Gostaria que através da minha doença as pessoas se aproximassem de Deus

Jorge, estudante valenciano de Ensino do 1º Ciclo e Pedagogia, tem 19 anos e tem leucemia linfoblástica. Foi recentemente entrevistado pela revista Paraula.

Testemunhos
Opus Dei - Gostaria que através da minha doença as pessoas se aproximassem de Deus

"É verdade que faz já hoje um mês que estou morarando na Suite e o Resort não está nada mal, mas é preciso terminar as férias e trabalhar…". Este é um dos tweets que o Jorge Ribera escreveu do seu quarto do hospital "La Fe" de Valência depois de um transplante de medula. Um tweet que deixa transparecer como é o Jorge: um jovem alegre e brincalhão.

Tem 19 anos e está tratando-se de uma leucemia linfoblástica aguda. Uma doença que lhe foi diagnosticada em 2010 e da qual pensava já estar curado até ter voltado a aparecer. Depois do tratamento de quimioterapia fizeram-lhe um transplante de medula que lhe doou o seu irmão. Depois da operação esteve um mês em isolamento no hospital e agora está se recuperando em casa.

Para o Jorge a sua fé foi fundamental para enfrentar esta situação. Quando fala de Deus nota-se que O tem perto e que sabe que a oração dá os seus frutos. É numerário adscrito do Opus Dei e participa nas atividades da associação juvenil Dardo. Lá é monitor aos fins de semana com os rapazes, aos quais ajuda na sua formação cristã. Tem dois irmãos e este ano ia começar a frequentar o curso do duplo grau de Ensino de 1º Ciclo e Pedagogia, na Universidade Católica de Valência. Por enquanto está fazendo apenas o primeiro curso e de forma on-line devido à sua doença.

No princípio foi duro e não o entendia mas depois percebi que deveria voltar a lutar e seguir em frente. Sei o que se passa, e portanto devo lutar pela última vez.

Qual foi a primeira coisa que lhe veio à cabeça quando soube que estava doente?
Não recordo a sensação que tive da primeira vez, mas nesta última tive uma sensação estranha porque depois de quatro anos não esperava que se voltasse a repetir. No princípio foi duro e não o entendia mas depois percebi que deveria voltar a lutar e seguir em frente. Sei o que se passa, e portanto devo lutar pela última vez.

Como o está vivendo? O que é que mais lhe ajuda?

Muito bem. Ajuda-me rezar mais e quando se aceita este tipo de coisas fazem-nos crescer e, sobretudo, percebemos a quantidade de pessoas que se põem a rezar. Estão atentos à evolução da situação, sejam ou não crentes, e isso é fantástico. A ajuda da minha família e a enorme quantidade de amigos e de pessoas que gostam de mim torna tudo muito mais fácil.

É possível manter a fé na doença? Estar na Igreja ajuda?

Claro que é possível. Se se aceita, reza-se mais e se está muito mais perto de Deus. E é que Deus não é um ente estranho que está ali vendo o que fazemos e pronto. Nada disso! Deus é nosso pai e qualquer pai se veria afetado se o seu filho estivesse passando por uma situação como esta. Assim peço-Lhe ajuda e consolo.

Estar na Igreja ajuda-me a ter fé porque se sabe que o que estou passando não é em vão mas tem repercussões nos outros, é algo transcendente com que se pode ajudar o resto.

Como lhe ajudou a Igreja?

Senti-me muito ajudado pela Igreja. Foram lá sacerdotes para me poder confessar e comungar e, além disso, consta-me que religiosas e religiosos estão rezando por mim. Também amigos, conhecidos e mesmo pessoas que não conheço de nenhum lugar mas que souberam do que me aconteceu e animam-me muito e rezam por mim.

estou vendo como muitas pessoas e amigos que há muito que não praticavam estão rezando ou, pelo menos, tiveram uma mudança na sua vida.

Porque é importante a oração? Você viu frutos na sua vida graças a ela?

É importante porque creio que se vai repercutir na minha cura, seja como for. Não entendo como funcionam as coisas lá em cima, mas sim. Além disso, gostaria muito que por causa da minha situação as pessoas se aproximassem de Deus e vissem que não é algo horrível, como por aí se pinta, mas que é genial.

Já vi muitos frutos. Por exemplo, durante todo o tratamento correu tudo bem. A princípio seriam três ciclos de quimioterapia e no final acabou sendo um e não houve nenhuma complicação séria, das que costuma ter. Além disso, estou vendo como muitas pessoas e amigos que há muito que não praticavam estão rezando ou, pelo menos, tiveram uma mudança na sua vida. E isto são apenas uns exemplos.

Como viveu o isolamento?

Pois, depende de como se esteja fisicamente. Se se está em baixa, como estava nos primeiros dias, dorme-se quase todo o dia e passa depressa. O mais duro é quando já nos vemos com forças para poder ir embora mas ainda não se pode. Esses dias tornam-se mais longos. O mais importante é viver o dia a dia sem pensar no longo prazo, nos dias que faltam. Quando se puder sair, sairemos, e quando tenha que acabar uma complicação, acabará. O mais importante é lutar por passar o momento em que se está da forma mais alegre e digna possível.

Que importância adquire a família?

É de vital importância. Eles são o apoio mais próximo e são super necessários quando se está em baixa. É duro vê-los sofrer connosco mas sabemos que estão dispostos ao que for preciso e que gostam de nós como de mais nada no mundo. Isso ajuda a continuar a lutar apesar do que aconteça.

Que diria ao jovem que vê a Igreja como algo antigo e que não é para ele?

Quem diz isso é porque não a conhece bem. Não é um lugar onde os idosos vão aos domingos passar um tempo. É muito mais do que um lugar. Estar na Igreja não nos fecha nem nos escraviza porque Deus nos deu a liberdade. Pode ser-se cristão e ir beber umas cervejas com os amigos e mesmo falar-lhes de Deus.

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Tweets a partir do "resort". A história do Jorge é difícil de resumir em 140 carateres, quantos ocupa um tweet. No entanto, foi esta a rede social que ele escolheu para contar o seu dia a dia. Um amigo propôs-lho e, assim, após a operação e do seu quarto do hospital "La Fe", contou como evoluiu ao longo do mês de isolamento. E tudo com um enorme sentido de humor, como se vê no nome escolhido para a sua conta: @SuiteDelResort. A ideia nasceu para que os seus amigos e conhecidos soubessem como estava, sem necessidade de mandar uma mensagem a cada um. Mas a pouco e pouco foram-no seguindo bastantes mais pessoas do que se esperava: "É genial e há muitas pessoas que me apoiam", diz.

Além disso também lhe permitiu conhecer outras pessoas que estão doentes e, assim, rezarem uns pelos outros. E é que, como ele diz "não temos que ter medo de pedir ajuda, há momentos que nos superam e para isso estão os amigos e, sobretudo, Deus". E o sentido de humor? Como ele próprio indica é fundamental "para não se passar para o outro lado". "É muito mais fácil para você e para as pessoas que se tem à volta e, além disso, quando isto passar é melhor que fique uma recordação de um episódio com graça do que triste", resume.

Entrevista original em Paraula

  • Carlos Albiach, Paraula