“Como um rio de paz”

Comunicação apresentada por Maria Helena G. Pratas no Congresso por ocasião do Centenário de Álvaro del Portillo, na Universidade Pontifícia da Santa Cruz (Roma, 12 – 14 de Março de 2014).

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Comunicação apresentada por Maria Helena G. Pratas no Congresso por ocasião do Centenário de Álvaro del Portillo, na Universidade Pontifícia da Santa Cruz (Roma, 12 – 14 de Março de 2014).

«Como um rio de paz» (Is 66, 12). Se quisesse resumir numa expressão, as minhas recordações de D. Álvaro del Portillo, seria esta a frase que escolheria: «Como um rio de paz» (Is 66, 12).

“Como um rio de paz”: foi assim desde os primeiros momentos em que o conheci mais de perto, ainda antes da sua eleição à frente do Opus Dei. Corria o ano de 1975. Eram momentos duros, difíceis: o falecimento recente de São Josemaria tinha-nos apanhado de surpresa e parecia incrível que tivesse acontecido, que fosse realidade. Perante a perplexidade, D. Álvaro enchia-nos de serenidade.

Maria Helena Pratas apresentando a comunicação

Também em Portugal se viviam momentos de incerteza, e face às ondas da revolução que assolava o país, o Servo de Deus transmitia-nos paz e fortaleza. «Quanto rezou o nosso Padre por Portugal!», foram as primeiras palavras que me dirigiu, a primeira vez que o pude cumprimentar, a 7 de Setembro de 1975. Não falava quase nunca de si mesmo: os seus pensamentos e as suas palavras eram sempre para falar do nosso Padre – o Fundador do Opus Dei – e torná-lo presente nas nossas vidas. «Não o sentem nos vossos corações? Como a fazer-vos advertências?» perguntava, pouco depois, numa tertúlia, nesse mesmo dia, em que pediu orações pelos congressos eletivos que se realizariam dentro de uma semana. Ao falar com ele enganávamo-nos e chamávamos-lhe Padre, e ele também se enganava e chamava-nos «filhas», para corrigir depois: «minhas irmãs». Era tal a sua sintonia com o nosso Padre, que fazia e dizia o que ele teria dito e feito. Podíamos adivinhar como reagia, o que faria em certas ocasiões, pensando no que tinha feito o nosso Fundador. E não nos enganávamos. Lembro também a sua alegria depois da primeira audiência com o Vigário de Cristo, Paulo VI, em 1976; contou-nos que o Santo Padre lhe tinha dito: «sempre que tiver de resolver algum assunto, (…) interrogue-se: Como atuaria o Fundador? E atue em consequência» [1]. Tinha-lhe dado muita alegria este conselho do Santo Padre, que correspondia exactamente ao que procurava viver continuamente.

Apreciava a paz, como nos confiou numa tertúlia recordando a primeira Missa que celebrou depois da sua ordenação sacerdotal: tinha escolhido celebrá-la no dia de Santo Ireneu, porque o seu nome significa paz.

Nunca o vi perder a paz: nem sequer perante a responsabilidade de ser o sucessor de um santo, depois da sua eleição como Presidente Geral do Opus Dei, a 15 de Setembro de 1975, ano que chamou “a etapa da continuidade e da fidelidade”. Em Junho de 1976, na Universidade de Navarra explicava que tinha “terminado a etapa fundacional do Opus Dei, para dar começo à etapa da continuidade, da fidelidade mais plena a toda a herança espiritual que o Padre nos transmitira [2]. Pedia orações para ser bom e fiel, e explicava: «guardo na minha alma a profunda convicção de que agora o Padre dirige e governa a Obra do Céu. À sua intercessão recorro constantemente, para realizar com muita fidelidade a missão de lhe suceder, que me compete. Uma profunda convicção que me enche de paz, ao ver a minha pequenez e ao contemplar a minha responsabilidade: o Padre continua a conduzir a Obra do Céu. Eu aqui não quero ser mais que o instrumento leal do seu coração vigilante» [3]. E isso comprovámo-lo continuamente.

