Decreto sobre as virtudes heróicas do Fundador do Opus Dei

Está provada a existência das virtudes teologais da Fé, Esperança e Caridade, tanto para com Deus como para com o próximo, e também das virtudes cardeais da Prudência, Justiça, Temperança e Fortaleza e virtudes a elas anexas, em grau heroico, do Servo de Deus Josemaria Escrivá de Balaguer, sacerdote, Fundador da Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz e Opus Dei.

Entre aspas

«Todos os fiéis, seja qual for a sua condição ou estado, são chamados pelo Senhor à perfeição do Pai, cada um por seu caminho» (Conc. Ec. Vat. II, Const. Dogm. Lumen Gentium, n. 11). Na proclamação da vocação à santidade de todos os batizados, aspecto que foi reconhecido como «o elemento mais característico de todo o Magistério conciliar e, por assim dizer, o seu fim último» (Paulo VI, Motu pr. Sanctitas clarior, 19-111-69), brilha a consciência que a Igreja tem de si própria como mistério da comunhão dos homens com Deus. Contemplando este mistério, a Esposa de Cristo vê confirmar-se também o inesgotável patrimônio da sua própria história e acolhe o eco do testemunho daqueles arautos da santidade que o Espírito Vivificador suscita em todos os tempos para levar os homens ao acolhimento do desígnio salvífico.

O Servo de Deus Josemaria Escrivá de Balaguer conta-se entre essas testemunhas, não só pela fecundidade do exemplo que deu com a sua vida, mas também pela força peculiar com que, em coincidência profética com o Concilio Vaticano II, procurou, desde o início do seu ministério, dirigir a todos os cristãos o chamamento evangélico: «Tens obrigação de te santificar. - Tu, também. (...) A todos, sem exceção, disse o Senhor: 'Sede perfeitos como Meu Pai Celestial é perfeito'» (Caminho, n. 291); «estas crises mundiais são crises de santos» (ibid., n. 301).

Entre os diferentes caminhos da santidade cristã, a via percorrida pelo Servo de Deus manifesta com particular nitidez a radicalidade da vocação batismal. Graças a uma vivíssima percepção do mistério do Verbo Encarnado, ele compreendeu que toda a trama das realidades humanas se compenetra, no coração do homem renascido em Cristo, com o âmbito da vida sobrenatural e se torna, desse modo, lugar e meio de santificação. Verdadeiro pioneiro - já no final dos anos vinte - da intrínseca unidade de vida cristã, o Servo de Deus levou a plenitude da contemplação a todos os caminhos da terra e ensinou os fiéis a inserirem-se no dinamismo apostólico da Igreja, cada um no lugar que ocupa no mundo.

Esta mensagem de santificação das realidades terrenas e nas realidades terrenas revela-se providencialmente atual na situação espiritual da nossa época, tão solícita na exaltação dos valores humanos, mas também tão propensa a ceder a urna visão imanentista, que entende o mundo como separado de Deus. Além disso, ao convidar o cristão a procurar a união com Deus através do trabalho - tarefa e dignidade perene do homem sobre a terra -, a atualidade desta mensagem está destinada a perdurar para lá das mudanças dos tempos e das situações históricas, como fonte inesgotável de luz espiritual.

«Regnare Christum volumus!»: esse é o programa de Monsenhor Escrivá: «pôr Cristo no cume de todas as atividades humanas». O seu serviço eclesial fez surgir, em todos os ambientes e profissões, um movimento ascensional de elevação a Deus dos homens imersos nas realidades temporais, segundo a promessa do Salvador na qual ele via o núcleo do fenômeno pastoral do Opus Dei: «Et ego, si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad meipsum» (Jo 12, 32). Nesta cristianização do mundo ab intra radica o valor da sua contribuição para a promoção do laicado.

