Homilia de D. Javier Echevarría na missa de ação de graças do dia 7 de outubro

Homilia de D. Javier Echevarría na missa de ação de graças pela canonização de Josemaria Escrivá. "Se o século XX foi testemunha da "redescoberta" da chamada universal à santidade, o século que estamos percorrendo deve caracterizar-se por uma prática desse ensinamento mais efetiva e mais extensa".

Opus Dei
Opus Dei - Homilia de D. Javier Echevarría na missa de ação de graças do dia 7 de outubro

Laudate Dominum omnes gentes (Sal 116/117, 1), louvai o Senhor todos os povos. O convite do Salmo responsorial, que ressoou há uns momentos, é um bom resumo dos sentimentos que enchem hoje o nosso coração: Deo omnis gloria!, para Deus toda a glória. Queremos adorar o Deus três vezes Santo e dar-Lhe graças pelo dom com que enriqueceu a Igreja e o mundo: a canonização de Josemaria Escrivá, sacerdote, Fundador do Opus Dei, realizada ontem pelo nosso amadíssimo Papa João Paulo II.

A nossa gratidão dirige-se também ao Santo Padre, que deu cumprimento a este desígnio da Trindade: ao dispor-nos a elevar a nossa prece ao Céu, recomendamos ao Senhor a sua Augusta Pessoa e as suas intenções. Sabemos que esta súplica agradará muito a São Josemaria, que amou com toda a sua alma o Vigário de Cristo na terra, até ao ponto de não separar nunca esse amor ao Papa daquele que professava a Jesus Cristo e à sua bendita Mãe. Efetivamente, desde o mesmo instante em que o Senhor entrou na sua alma com os primeiros pressentimentos do Opus Dei, que então ainda não conhecia, começou a rezar e a trabalhar para fazer realidade o clamor que brotava do seu coração: Omnes cum Petro ad Iesum per Mariam!, Todos, com Pedro, a Jesus por Maria.

Todos os participantes nesta Santa Missa, e as inumeráveis pessoas unidas espiritualmente a nós no mundo inteiro, com gosto nos reconhecemos devedores do novo santo que Deus concedeu à Igreja. Muitos de nós obtivemos pela sua intercessão graças e favores de todos os gêneros. Não poucos nos esforçamos por seguir os seus passos de fidelidade ao Senhor na terra, procurando reproduzir nas nossas almas o espírito que ele encarnou. A todos, São Josemaria nos mostrou — com o seu exemplo e com os seus ensinamentos — um modo bem concreto de percorrer o caminho da vocação cristã, que tem como meta a santidade. Por isto, a canonização do Fundador do Opus Dei assume os traços característicos de uma festa: a festa desta grande família de Deus, que é a Igreja. Por tudo isto queremos dar graças ao Senhor nesta celebração eucarística.

Ainda não passaram quarenta anos desde que o Concílio Vaticano II proclamou o chamamento universal à santidade e ao apostolado, mas ainda fica muito caminho por percorrer, até que essa verdade chegue efetivamente a iluminar e a guiar os passos dos homens e das mulheres da terra. Recordou-o explicitamente o Romano Pontífice, na sua Carta apostólica Novo Millennio ineunte, ao propor essa doutrina como «fundamento da programação pastoral que nos corresponde no início do novo milênio» (NMI 31).

Todos na Igreja, cada Pastor e cada fiel, estamos chamados a comprometer-nos pessoalmente na procura diária da santidade pessoal e a participar — também pessoalmente — no cumprimento da missão que Cristo nos confiou. Se o século XX foi testemunha do «redescobrimento» desse chamamento universal — que estava contido no Evangelho desde o princípio, e do qual São Josemaria Escrivá foi constituído arauto pela pessoal vocação divina recebida — o século que estamos percorrendo há-de caracterizar-se por uma prática desse ensinamento mais efetiva e mais extensa. Eis aqui um dos grandes desafios que o Espírito apresenta aos homens e mulheres do nosso tempo.

São Josemaria Escrivá procurou despertar esta urgência de santidade em todos os homens. O fato de que a sua canonização tenha tido lugar nos alvores do novo século é particularmente significativo. A sua mensagem ressoa com especial força nos momentos atuais: «Viemos dizer, com a humildade de quem se sabe pecador e pouca coisa — homo peccator sum (Lc 5, 8), dizemos com Pedro — mas com a fé de quem se deixa guiar pela mão de Deus, que a santidade não é coisa para privilegiados: é que o Senhor chama a todos, de todos espera Amor: de todos, estejam onde estiverem; de todos, seja qual for o seu estado, a sua profissão ou ofício. Porque essa vida corrente, cotidiana, sem destaque, pode ser meio de santidade: não é preciso abandonar o próprio estado no mundo para procurar a Deus, se o Senhor não dá a uma alma a vocação religiosa, uma vez que todos os caminhos da terra podem ser ocasião de um encontro com Cristo» (Carta, 24-III-1930, n. 2).