A paz manifestava-se na sua vida. Ainda que tivesse muito que fazer, não se notava: escutava cada pessoa com atenção e enorme carinho, como se não tivesse nada mais para fazer nesse momento. Perante notícias dolorosas não se alterava, aceitando a vontade de Deus.

Continuava, pouco depois: «só podemos ser verdadeiros artífices da paz, se de verdade lutamos para a ter cada um de nós» [4]. E era artífice de paz, porque lutava por se apoiar sempre na fortaleza de Deus [5].

A paz manifestava-se na sua vida. Ainda que tivesse muito que fazer, não se notava: escutava cada pessoa com atenção e enorme carinho, como se não tivesse nada mais para fazer nesse momento. Perante notícias dolorosas não se alterava, aceitando a vontade de Deus. Por exemplo, perante o falecimento dos Papas a quem queria muito, e com os atrasos que isso acarretava também para que se solucionasse o problema institucional do Opus Dei. Contava, em Setembro de 1978, que o Santo Padre lhe tinha comunicado «que era seu desejo que se desse seguimento para conseguir a ansiada solução jurídica. Mas o repentino, e por isso mais doloroso, desaparecimento de João Paulo I pareceu como um “dilata” aos nossos desejos. Deus sabe mais! Repetia muitas vezes, seguindo o exemplo do nosso Padre» [6].

Em 1985 (30-III-1985) pronunciou uma homilia sobre a paz, em que afirmou que é «do coração humano, da sua imensa capacidade de amar, da sua generosidade para o sacrifício, donde podem surgir – fecundados pela graça de Cristo – sentimentos de fraternidade e obras de serviço aos homens, que como rio de paz (Is 66, 12) cooperam para construção de um mundo mais justo, em que a paz tenha carta de cidadania e impregne todas as estruturas da sociedade. Se quereis (…) ser obreiros de paz, “semeadores de paz e de alegria por todos os caminhos da terra” (…), deveis fazer uma grande provisão de paz no vosso coração. Assim, da vossa abundância, podereis dá-la aos outros homens, começando pelos que se encontram mais perto de vós» [7].

«Como um rio de paz». Era precisamente o que se passava com ele: a sua vida fecundava de paz as nossas vidas, porque a tinha em abundância, como resultado da sua profunda união com Deus. Jamais esquecerei o seu olhar numa Sexta-feira Santa, depois de uma tertúlia no UNIV: via-se que estava completamente metido em Deus, procurando acompanhar o Senhor e revivendo os momentos da Sua Paixão. Pedi-lhe que me benzesse um crucifixo e beijou-o, com devoção, sem se distrair.

“Se quereis (…) ser obreiros de paz, “semeadores de paz e de alegria por todos os caminhos da terra” (…), deveis fazer uma grande provisão de paz no vosso coração. Assim, da vossa abundância, podereis dá-la aos outros homens, começando pelos que se encontram mais perto de vós”

Poucos meses depois, em 11-X-1986, escrevia-nos uma Carta pedindo que nos fizéssemos eco da voz do Vigário de Cristo, por ocasião da Jornada de oração que se celebraria em Assis, convocada pelo Santo Padre João Paulo II. E em Outubro de 1989 recordava-nos o que Cristo disse no Sermão da Montanha: «bem-aventurados os pacíficos» - os que semeiam a paz – porque serão chamados filhos de Deus (cf. Mt 5, 9).

Não era obstáculo a quantidade de atividades que desenvolvia ao mesmo tempo e das quais nem sequer nos dávamos conta! Com a sua idade, nada o fazia parar: se via que era necessário fazer alguma coisa, lançava-se, com grande confiança na Providência de Deus e pondo, ao mesmo tempo, todos os meios humanos. Lembro como nos contou, numa tertúlia, que queria que houvesse em Roma uma Clínica, para que as pessoas da Obra pudessem morrer em casa, rodeadas dos cuidados de pessoas da Obra. A última vez que o vi foi precisamente na Santa Missa de inauguração do Campus Biomédico: estava muito emocionado!

