7. Durante a Guerra Civil Espanhola

Tinha-se desencadeado, além de uma guerra fratricida, uma forte perseguição religiosa, uma das mais sangrentas da história da Igreja.

Biografia
Opus Dei - 7. Durante a Guerra Civil Espanhola

Como tantos outros sacerdotes, o Padre Josemaria corria perigo de vida na sua qualidade de sacerdote, e teve de procurar refúgio em várias casas particulares, por entre grandes riscos e incertezas. Diante da casa da mãe, os milicianos enforcaram um homem parecido com ele, por confusão.

No dia 30 de Agosto de 1936, encontrava-se refugiado com Juan Jiménez Vargas, um dos primeiros membros do Opus Dei, e com outros perseguidos, em casa de uns conhecidos na rua de Sagasta, de Madri. Um deles não sabia quem era o Padre Josemaria e recordava anos depois o que lhes aconteceu, quando os soldados entraram para fazer uma rusga: “Revistavam da cave às águas-furtadas... Começaram a inspecionar pela cave e foram passando de andar em andar. Antes de chegarem ao nosso, por uma escada de serviço, subimos para a mansarda, cheia de pó de carvão e de arrumos, como é habitual. Não nos conseguíamos pôr em pé, porque chegávamos com a cabeça ao texto... Estava um calor insuportável. A certa altura, ouvimos que entravam na mansarda ao lado para passar revista...

– Nesta situação, aproxima-se de mim o Padre Josemaria e diz:

– Sou sacerdote. Estamos em momentos difíceis. Se quiseres, faz um ato de contrição e dou-te a absolvição.

Inexplicavelmente, depois de terem revistado a casa inteira, não entraram naquelas águas-furtadas. Foi de grande coragem ter-me dito que era sacerdote, visto que eu podia traí-lo e, no caso de terem entrado, podia tentar salvar a minha vida, denunciando-o”.

Momentos difíceis, apostolado e bom humor

No meio de tantos riscos, continuou a celebrar a Missa quando era possível e a prestar assistência sacerdotal a muitas pessoas, além dos membros da Obra que podia contatar. Dirigiu também retiros espirituais marcando encontros em lugares inimagináveis. E chegavam-lhe notícias de sacerdotes seus amigos que tinham sido martirizados.

A guerra tinha dispersado os fiéis do Opus Dei por diversos pontos de Espanha. Só ficaram em Madri uns poucos, tal como o fundador, que conseguiu refugiar-se em Outubro de 1936 numa clínica para doentes mentais, fazendo-se passar por um deles, com a cumplicidade do diretor. Ali esteve até ao dia 14 de Março de 1937, data em que pôde mudar para um novo refúgio: o Consulado das Honduras, sede diplomática que garantia uma relativa – só relativa – segurança.

O Consulado estava a abarrotar de refugiados, e São Josemaria sofreu novas atribulações, por falta de espaço e de alimentos. Mas tinha a alegria de poder celebrar a Santa Missa e de ter consigo Jesus Sacramentado. Estavam refugiados com ele alguns fiéis do Opus Dei. Isidoro Zorzano mantinha-os em contacto com o exterior, porque podia movimentar-se livremente por Madri graças à sua documentação como argentino. O fundador escrevia-lhes cartas, a estimulá-los naqueles momentos difíceis: cartas cheias de esperança, redigidas com a sua graça, alegria e bom humor característicos.

Um retrato de São Josemaria realizado durante a fuga através dos Pirineus - Caderno com as rubricas da Sta. Missa para poder celebrar durante a perseguição religiosa - São Josemaria e o grupo que tinha atravessado a fronteira dos Pirineus - Rosa de madeira encontrada nos montes de Rialp, resto de um retábulo destroçado durante

A passagem dos Pirineus

São Josemaria conhecia bem a Ciência da Cruz desde a infância, e os surpreendentes caminhos de Deus, que permitia tantos e tão terríveis obstáculos naqueles momentos de expansão apostólica. Por isso, não se contentou com suportar a cruz que Deus lhe estava a pôr às costas, pois sabia que é na cruz que Cristo triunfa e nos salva. Recebeu aquela cruz com amor, com todas as forças da sua alma:

”Ao celebrares a festa da Exaltação da Santa Cruz, suplicaste ao Senhor, com todas as veras da tua alma, que te concedesse a sua graça para “exaltares” a Cruz Santa nas tuas potências e nos teus sentidos... Uma vida nova! Um cunho para dares firmeza à autenticidade do teu cometimento..., todo o teu ser na Cruz!”.

Quanto tempo poderia durar aquela guerra? Que devia fazer para prosseguir a expansão apostólica? Pensou longamente sobre este ponto, tomou conselho com os que o seguiam. Era claro que era preciso passar quanto antes para a outra zona do país –disseram-lhe –, onde poderia desenvolver o apostolado com normalidade. E o único meio para o conseguir, nessa altura, era através dos Pirineus. A pé.

No dia 7 de Outubro de 1937 conseguiu sair de Madri, por entre grandes incertezas, a caminho de Barcelona. Em meados de Novembro saiu para os Pirineus, empreendendo uma longa expedição clandestina através das montanhas, juntamente com outros fugitivos. Foram dias repletos de contratempos, a somar a muitos meses de fome e provações.

Durante a marcha, tão arriscada e cheia de peripécias (se os descobrissem, expunham-se a ser fuzilados), deu-se a conhecer como sacerdote e celebrou a Eucaristia sempre que possível.

”Sobre uma rocha e de joelhos – escreveu um dos membros da expedição no seu bloco de notas – quase estendido no chão, um sacerdote que vem conosco celebra Missa. Não reza como os outros sacerdotes das igrejas. As suas palavras claras e sentidas metem-se na alma. Nunca assisti a uma missa como a de hoje. Não sei se pelas circunstâncias ou porque o sacerdote é um santo”.

No dia 2 de Dezembro de 1937 chegaram ao principado de Andorra, onde permaneceram vários dias por ter havido uma forte tormenta; de lá, foram até Lourdes para agradecer a Nossa Senhora o desenlace feliz da travessia.