Áudio do Prelado: sepultar os defuntos

“Meus filhos e minhas filhas, amigos e amigas: saber morrer é tão importante como saber viver e em ambos os casos podemos ser ajudados”, diz o Prelado do Opus Dei no podcast desse mês, recomendando também que se facilite a Unção dos doentes.

Conferências

1. As obras de misericórdia (Introdução) (Dezembro/2015)

2.Visitar e cuidar dos doentes (Janeiro/2016)

3.Dar de comer a que tem fome e dar de beber a quem tem sede (Fevereiro/2016)

4.Vestir os nus e visitar os presos (Março/2016)

5.Dar pousada ao peregrino (Abril/2016)

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A última obra de misericórdia corporal é enterrar os mortos. Voltemos de novo os olhos para Cristo que nos fala nos Evangelhos. Na sua Paixão, a crueldade dos homens nega o mais ínfimo gesto de misericórdia para com o Senhor, a quem vemos preso, sedento, doente, nu e rejeitado pelo seu povo.

No entanto, logo que Cristo morre na Cruz, descobrimos um gesto de misericórdia com o seu Corpo, dessa misericórdia que Deus semeou nos corações dos homens. Umas mãos piedosas retiram o Senhor da Cruz, entregam-no a sua Mãe, envolvem-no num sudário limpo e enterram-no num sepulcro novo.

Muitas vezes pensei nesta passagem e entendo perfeitamente que os braços dignos para acolher o corpo de Cristo eram os da sua Mãe com uma vida tão pura e tão generosa com o seu filho e com todas as pessoas. Meditando esta cena, acende-se um raio de esperança nos nossos corações, quando compreendemos que os homens, que não soubemos acolher o Salvador no seu nascimento e o maltratamos na sua passagem pela terra, fomos capazes de Lhe oferecer, ao menos, uma digna sepultura.

São Josemaria narra assim este episódio: “Nicodemos e José de Arimateia — discípulos ocultos de Cristo — intercedem por Ele valendo-se dos altos cargos que ocupam. Na hora da soledade, do abandono total e do desprezo..., expõem-se audacter, audazmente! (Mc 15,43). Valentia heroica!”

O fundador do Opus Dei prossegue a sua oração com estas palavras: Eu subirei com eles até junto da Cruz, apertar-me-ei ao Corpo frio, cadáver de cristo, com o fogo do meu amor..., despregá-lo-ei com os meus desagravos e mortificações..., envolvê-lo-ei com o lençol novo da minha vida limpa, e o enterrarei em meu peito de rocha viva, donde ninguém mo poderá arrancar — e aí, Senhor, descansai! Quando todo o mundo Vos abandonar e desprezar..., serviam!, eu Vos servirei, Senhor!”. Como ele próprio nos aconselhava, S. Josemaria vivia as cenas do Evangelho, metendo-se muito dentro como um personagem mais.

Cristo nasceu para morrer e assim nos salvar. Esta cena deve remover os nossos corações, pois a morte faz parte das nossas vidas e ajuda-nos a dar sentido ao tempo que passamos neste mundo. Na encíclica Spe Salvi lemos que só Jesus Cristo “indica o caminho para além da morte; só quem é capaz de fazer tudo isto é um verdadeiro mestre de vida (...). O verdadeiro pastor é Aquele que conhece também o caminho que passa pelo vale da morte”.

Meus filhos e minhas filhas, amigos e amigas: saber morrer é tão importante como saber viver e nos dois casos podemos ser ajudados. O cristão há-de enfrentar esse momento – em si próprio ou nos outros – com esperança e serenidade. Por vezes, pode surgir a tentação de não falar sobre a morte diante de uma pessoa doente ou muito débil. Ao mesmo tempo, não deixemos de reconhecer que umas palavras de ajuda e de consolo podem ser uma carícia para a alma.

Oferecer a Unção dos doentes não há-de ser motivo de angústia ou pesar; nesses momentos a graça de Deus apoia a alma de quem poderia enfrentar, com lógica inquietação, o desconhecido. Deixemos Deus atuar. Uma e outra vez, os sacerdotes somos testemunhas de como a misericórdia do Senhor alivia os moribundos quando se lhes administra esse sacramento. Nessas ocasiões, todas e todos rezemos com estes doentes, falemos-lhes com naturalidade do Céu, apoiemo-los com a nossa fé, e recordemos-lhes que não estarão sós, mas que na vida eterna os espera o Amor infinito de Deus.

Um dia de 1932, S. Josemaria acompanhava nos últimos momentos de vida um homem no Hospital Geral de Madrid. Aquela pessoa, perante a proximidade da morte, recordava todos os erros da sua vida; e as suas ofensas a Deus inquietavam a sua alma. O fundador do Opus Dei relatava assim essa cena anos mais tarde: “Dizia-me aos gritos, sem que pudesse fazê-lo calar: — Com esta minha boca apodrecida não posso beijar o Senhor. — Mas tu vais-Lhe dar um abraço — disse-lhe — e um beijo muito forte já a seguir, no Céu!”. Aquele homem morreu em paz, apoiado também pela fé deste santo sacerdote, que soube estar ao seu lado no momento da prova final.

Dar sepultura aos mortos é uma tarefa que está cheia de possibilidades para fortalecer a fé dos vivos. Quem experimenta o falecimento de um ser próximo, agradecerá que o acompanhemos com a nossa oração e serenidade; se temos que dizer palavras de pêsames, procuremos dar-lhes um tom sobrenatural, para que a nossa fé sirva de consolo a quem necessita. Talvez muitas pessoas careçam atualmente de uma amiga ou de um amigo que lhes recorde que Deus é um Pai, que se ocupa também dos que partiram.

Do mesmo modo, é muito próprio dos cristãos cuidar materialmente dos lugares onde repousam os defuntos, limpando os seus túmulos e colocando flores. Não se trata apenas de avivar a recordação e de rezar pelas suas almas, mas que estas atenções para com os falecidos demonstrem também respeito que mostramos para com os corpos. Acreditamos firmemente na ressurreição da carne e os lugares onde descansam os restos daqueles que conhecemos lembram-nos que voltarão à vida.

Quem rezou diante de um túmulo sabe que o amor não se apaga, mas que continua vivo. A fé dá-nos a certeza de que a misericórdia de Deus é capaz de ultrapassar de modo misterioso a barreira da morte. Que grande é o poder da misericórdia com que, graças à ressurreição de Jesus Cristo, podemos aumentar o nosso carinho para além dos confins desta vida!

Pensemos logicamente em Maria, a Mãe do Crucificado. Sobre o seu regaço descansou Cristo quando O descravaram da Cruz. Ela continuou a enchê-lo de cuidados, mesmo com o coração desfeito. “Ninguém como Maria – disse o Papa Francisco – conheceu a profundidade do mistério de Deus feito homem para nos salvar. Tudo na sua vida foi modelado pela presença da misericórdia feita carne. A Mãe do Crucificado Ressuscitado entrou no santuário da misericórdia divina porque participou intimamente no mistério do seu amor”. Como nos convida o Santo Padre, imitemos a Virgem dolorosa no nosso serviço diário aos vivos e aos defuntos.