Lembro ainda como se fez eco do desejo do Vigário de Cristo de uma nova evangelização, não se poupando a viagens para começar o trabalho apostólico da Obra em novos países. Da América à África, da Ásia à Oceânia, foram muitos os países que visitou nos anos em que vivi em Roma, para impulsionar o trabalho [8]. Não se permitia descansos. Sem perder nunca a serenidade, esse rio de paz ia atravessando montes e enchendo de fruto e de colheita os campos apostólicos do mundo, com o desejo de servir Cristo e levar o seu reinado de paz e de compreensão a todos os recantos da sociedade e da história - «Regnare Christus volumus!» foi o seu lema [9].

Pioneiro sobre o papel da mulher ou fiel à inspiração evangélica?

Podemos considerar que D. Álvaro foi pioneiro no tema da mulher. Defendeu a sua importante missão em todos os âmbitos da vida civil e eclesial. Em 1969 publicou o livro Fiéis e leigos na Igreja, com base num trabalho que redigiu para a revisão do Código de Direito Canónico. Nesse livro defende a dignidade da pessoa na Igreja e refere-se também à situação jurídica da mulher, que «goza de uma verdadeira igualdade jurídica, sem nenhuma espécie de inferioridade em relação ao homem» [10]. Há uma igualdade radical, por direito divino, natural e positivo. Contudo, acrescenta, não é ousadia afirmar que existe uma desigualdade, uma discriminação de facto, que corresponde à resistência a que a mulher ocupe plenamente o lugar que lhe compete na atividade da Igreja - muitas vezes, de modo inconsciente, outras com base em falsas razões, e sempre com a melhor das intenções [11]. E refere concretamente: «se pensamos, por exemplo, na esfera da cultura e da formação universitária, quantas faculdades de Ciências Sagradas autorizariam a presença de mulheres no seu corpo docente? Trata-se, acrescenta, de uma verdadeira discriminação» [12].

A igualdade essencial entre o homem e a mulher exige precisamente que se saiba captar o papel complementar de um e de outro no progresso da sociedade civil, pois não foi em vão que Deus os criou homem e mulher. Ambos se devem sentir legitimamente protagonistas da história, mas de forma complementar

Considerava que não havia nenhuma razão para fazer qualquer tipo de distinção ou discriminação quanto à mulher. Todos - homens e mulheres - participam por igual de uma comum dignidade, liberdade e responsabilidade. Insistia na unidade radical que já São Paulo ensinava aos primeiros cristãos (cf. Gal 3, 27-28) [13]. A igualdade essencial entre o homem e a mulher exige precisamente que se saiba captar o papel complementar de um e de outro no progresso da sociedade civil, pois não foi em vão que Deus os criou homem e mulher. Ambos se devem sentir legitimamente protagonistas da história, mas de forma complementar [14].

Quarenta anos antes de João Paulo II salientar a necessidade da tomada de consciência quanto à múltipla contribuição que a mulher oferece à vida das sociedades e das nações nos âmbitos sociais, políticos e económicos e para a promoção de uma cultura em consonância com a dignidade da pessoa humana [15], já em 1949, S. Josemaria e D. Álvaro desejavam que as mulheres do Opus Dei estivessem nas encruzilhadas do mundo do trabalho e da vida social. Numa época em que a condição feminina estava limitada a um papel secundário, preconizavam para a mulher uma missão mais profunda [16]. Na base desta espiritualidade encontra-se uma antropologia que incluía uma conceção surpreendentemente inovadora da dualidade homem-mulher. Uma antropologia que, com muitos outros elementos, os torna pioneiros no anúncio de uma nova civilização e que não era habitual nos alvores do séc. XX [17].

O Servo de Deus Álvaro del Portillo - como também fez S. Josemaria – defendeu o direito da presença da mulher no conjunto da vida social e eclesial. Ao defender que não se deveria fazer qualquer distinção ou discriminação em relação à mulher - excetuando a capacidade jurídica de receber as ordens sagradas [18] -, não ignoravam que esta atitude ia encontrar resistência por parte de algumas mentalidades. Foi grande o assombro perante o facto de quererem que também as mulheres obtivessem graus académicos em ciências sagradas. Já pelos anos cinquenta tinham manifestado esse desejo à Santa Sé, que lhes comentou que deviam esperar: “Dilata”, foi a resposta; a mesma resposta recebida ao fazer a proposta de haver no Opus Dei Cooperadores não católicos [19].Tudo isto era considerado demasiado avançado ou inovador para a época. Contudo, animaram muitas mulheres do Opus Dei, ou outras que o desejassem, a fazer doutoramentos em Teologia, logo que foi possível. Já em 1969 três mulheres iniciaram os estudos para o doutoramento em Teologia, e em 1973 as primeiras mulheres com curso em Teologia concluíram o seu doutoramento nas Faculdades de Estudos eclesiásticos da Universidade de Navarra.