O Servo de Deus nasceu em Barbastro (Espanha) a 9 de Janeiro de 1902, de pais profundamente cristãos. Por volta dos quinze anos sentiu os primeiros pressentimentos da vocação e, embora não conhecendo o exato conteúdo dos planos divinos, decidiu fazer-se sacerdote para estar plenamente disponível à vontade de Deus. Tendo recebido a ordenação sacerdotal em Saragoça, a 28 de Março de 1925, mudou-se para Madrid, onde, a 2 de Outubro de 1928, viu que o Senhor lhe pedia que fundasse o Opus Dei. Depois de ter invocado durante anos a luz do Céu com as palavras do cego de Jericó - «Domine, ut videam!»(Lc 18, 41)-, o Servo de Deus compreendeu plenamente nesse dia a missão, «velha como o Evangelho e como o Evangelho nova», a que estava destinado: abrir aos fiéis de todas as condições sociais um caminho seguro de santificação no meio do mundo, através do exercício do trabalho profissional e do cumprimento dos deveres quotidianos, sem mudar de estado e fazendo tudo por amor de Deus. Pouco tempo depois, a 14 de Fevereiro de 1930, compreendeu com a graça de Deus que o Opus Dei devia desenvolver o seu apostolado também entre as mulheres. E dedicou todas as suas energias à realização desta missão, contando sempre com o alento e a bênção do Bispo de cada lugar.

Desde o início desenvolveu um vastíssimo apostolado nos mais diversos ambientes sociais e especialmente com os pobres e doentes dos subúrbios e hospitais de Madrid. Durante a guerra civil espanhola conheceu a fúria da perseguição anti-religiosa e deu provas diárias de heroísmo, entregando-se generosamente à oração, à penitência e a uma incessante atividade sacerdotal. Cedo adquiriu uma consistente fama de santidade: depois da guerra, foi convidado pelos Bispos para pregar retiros ao clero e contribuiu eficazmente para a renovação da vida religiosa no país. Numerosas Ordens e Congregações religiosas recorreram também à sua atividade pastoral. Simultaneamente, o Senhor permitiu que caísse sobre os ombros do seu Servo a Cruz das incompreensões, às quais ele respondeu sempre com o perdão, chegando a considerar os seus detratores como autênticos benfeitores.

A Cruz multiplicou as bênçãos do Céu e o apostolado do Servo de Deus estendeu-se com surpreendente rapidez. A 14 de Fevereiro de 1943 fundou a Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, inseparavelmente unida ao Opus Dei, que além de permitir a ordenação sacerdotal de membros leigos do Opus Dei e a sua incardinação ao serviço da Obra, permitiria também, mais tarde, aos sacerdotes incardinados nas dioceses, que compartilhassem da espiritualidade e da ascética do Opus Dei, procurando a santidade no exercício dos seus deveres ministeriais, dependendo exclusivamente do respectivo Bispo. O trabalho desenvolvido neste campo pelo Servo de Deus, quer diretamente quer através da Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, converte-o num exemplo luminoso de zelo pela formação sacerdotal.

Em 1946, o Servo de Deus estabeleceu-se em Roma; em 1947 e em 1950 obteve a aprovação do Opus Dei como instituição de direito pontifício. Com caridade infatigável e urna esperança laboriosa, guiou a difusão do Opus Dei por todo o mundo, levando a cabo uma vasta mobilização de leigos conscientes da sua responsabilidade na missão da Igreja. Deu vida a iniciativas de vanguarda na evangelização e promoção humana; suscitou em toda a parte vocações para o sacerdócio e para o estado religioso; realizou extenuantes viagens pela Europa e pela América, anunciando a doutrina da Igreja com fé vigorosa. E, sobretudo, entregou-se à formação dos membros do Opus Dei - sacerdotes e leigos, homens e mulheres – proporcionando-lhes uma sólida vida interior, um zelo ardente que se manifesta no compromisso pessoal de desenvolver um apostolado capilar, e uma adesão exemplar ao Magistério da Igreja: «Omnes cum Petro ad Iesum per Mariam!» foi a aspiração pregada e praticada sem cessar pelo Servo de Deus desde os primeiros anos de sacerdócio.

