12. Expansão apostólica

De 1946 a 1960 o Opus Dei começou o trabalho apostólico em diversos países: Portugal, Itália, Grã Bretanha, França, Irlanda, Estados Unidos, Quênia, Japão, são só alguns.

Biografia
Opus Dei - 12. Expansão apostólica

Foram anos de dor física. A diabetes causava incômodos fortíssimos ao Padre. Tinha dores de cabeça constantes, muita sede, excesso de peso, além de outras perturbações próprias desta doença. Todos os dias recebia altas doses de insulina. Mas nunca faltava alegria na sua atitude. E gracejava com o seu bom humor sobre o excesso de açúcar no sangue:

”Deviam chamar-me Pater dulcissimus”.

Abril de 1954. São Josemaria residia há anos em Villa Tevere, sede central do Opus Dei, na Viale Bruno Buozzi, e a diabetes de que sofria tinha piorado. Todas as semanas fazia análises, e de cada vez o resultado era pior, apesar da dieta alimentar rigorosa e das altas doses de insulina que lhe injetavam diariamente. No dia 27 de Abril, seguindo as indicações do médico, Álvaro del Portillo tinha-lhe dado a injeção de insulina. Depois foram para a sala de jantar.

De repente, já sentado à mesa, teve um colapso, e pediu imediatamente a absolvição a D. Álvaro:

- Álvaro, dá-me a absolvição».

- Padre, que está a dizer?

- A absolvição!

Ao ver que não percebia, o Padre começou a recordar-lhe a fórmula: - Ego te absolvo... e perdeu os sentidos.

Era um choque anafilático Depois de lhe dar a absolvição, D. Álvaro tentou dar-lhe um pouco de açucare e chamou imediatamente o médico. Quando este chegou, já tinha começado a voltar a si, se bem que tivesse ficado cego. Mas a cegueira durou apenas algumas horas. Depois, ficou completamente curado. Ficaram-lhe, daí em diante, sequelas da doença que tinha durado dez anos, mas deixou de ser diabético. Havia sido uma carícia da sua Mãe Santa Maria, no dia da festa de Nossa Senhora de Monserrat.

Villa Tevere, a sede em Roma

Na sede de Roma, na viale Bruno Buozzi – uma compra sem recursos, confiando na providência de Deus e estimulados por várias personalidades da Santa Sé -, vivia-se no meio de obras. De princípio, tiveram de se instalar no pequeno edifício dos porteiros, a que chamavam “il pensionato” e onde nem sequer havia camas. Entretanto, o projeto da casa tomava forma. Uma casa, dizia o fundador, não rica, mas duradoura, justamente por amor à pobreza: Villa Tevere.

Em 1946, alguns membros da Obra tinham começado o trabalho apostólico em Portugal, Itália e Grã-Bretanha. Em 1947, em França e na Irlanda. Nos anos de 1949 e 1950, foi a vez do México e dos Estados Unidos, Chile e Argentina; em 1951, Colômbia e Venezuela; em 1952, Alemanha; em 1953, o Peru e Guatemala; em 1954, o Equador; em 1956, o Uruguai; em 1957, o Brasil… E entretanto tinha-se começado na Áustria, Canadá, Quênia e Japão… A Obra ganhava raízes em lugares tão diversos, como demonstração de que era coisa de Deus. E chegava gente de todas as partes que provinha de ambientes culturais e sociais muito diversos. Surgia a necessidade de proporcionar uma formação mais eficaz. Assim em 1948, em condições de habitabilidade muito precárias, erigiu o Colégio Romano da Santa Cruz, e no dia 12 de Dezembro de 1953 erigiu o Colégio Romano de Santa Maria, onde se iriam formar a partir de então centenas de pessoas, no coração da Igreja e do Opus Dei.

Os cooperadores do Opus Dei

Entre os pais de um filho seu irlandês

Cumpriu-se também neste período outro desejo de São Josemaria; a possibilidade de contar entre os cooperadores do Opus Dei com pessoas não católicas, e mesmo não crentes. “O Opus Dei, desde a sua fundação, nunca fez discriminações: trabalha e convive com todos porque em cada pessoa vê uma alma para respeitar e amar. E não são apenas palavras: a nossa Obra, com autorização da Santa Sé, admite como cooperadores os não católicos e também os não cristãos”. De maneira que São Josemaria dizia, com graça mas com muito respeito, a João XXIII: “Eu não aprendi o ecumenismo com Vossa Santidade”, porque os não católicos e até os não cristãos já podiam ser cooperadores da Obra antes do seu pontificado.