Gostaria de referir aqui uma experiência pessoal, relacionada com esta mesma Universidade Pontifícia, então ainda no seu início: Centro Academico Romano della Santa Croce, chamava-se nessa altura. No primeiro ano após a sua inauguração, em 1985, D. Álvaro convocou, para fazer o doutoramento, nesse Centro, em Teologia ou em Direito Canónico, nada menos do que dez mulheres profissionais de todo o mundo e de diversas nacionalidades e continentes: vindas da América do Norte, da longínqua Ásia, ou da América do Sul - Brasil, Argentina, Perú, Guatemala -, passando por vários países da Europa - Alemanha, Suíça, Espanha, Portugal -. Éramos um variado grupo de diversas línguas e raças. Pelo menos no meu país não existia nenhuma mulher doutorada em Teologia ou a preparar-se para isso, e lembro-me da surpresa, com alguma mistura de receio, de uma amiga, que me perguntava se isso de estudar teologia não era coisa de sacerdotes… Em instalações provisórias e precárias, sem aquecimento, a sede académica situava-se então junto à Igreja de San Girolamo della Carità, em pleno coração de Roma. Nesse mesmo edifício - agora ocupado pela Biblioteca desta Universidade - tinha vivido S. Filipe Néri. A pobreza e as dificuldades dos começos não foram obstáculo ao elevado nível académico dos estudos e dos professores, de todo o mundo. Não foram obstáculo, nem as obras do edifício em construção, nem o frio, nem o nevão que cobriu Roma nesse ano. As caminhadas para a Universidade, com os pés a afundarem-se na neve, devido à ausência de transportes, foram também uma verdadeira aventura, inolvidável. Nem sequer foi obstáculo, a ausência de computadores - escrevíamos, com muita dificuldade, numa antiga máquina de escrever – nem a nossa ignorância do italiano, do hebraico, do grego... D. Álvaro interessava-se pelas nossas dificuldades, animava-nos e confiava em nós. Transmitia-nos paz.

A Carta do Papa João Paulo II às Mulheres oferece como exemplo a «própria atitude de Cristo. Ele, superando as normas em vigor na cultura do seu tempo, teve para com as mulheres uma atitude de abertura, de respeito, de acolhimento, de ternura. Honrava assim, na mulher, a dignidade que ela sempre teve no projeto e no amor de Deus» [20]; e apela a um compromisso de «renovada fidelidade à inspiração evangélica» [21]. «Fidelidade à inspiração evangélica»: essa foi, sem sombra de dúvida, a atitude de D. Álvaro del Portillo. Fiel à mensagem e ao exemplo de Jesus Cristo, superou as normas em vigor na cultura do seu tempo e teve para com a mulher uma atitude de abertura, de acolhimento, de respeito pela sua dignidade e uma grande confiança nas suas capacidades.

Ser santo, cristianizar o mundo a partir de dentro é a missão do cristão. E a mulher participará nela da maneira que lhe é própria, em qualquer tarefa que desempenhar, com as suas características peculiares

Anos mais tarde, em 1990, na preparação do sexagésimo aniversário do dia em que Deus manifestou a sua vontade de que houvesse mulheres no Opus Dei, a 14 de Fevereiro de 1930, D. Álvaro escreveu uma Carta em que abordou o tema da mulher. O Decreto sobre o Apostolado dos Leigos do Concílio Vaticano II recordava: «Como nos nossos dias as mulheres têm uma participação cada vez maior em toda a vida da sociedade, é de grande importância a sua participação, igualmente crescente, nos diversos campos do apostolado da Igreja» [22]. Continuava, afirmando que estas palavras do Concílio exprimem uma realidade e um desejo que havia já muitas décadas encontravam cumprimento específico na Obra [23]. Não só em teoria, mas sobretudo na prática, o Opus Dei abriu panoramas invulgares de intervenção feminina em todas as profissões e situações da vida social, impulsionou e animou um sem número de mulheres a levar a cabo aventuras apaixonantes de transformação da vida social e cultural em países de todo o mundo, antecipando o que o Magistério viria a dizer mais tarde [24].