Em todos os momentos — como aconselhava o novo Santo já desde os anos 30 — é preciso procurar o Senhor, encontrá-Lo e amá-Lo. Só se nos esforçarmos dia a dia por percorrer estas três etapas chegaremos à plena identificação com Cristo: a ser alter Christus, ipse Christus. «Talvez vos sintais — repito-o com as suas palavras — como que na primeira etapa. Procurai o Senhor com fome (...). Atuando com este empenho, atrevo-me a garantir que já o tereis encontrado, e que tereis começado a tratá-lo e a amá-lo, e a ter a vossa conversação nos céus (cfr. Fil 3, 20)» (Amigos de Deus, n. 300).

Encontramos Jesus na oração, na Eucaristia e nos outros sacramentos da Igreja; mas também no cumprimento fiel e amoroso dos deveres familiares, profissionais e sociais próprios de cada um. Trata-se, verdadeiramente, de um objetivo árduo, que só no fim da peregrinação terrena poderemos atingir plenamente. «Mas não percais de vista que o santo não nasce; forja-se no contínuo jogo da graça divina e da correspondência humana». Assim exortava São Josemaria numa das suas homilias, e acrescentava: «Por isso te digo que, se desejas portar-te como um cristão consequente (...), tens que cuidar em extremo dos pormenores mais nímios, porque a santidade que Nosso Senhor te exige alcança-se cumprindo com amor de Deus o trabalho, as obrigações de cada dia, que quase sempre se compõem de realidades miúdas» (Ibid., n. 7).

Santificar o trabalho. Santificar-se com o trabalho. Santificar os outros com o trabalho. Nesta frase gráfica resumia o Fundador do Opus Dei o núcleo da mensagem que Deus lhe tinha confiado, para recordá-lo aos cristãos. O empenho por alcançar a santidade encontra-se inseparavelmente unido à santificação da própria tarefa profissional — realizada com perfeição humana e retidão de intenção, com espírito de serviço — e à santificação dos outros. Não é possível ficar alheio aos irmãos, das suas necessidades materiais e espirituais, se se quer seguir os passos do Senhor. «Nossa vocação de filhos de Deus, no meio do mundo, exige não apenas que procuremos atingir a nossa santidade pessoal, mas que avancemos pelos caminhos da terra, para convertê-los em atalhos que, através dos obstáculos, levem as almas ao Senhor; que participemos, como cidadãos comuns, em todas as atividades temporais, para sermos levedura (cfr. Mt 13, 33) que fermente a massa inteira (cfr. 1 Cor 5, 6)» (Cristo que passa, n. 120).

A Providência divina dispôs que a trajetória terrena de São Josemaria Escrivá tivesse lugar no século XX, tempo que presenciou enormes desenvolvimentos da ciência e da técnica, que nem sempre, infelizmente, estiveram ao serviço do homem. Efetivamente, é preciso reconhecer que, juntamente com as conquistas admiráveis do espírito humano, neste nosso tempo abundam as torrentes de águas amargas, que tentam inutilmente de apagar a sede de felicidade dos corações. Mas também é verdade — como escreveu Mons. Álvaro del Portillo — que, com a mensagem espiritual do novo Santo, «todas as profissões, todos os ambientes, todas as situações sociais honradas (...) foram agitadas pelos Anjos de Deus, como as águas daquela piscina Probática recordada no Evangelho (cfr. Jo 5, 2 e ss), e adquiriram força medicinal» (Carta pastoral, 30-IX-1975, n. 20).

Ao recordar o primeiro sucessor do nosso Padre, D. Álvaro del Portillo, sentimos muito perto a sua presença espiritual nestes momentos. Com ele podemos afirmar, cheios de agradecimento a Deus, que graças à doutrina e ao espírito do Fundador do Opus Dei, «até das pedras mais áridas e de onde nada se esperava brotaram torrentes medicinais. O trabalho humano bem acabado fez-se colírio para descobrir a Deus em todas as circunstâncias da vida, em todas as coisas. E aconteceu precisamente no nosso tempo, em que o materialismo se empenha em converter o trabalho num barro que cega os homens, e lhes impede de olhar para Deus» (Ibid.).

Saúdo os que vieram a Roma de países de língua inglesa, para assistir à canonização de São Josemaria Escrivá. Ao regressar aos seus lares, levem consigo e procurem pôr em prática os ensinamentos do novo Santo. Peçam a São Josemaria que os ensine a converter a prosa diária —as situações mais comuns — em versos de poema heroico: em desejos e realidades de santidade e de apostolado.

Aos provenientes de países de língua francesa, recordo-lhes a importância de colaborar na missão apostólica da Igreja, que é dever de todo cristão, procurando fecundar com o espírito do Evangelho as artes e as letras, as ciências e a técnica. Peçam a intercessão de São Josemaria, para pôr em prática aquela aspiração que Deus mesmo gravou na sua alma: pôr Cristo — com o nosso trabalho, seja ele qual for — no cume de todas as atividades humanas.

Hoje a Igreja venera a Virgem Santíssima com a advocação de Nossa Senhora do Rosário. Alegra-me pensar que a canonização do nosso Fundador teve lugar na véspera de uma festa de Santa Maria; esta coincidência é mais um sinal da sua carinhosa assistência de Mãe. À sua mediação materna recorremos, cheios de confiança, e renovando o nosso agradecimento ao Senhor por esta canonização. Deo omnis gloria!, repito uma vez mais, enquanto pedimos que se difunda entre os cristãos, cada dia com mais força, o desejo de santidade pessoal e de apostolado nas circunstâncias da vida cotidiana. Assim seja.