Quando homens e mulheres iam a começar o trabalho apostólico num novo país, o fundador transmitia-lhes a sua fé, a sua confiança na Providência, e animava-os com solicitude paternal. Em muitos casos foi ele próprio a preparar o terreno apostólico pessoalmente, à custa de realizar longas viagens em que dava a conhecer às autoridades eclesiásticas o espírito do Opus Dei, antes de chegarem os primeiros fiéis para exercer a sua profissão naquele novo país.

Por países da Europa

Em 1945, a Irmã Lúcia, vidente de Fátima, pediu-lhe que o Opus Dei começasse em Portugal. Em 1949, o cardeal Faulhaber recebeu-o com entusiasmo em Munique, solicitando o começo do trabalho apostólico em terras de Alemanha.

O fundador percorreu numerosas cidades europeias preparando esse trabalho: Zurique, Basileia, Bona, Colônia, Paris, Amsterdam, Lovaina… Esteve também em Viena, ainda com soldados soviéticos pelas ruas.

Durante uma viagem a Inglaterra

Na capital austríaca, começou a rezar por aqueles países da chamada então Europa Oriental que, depois da segunda guerra mundial, tinham ficado sob o regime comunista, com a jaculatória que depois repetiria milhares de vezes durante a sua vida. Sancta Maria, Stella Orientis, Filios tuos adiuva!, Santa Maria, Estrela do Oriente, ajuda os teus filhos! Viajava num automóvel que não era propriamente cômodo e em estradas, onde muitas vezes se notavam as marcas do conflito, mas alegrava o caminho aos seus acompanhantes entoando canções e com a sua conversa amável. Muitas vezes dirigia a meditação no carro, comentando as palavras do Senhor: “Eu escolhi-vos e formei-vos para irdes pelo mundo, dardes fruto e que o vosso fruto permaneça”.

Nunca faltavam, durante essas viagens apostólicas, as visitas aos santuários marianos mais conhecidos. Esteve também durante esses anos – finais dos anos 50 e início dos anos 60 - em Inglaterra onde conheceu as suas famosas cidades universitárias. Escrevia, cheio de esperança, nas suas cartas: “Se nos ajudais, trabalharemos a fundo nesta encruzilhada do mundo: rezai e oferecei com alegria pequenas mortificações”.

Em Agosto de 1958, quando caminhava pelas ruas de Londres, ao ver aquele ambiente cosmopolita, com pessoas provenientes de nações tão diversas, com instituições consolidadas desde há muitos séculos, perguntou-se a si mesmo como seria possível levar a tantos países o espírito do Opus Dei, uma realidade eclesial ainda tão jovem E sentiu o peso da sua debilidade pessoal.

- Não posso, Senhor, não posso!

- Tu não podes - fê-lo compreender Nosso Senhor no fundo da sua alma - mas Eu sim.

Um dia em Roma

Em Roma

Em Roma o ritmo dos dias não sofreu grandes variações ao longo de todos aqueles anos. Era ordenado por temperamento e esforçava-se por cultivar essa virtude, por amor a Deus e por caridade para com os outros: rezava, trabalhava nas tarefas de governo e de impulso apostólico do Opus Dei, e recebia muitas visitas.

Levantava-se cedo de manhã. Fazia meia hora de oração mental juntamente com um grupo de homens do Opus Dei que viviam em Villa Tevere, na Sede central. Depois, celebrava a Santa Missa, com grande unção: o sacrifício eucarístico era o centro e a raiz de cada dia e da sua vida inteira. Depois do pequeno-almoço, simples e frugal, dava uma olhadela aos jornais. Habitualmente, sempre havia uma notícia que o levava a unir-se intimamente com Deus em oração para reparar, para dar graças ou para pedir pelas pessoas envolvidas nalgum acontecimento

Em seguida, trabalhava junto com D. Álvaro del Portillo, então Secretário-geral do Opus Dei, em diversas questões: planos apostólicos e de formação cristã, iniciativas de serviço à Igreja, respostas a cartas que lhe chegavam de todo o mundo.

Depois recebia as visitas, e após o almoço, estava um pouco de tempo em tertúlia familiar com os seus colaboradores. Voltava ao trabalho, à oração, à recitação do Terço, à preparação de diversos escritos, vendo almas por detrás daqueles documentos e papéis.