Considerou sempre um facto natural e positivo que as mulheres trabalhassem em todos os sectores da vida, alertando igualmente contra o erro de pensar que a perfeição só se alcança fora do lar, como se o tempo dedicado à família fosse um tempo roubado ao desenvolvimento e à maturidade da pessoa. A dedicação à família não se opõe à participação noutros âmbitos da vida social e política [25]. E recordava também que a família é a protagonista principal da paz: é a paz nas famílias que levará a paz ao mundo [26].

D. Álvaro del Portillo fez-se eco das afirmações da Carta Apostólica Mulieris dignitatem: «o Santo Padre João Paulo II desenvolveu considerações que iluminam a função central da mulher na nova evangelização do mundo atual. A mulher, afirma, é querida por Deus como um testemunho privilegiado da ordem do amor (nº 29). A ela o Senhor confia de um modo especial o ser humano (nº 30), com o objetivo de que seja para a humanidade como revelação viva do amor com que Deus ama a cada um (…). Penso no empenho nas profissões intelectuais, defendendo e promovendo a verdade acima de qualquer condicionamento ou compromisso. Penso na difusão de modelos mais conformes com a dignidade do homem imagem de Deus, por exemplo na moda e nos espetáculos; na afirmação do primado da pessoa, com os seus direitos, aspirações e exigências, em todas as atividades profissionais; (…) Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, Mãe de cada homem e de cada mulher, é o Modelo perfeito da feminilidade segundo o desígnio eterno da Criação e da Redenção» [27].

«Não há discriminação na Obra, há só vocação»: afirmava o Servo de Deus numa homilia na Clínica da Universidade de Navarra, em 14 de Fevereiro de 1992: «Ao Opus Dei podem vir todos, se Deus os chama a esta tarefa divina na Igreja: leigos e sacerdotes, jovens e idosos, mulheres e homens, solteiros, casados e viúvos, sãos e enfermos. E enfermos!, meus filhos, que são o nosso tesouro. Quero hoje e aqui, na Clínica, destacá-lo. Não há discriminação na Obra, só há vocação. Todos podem vir, acabo de afirmar. E vimos com uma única finalidade: santificar a vida quotidiana, a vida real de cada um - o trabalho profissional ou a doença que nos retém no leito -, transformada em âmbito e meio de difusão apostólica. Mas volto ao texto da Carta aos Gálatas. Nascido de mulher. Maria. A mulher. Todos somos nascidos de mulher. Não se é homem sem a mulher. A vida humana e cristã não pode levar-se a cabo - como vida humana e cristã – sem a mulher. Esta verdade antropológica de sempre, que o Santo Padre João Paulo II tratou com singular acuidade, tem hoje uma legitimidade difícil de exagerar. Neste aniversário do chamamento das mulheres ao Opus Dei gostaria de o frisar mais uma vez. A Clínica Universitária é precisamente um exemplo claro do que quero dizer. Acaso se concebe o que esta Clínica é, e deseja ser, sem as mulheres que nela trabalham? Desde as que trabalham em lugares retirados e humildes até às que se ocupam de tarefas de alto nível clínico e de investigação, passando pela magnífica ‘legião’ de enfermeiras; todas elas, a mão de mulher de cada uma delas, contribui de modo insubstituível para que a Clínica Universitária seja, com a graça de Deus, o que o nosso Fundador idealizou. Nenhuma instituição social pode responder à dignidade do ser humano sem a presença nela, a todos os níveis, do homem e da mulher, ambos a partir dos traços originais que o próprio Deus, ao criar-nos e redimir-nos, nos concedeu. E a mulher, em concreto, pondo aí onde se encontra esse modo próprio feminino de ser, que transforma em lar os âmbitos mais díspares. Porém, queridas filhas e queridos filhos, isto é muito difícil de levar em frente, como Deus quer, sem considerar, e amar, e invocar, a nossa Mãe Santa Maria» [28].

