‘bora bora’, por exemplo, as que se metem entre os atalhos ou até o coração mais escondido da favela de Kibera.

Disse-me que os emprestadores (nós) poderíamos emprestar o dinheiro por um ano, e que depois, se quisermos eles nos devolvem (a média de devoluções, até o momento, tem sido de 94%). Também podem optar por emprestar o dinheiro e, no final de um ano, doá-lo definitivamente, de modo que se conte com um fundo fixo para empréstimos que pode ser reinvestido uma vez e outra.

De quê quantia estamos falando? Uma moto custa 100.000 shillings (uns 3700 reais). Os empréstimos, dependendo do tipo do negócio, são de 30.000, 50.000 ou 100.000 shillings. Geralmente começam por uma quantidade mais baixa, que pouco a pouco é devolvida, e quando termina (na melhor das hipóteses em seis meses, devolvendo 500 shillings – 20 reais – por semana, ou inclusive menos) passa-se para o segundo empréstimo. O beneficiário deve apresentar, é claro, um plano de negócio.

Também pode aprender um ofício, por exemplo, na mesma Eastland Technical School, onde se ensina eletrônica, instalação de painéis solares, contabilidade, soldagem e qualquer tarefa com a que participar de construções. –«Às vezes os meios podem ser mais rústicos. Por exemplo, consegui 16 cabras. Distribui-as entre os vizinhos de minha mãe com a condição de que cada vez que parissem elas seriam devolvidas. Assim eles ficavam com as crias e nós passávamos a emprestar a cabra à outra pessoa. Dos que nasciam só deviam entregar-nos os machos, dos quais de vez em quando íamos comendo a carne. Você não tem ideia de como melhorou o número de cabras em Murunga!»

O sonho de Duncan

Ao terminar nossa conversa Mose me apresenta a um rapaz de vinte anos. É Duncan Iguru, um dos primeiros beneficiários da louca ideia deste homem. Duncan é de Murunga, o povoado onde vivem os meninos: um desses vizinhos sem dinheiro para pagar a matrícula da escola secundária.

Mose e Duncan.

Seus pais são granjeiros: não tinham nenhuma possibilidade de pagar, nem de pedir ao banco, pois este não aceita chá ou açúcar como pagamento. Mose se encarregou de tudo. Depois o incentivou a pedir uma bolsa de estudos que um Banco oferecia para estudar na Universidade Strathmore. A bolsa era de 100%, uns 3.000 euros por ano com os quais cobre a moradia e a matrícula. Sem Mose, Duncan estaria até agora no povoado, cultivando chá como seu irmão mais velho. Agora pensa abrir a sua própria empresa de Tecnologia da Informação, seu campo de estudo. Conseguirá? Quanto bem fará com ela? Onde estudarão seus filhos? E os seus netos? Salvar uma vida é salvar o mundo.

Mais informação para colaborar com o projeto Karibu Sana