Os traços mais característicos da sua figura, porém, não se encontram apenas nos seus dotes extraordinários de homem de ação, mas também na sua vida de oração e numa assídua experiência unitiva que fez dele um contemplativo itinerante. Fiel ao carisma recebido, foi exemplo de um heroísmo que se manifestava nas situações mais correntes: na oração contínua, na mortificação ininterrupta «como o bater do coração», na assídua presença de Deus, capaz de alcançar a união mais elevada no meio do fragor do mundo e da intensidade de um trabalho incessante. Constantemente imerso na contemplação do mistério trinitário, situou no sentido da filiação divina em Cristo o fundamento de urna espiritualidade em que a fortaleza da fé e a audácia apostólica da caridade se conciliam harmoniosamente com o abandono filial em Deus Pai.

Devoto apaixonado da Eucaristia, o Servo de Deus viveu o Sacrifício do Altar como «centro e raiz da vida cristã». Foi um apóstolo incansável do Sacramento da Penitência; e ternamente devoto de Maria, «Mãe de Deus e nossa Mãe», de São José e dos Anjos da Guarda. Amava a Igreja com todas as forças do seu coração sacerdotal e oferecia-se em holocausto de reparação e penitência pelos pecados com que os homens mancham o seu rosto materno. Embora a prodigiosa fecundidade do seu apostolado estivesse à vista de todos ele considerava-se apenas um «instrumento inepto e surdo», um «fundador sem fundamento», «um pecador que ama com loucura a Jesus Cristo».

O Servo de Deus faleceu em Roma no dia 26 de Junho de 1975. No momento da sua morte o Opus Dei contava com mais de 60 000 membros de 80 nacionalidades; os sacerdotes incardinados na Obra eram quase um milhar; as iniciativas apostólicas - escolas, universidades e centros sociais, entre outras - tinham-se difundido nos cinco continentes. Os livros do Servo de Deus, publicados aos milhões de exemplares, encontram-se entre os clássicos da espiritualidade.

A fama de santidade do Servo de Deus, já amplamente comprovada em vida, conheceu, depois da sua morte, uma extensão universal, a ponto de constituir um autêntico fenômeno de piedade popular em muitos países. A Causa de Canonização foi introduzida em Roma a 18 de Fevereiro de 1981. Foram instruídos dois Processos Cognitivos aeque principales sobre a vida e as virtudes do Servo de Deus, um em Madrid e outro em Roma, que se concluíram respectivamente a 26 de Junho de 1984 e a 8 de Novembro de 1986. O Congresso Peculiar dos Consultores Teólogos, efetuado no dia 19 de Setembro de 1989, sob a direção do Promotor Geral da Fé, Rev.mo Mons. Antonio Petti, respondeu positivamente à questão sobre o exercício heroico das virtudes pelo Servo de Deus. No mesmo sentido se pronunciou a Congregação Ordinária dos Cardeais e dos Bispos na sessão de 20 de Março de 1990, de que foi Relator o Emmo. Card. Édouard Gagnon.

Tendo recebido do infra-escrito Cardeal Prefeito uma relação diligente e fiel de tudo o que foi acima referido e acolhendo os pareceres da Congregação, o Romano Pontífice João Paulo II ordenou que fosse preparado o Decreto sobre as virtudes heroicas do Servo de Deus.

Cumprida tal disposição e convocados na data de hoje o Cardeal Prefeito, o Relator da Causa, o infra-escrito Secretário e outros, segundo o costume, o Santo Padre declarou em presença destes: Está provada a existência das virtudes teologais da Fé, Esperança e Caridade, tanto para com Deus como para com o próximo, e também das virtudes cardeais da Prudência, Justiça, Temperança e Fortaleza e virtudes a elas anexas, em grau heroico, do Servo de Deus Josemaria Escrivá de Balaguer, sacerdote, Fundador da Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz e Opus Dei, no caso e para os efeitos de que se trata.

O Santo Padre dispôs que este Decreto seja tornado público e conste das atas da Congregação para as Causas dos Santos.

Dado em Roma, a 9 de Abril de 1990.

ANGELO Card. FELICI

Prefeito

Edward Nowak, Archiep. tit. Lunensis

Secretário