Assim como só Cristo revela o homem ao próprio homem e lhe descobre a sua vocação sublime [29], do mesmo modo, olhando para Maria, se pode descobrir o «horizonte essencial da reflexão sobre a dignidade e a vocação da mulher, a essência da feminilidade» [30]. Maria é o novo princípio da dignidade e da vocação da mulher. Nela, a mulher pode descobrir toda a riqueza, todos os recursos pessoais da feminilidade E esta descoberta deve chegar continuamente ao coração de cada mulher e plasmar a sua vocação e a sua vida [31].

O Fundador do Opus Dei não gostava de se propor como modelo, contudo, por vezes, acrescentava: «Se gostava que me imitassem em alguma coisa, é no amor que tenho a Nossa Senhora» [32]. Se é certo que o Fundador do Opus Dei se propôs a si mesmo como exemplo no amor à Nossa Mãe, não é menos certo que foi sem dúvida de D. Álvaro que o aprendi. Recordo a intensidade com que aconselhava repetidamente, por ocasião dos anos marianos, a meter Nossa Senhora «em tudo e para tudo» [33]; e o exemplo que nos dava ao recorrer continuamente à sua proteção; as visitas semanais, por vezes quase diárias, a Santuários marianos ou a Igrejas dedicadas à Virgem Maria [34]; os olhares às suas imagens; ou - como nos aconselhava - escolher em cada dia uma jaculatória mariana que nos ajudasse a tê-la presente.

No primeiro dia do ano costumava visitar a Igreja de Santa Maria Maior e acender uma vela diante da imagem da Regina Pacis para pedir pela paz. E quando alguém lhe preguntou como viver bem o ano que começava, aconselhou percorrê-lo pela mão de Nossa Senhora. Numa tertúlia, outra pessoa perguntou-lhe como ter responsabilidade e maturidade para apoiar o Padre, e respondeu, simplesmente: «sendo muito pequena nos braços da Nossa Mãe».

O Servo de Deus nunca minimizou, pelo contrário, a importância da colaboração da mulher na vida da estrutura eclesiástica, embora limitar a missão da mulher a essa colaboração fosse uma redução injusta e injustificada. A sua visão do problema era muito mais ampla e profunda. Ser santo, cristianizar o mundo a partir de dentro é a missão do cristão. E a mulher participará nela da maneira que lhe é própria, em qualquer tarefa que desempenhar, com as suas características peculiares.

Um aspeto da assistência

A santidade traduz-se numa delicada sensibilidade quanto às necessidades e solicitações das pessoas, e não depende tanto do facto de ser mulher ou homem, como da correspondência à graça, que desenvolve a capacidade de amar, de atenção aos outros, de sacrifício, de abnegação, de serviço. E eu mesma observei isto na própria vida do Servo de Deus: por exemplo, no desejo de que se facilitasse o trabalho da administração dos centros ou no seu cuidado com os doentes.

No dia 2 de Outubro de 1988, sexagésimo aniversário da fundação do Opus Dei, na homilia da Santa Missa, ouvi D. Álvaro falar da expressão «um rio de paz» (Is 66,12). S. Josemaria usava-a, referindo-se ao Opus Dei: «Considerava esta mobilização de homens e de mulheres como uma imensa reserva de energias para fecundar a humanidade e enriquecer a Igreja com novos tesouros. Falava de “flumen pacis” (Is 66,12), de um grande rio de paz, portador de bem-estar, de compreensão, de amizade entre os homens» [35].

Comunicação pronunciada por Maria Helena G. Pratas no Congresso por ocasião do Centenário de Álvaro del Portillo, na Universidade Pontifícia da Santa Cruz

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[1] S. Bernal, Lembrando Álvaro del Portillo, Prelado del Opus Dei (trad. port.). Diel, Lisboa, 1999, p. 147.

[2] A. Del Portillo, Una vida para Dios: Reflexiones en torno a la figura de Monseñor Josemaría Escrivá de Balaguer, 2ª ed. Rialp, Madrid 1992, p. 42.

