4. Entre pobres e doentes

Entre os pobres e os doentes, os ignorantes, os deserdados, as crianças, encontrava a força para cumprir o imenso projeto que o Senhor tinha colocado nesse dia sobre os seus ombros. Foi a escola da dor, em que a sua alma se temperou.

Biografia
Opus Dei - 4. Entre pobres e doentes

“Se fosses rico, muito rico, que coisa gostarias de fazer?”

A singular pergunta vinha dos lábios do jovem Padre Josemaria, acabado de ser ordenado sacerdote e a braços com a sua primeira colocação: Perdiguera, um povoado com cerca de oitocentas almas relativamente perto de Saragoça. Falava com o filho da família onde se alojara, um rapazinho que passava os dias a pastorear cabras, e a quem, ao serão, ensinava um pouco de catecismo para a primeira comunhão. “Um dia lembrei--me de lhe perguntar, para ver como é que ia assimilando as aulas:

- Se fosses rico, muito rico, que coisas gostarias de fazer?

- O que é ser rico?, perguntou-me.

- Ser rico é ter muito dinheiro, ter um banco...

- E... o que é um banco?

Expliquei-lhe de um modo simples e continuei:

- Ser rico é ter muitas quintas e, em lugar de cabras, umas vacas muito grandes. Depois ir a reuniões, mudar de fato três vezes por dia... O que é que tu farias se fosses rico?

Abriu muito os olhos e por fim disse:

- Eu havia de comer cada prato de sopas de vinho!...

Todas as ambições são apenas isso; nada vale a pena. É curioso, nunca me esqueci daquilo. Fiquei muito sério e pensei: Josemaria, está falando o Espírito Santo. Foi isto que fez a sabedoria de Deus para me ensinar que tudo na terra era assim: muito pouca coisa.

Tinha chegado a Perdiguera três dias depois da ordenação, para uma substituição que lhe era apresentada como urgente. Era uma aldeia de 870 habitantes situada a poucos quilômetros de Saragoça, com um belo tempo de estilo gótico-mudéjar.

Ali teve uma dedicação exemplar ao seu ministério sacerdotal: Missa cantada todos os dias, Exposição do Santíssimo Sacramento, confissões, catequese... Procurou conhecer quanto antes todas as famílias, interessando-se pelas suas necessidades e visitando os doentes. Embora tenha passado pouco tempo naquela paróquia, deixou profunda marca entre a boa gente de Perdiguera, que sempre o recordou com afeto.

Regressou a Saragoça, onde exerceu o seu ministério e terminou a licenciatura em Direito, com boas notas.

Em Madri

Em 1927, com licença do arcebispo, mudou-se para Madri para fazer a parte curricular do doutoramento que então só era ministrada na Universidade Central; e começou a dar aulas de Direito Romano e Canônico numa Academia para sustentar a família, que pouco depois se instalou naquela cidade.

Madri contava na altura com uns 800 000 habitantes. Em busca de melhor sorte, ali chegavam milhares de emigrantes do mundo rural. Muitos acabavam, por falta de trabalho, em situação de miséria em bairros de lata que ficavam na periferia, formando uma longa cicatriz de pobreza. Nesses bairros periféricos e nos ambientes mais necessitados, o Padre Josemaria executou grande atividade sacerdotal, através do seu trabalho no Patronato de Doentes, instituição de beneficência dirigida pelas Damas Apostólicas do Sagrado Coração de Jesus.

Andava a pé de um lado para o outro para administrar os sacramentos a doentes e moribundos, indicados pelas Damas. Outras vezes eram confissões de crianças. Recordava ter preparado milhares para a primeira Comunhão naquela época. Não faltavam situações humanas muitas vezes dramáticas e sem solução, mas que podiam ser suavizadas com a caridade e com a doutrina.

A escola da dor

Junto a Isidoro Zorzano

Dava-se conta que o projeto de Deus para ele também não estava naquele apostolado de caridade. E, no entanto, entregava-se-lhe de alma e coração, especialmente depois da luz fundacional do dia 2 de Outubro de 1928. Entre os pobres, entre os doentes, entre os ignorantes, entre os deserdados, entre as crianças, era aí que encontrava forças para pôr em marcha o imenso projeto que o Senhor colocou nos seus ombros e a escola de dor onde a sua alma se temperou.

A sua entrega sacerdotal manifesta expressivamente o seu modo de entender o sacerdócio, tal como o ensinaria aos seus filhos que se ordenavam sacerdotes. Desejava que fossem sacerdotes a cem por cento, sacerdotes-sacerdotes, tendo como único fim servir a Deus e a todas as almas, sem distinções: “Servir é a maior satisfação que uma alma pode ter, e é isso o que, nós sacerdotes, temos de fazer: dia e noite ao serviço de todos; senão, não se é sacerdote. Deve amar os jovens e os velhos, os pobres e os ricos, os doentes e as crianças, deve preparar-se para dizer a Missa; deve receber as almas, uma a uma, como um pastor que conhece o seu rebanho e chama cada ovelha pelo seu nome. Os sacerdotes não têm direitos: eu tenho muito gosto em sentir-me servidor de todos, e esse título enche-me de orgulho”.

Entretanto, intuía no coração uma inquietação divina, um afã de messe, um desejo cada vez mais urgente de levar o calor do amor de Cristo a todas as criaturas. Repetia uma vez e outra na sua alma, por vezes, cantando, estas palavras do Evangelho: “Vim trazer fogo à terra; e que quero senão que se acenda?”.