[3] A. Del Portillo, Una vida para Dios, p. 43.

[4] A. Del Portillo, Una vida para Dios, p. 55.

[5] Cf. A. Del Portillo, Una vida para Dios, p.209: “Somos débiles, pero El es nuestra fortaleza”.

[6] Ateneo Romano della Santa Croce, Rendere amabile la verità. Raccolta di scritti di Mons. Alvaro del Portillo. Libreria Ed. Vaticana, Città del Vaticano 1995, p.75.

[7] A. Del Portillo,Rendere amabile la verità, p.179.

[8] H. de Azevedo, Missão Cumprida. Biografia de Álvaro del Portillo. Diel, Lisboa 2008, p. 288.

[9] Cf. J. Echevarría, Discurso in «Romana» 20 (1995), p. 161.

[10] Cf. A. Del Portillo, Fiéis e leigos na Igreja, Aster, Lisboa. 1969, n.11.

[11] Cf. A. Del Portillo, Fiéis e leigos na Igreja, n.11.

[12] A. Del Portillo, Fiéis e leigos na Igreja, n.11.

[13] Cf. A. Del Portillo, Fiéis e leigos na Igreja, n.11.

[14] Cf. A. Del Portillo, Fiéis e leigos na Igreja, n.11.

[15] Cf. João Paulo II, Carta do Papa às Mulheres, 1995, n.6 e n.8.

[16] Cf. J. Burggraf, Caminos de libertad. San Josemaría y su confianza en las mujeres in A. Méndiz - J. A. Brage, Un amor siempre joven. Enseñanzas de San Josemaría Escrivá sobre la Familia. Palabra, Madrid 2003, p.183: «Tuvieron esta mirada acertada “antes que la filósofa francesa Simone de Beauvoir publicara su monografía clave “El otro sexo”, que suele considerarse como la “biblia” del feminismo, y antes que la escritora americana Betty Friedan se hiciera famosa con su éxito mundial “La mística femenina”». A obra Le deuxième sexe foi publicada em Paris, em 1949 e The Feminin Mystique é de 1963.

[17] Cf. B. Castilla, Consideraciones sobre la antropología ‘varón-mujer’, en las enseñanzas del Beato Josemaría Escrivá in «Romana», Supl. (1997), p.366.

[18] Cfr. S. Josemaria, Temas Actuais do Cristianismo (trad. port.), 2ª ed. Prumo, Aster, 1973, n.14.

[19] Segundo ouvi contar ao Prelado do Opus Dei, D. Javier Echevarría, a quem muito agradeço estes dados.

[20] João Paulo II, Carta às Mulheres, n.3. Cf. João Paulo II, Exortação Apostólica Christifideles Laici, 1988, n.50.

[21] João Paulo II, Carta às Mulheres, n.3.

[22] Concilio Vaticano II, Decreto Apostolicam actuositatem, 1965, n.9.

[23] A. Del Portillo, Carta 24-I-1990, n.9.

[24] Cf. João Paulo II, Exortação Apostólica Christifideles Laici,n.51.

[25] Cf. S. Josemaria, Temas Actuais, n.87.

[26] Cf. A. Del Portillo, Un commento alla Lettera del Santo Padre alle famiglie in «Romana» 18 (1994), p.96.

[27] A. Del Portillo, Entrevista in «Romana» 15 (1992), pp.273-274.

[28] A. Del Portillo, Homilia 14-II-1992, in «Romana» 14 (1992), pp.97-98.

[29] Cf. Concilio Vaticano II, Const. Pastoral Gaudium et Spes, 1965, n.22.

[30] João Paulo II, Carta Apostólica Mulieris dignitatem, 1988, n.5.

[31] Cf. João Paulo II, Mulieris dignitatem, n.11.

[32] F. Delcaux, Santa Maria nos escritos do Beato Josemaría Escrivá, Prumo-Rei dos Livros, Lisboa 1996, p.54.

[33] H. de Azevedo, Missão Cumprida, p.247.

[34] Cf. C. Di Fazio, Le visite mariane di San Josemaría nella Città Eterna, Iride, Roma 2010.

[35] A. Del Portillo, Una vida para Dios, p.263.