A propósito do livro de John L. Allen Jr. Sobre o Opus Dei

Marc Carroggio, responsável internacional pelo Escritório de Imprensa do Opus Dei em Roma, fala sobre o livro publicado por John L. Allen: «Opus Dei». Publicamos a entrevista concedida à Agência Zenit, em dezembro de 2005.

Opus Dei

O responsável da relação com os jornalistas internacionais do Opus Dei em Roma, Marc Carroggio, reconhece que «está satisfeito» com o livro que o vaticanista John L. Allen acaba de publicar: «Opus Dei An Objective Look Behind the Myths and Reality of the Most Controversial Force in the Catholic Church», atualmente traduzido para vários idiomas.

Marc Carroggio comenta com Zenit que este é o primeiro livro que compara desapaixonadamente os “mitos” sobre a Obra (nome com o qual se conhece o Opus Dei) e a sua realidade.

O livro, editado por Doubleday, traduzido e publicado em português pela "Editora Campus-Elsevier" é uma «reportagem jornalística», esclarece este porta-voz, e afirma que «o autor compreendeu bem a natureza do Opus Dei».

Nesta entrevista, Marc Carroggio desvela a motivação principal dos membros do Opus Dei: «seguir um ideal espiritual que nos entusiasma” e mais além do mito que envolve esta organização, revela que “somos gente de carne e osso, com erros e acertos”.

O livro desmonta todas as falácias acerca do Opus Dei? Carroggio: Trabalhei no Escritório de Informação em Roma enquanto John L. Allen escrevia este livro. Não posso negar que estou satisfeito, e não me refiro tanto ao resultado como ao método.

Penso que o autor oferece muitos dados. Depois de investir centenas de horas em colher informações e opiniões de todo gênero, situa os dados em seu contexto, de maneira que se podem entender os por quês de muitas atuações; escutou todas os sinos e tratou com respeito os sineiros; e, por último, deixa que o leitor tire livremente as suas próprias conclusões.

São qualidades muito apreciáveis em um livro desse estilo. Qualquer esforço em demonstrar falsos clichês é positivo.

As comparações são ruins, mas não posso deixar de assinalar que o autor de «O Código Da Vinci» não esteve nunca em um Centro do Opus Dei e, que eu saiba, não falou nunca com uma pessoa do Opus Dei.

O retrato pintado da Obra no Código existe somente na sua imaginação. Penso que o trabalho de Allen pode servir para que muitos leitores dessa novela, que não conhecem o Opus Dei em primeira pessoa, se dêem conta de que não somos “nem anjos nem demônios”. Somos gente de carne e osso, com erros e acertos, com defeitos e com desejos de seguir um ideal espiritual que nos entusiasma.

O autor teve acesso — ele mesmo explica — a documentos que não estão ao alcance do público. Esteve em Centros do Opus Dei para numerários, entrevistou dezenas de pessoas da Obra, imbuiu-se do que significa “ser do Opus Dei”. Para o senhor, o que faltaria ainda para compreender melhor o Opus Dei? Carroggio: Penso que o autor compreendeu bem o Opus Dei, a natureza de sua mensagem, as razões de suas propostas, a forma de vida de seus fiéis: nossos ideais e também as nossas limitações.

Este livro é uma reportagem jornalística, não uma tese de teologia nem um tratado de história da Igreja. Seu enfoque é mais sociológico, ainda que preste grande atenção à dimensão espiritual. O próprio autor sublinha que seu propósito não é explicar de modo exaustivo o Opus Dei, mas comparar os mitos com a realidade.

Como consequência, dedica muito espaço a assuntos que são relativamente secundários na vida do Opus Dei, mas que têm sido objeto de atenção dos meios de comunicação, sobretudo nos Estados Unidos.

Nesse sentido, caberia dizer muito mais sobre a experiência espiritual que representa pertencer ao Opus Dei e sobre a motivação profunda que leva a seguir este caminho de busca da santidade no meio do mundo: a consciência da própria vocação cristã, o desejo de imitar Jesus Cristo precisamente no trabalho, na família e na vida comum de cada dia.

Em uma instituição da Igreja, os aspectos pessoais, existenciais, são mais importantes que os esquemas organizativos ou as questões de imagem.

Para sua pesquisa, John L. Allen deu voz também a ex-membros do Opus Dei. Parece-lhe ter dado demasiado espaço a estes testemunhos? Carroggio: O livro é uma reportagem jornalística, não uma reflexão sobre questões de princípio. É o resultado de um grande número de entrevistas com pessoas em diferentes situações. Neste tipo de trabalho, é o próprio jornalista que determina o equilíbrio entre as fontes. Eu respeito sua decisão, que me parece plenamente válida.

Pessoalmente, penso que o autor explica bem que estas críticas têm uma natureza diferente das que procedem, por assim dizer, da fantasia de escritores de novelas. É fácil demonstrar que o Opus Dei não está por trás das obscuras operações de complot que lhe são atribuídas.

Quando se trata de uma pessoa que tem uma experiência negativa, a questão é diferente. Diante de uma ferida, de uma dor, de uma má recordação não cabe desmentido. Já não estamos somente perante um problema de verdades e mentiras. É preciso expressar respeito, compartilhar a dor, ainda que às vezes não se compartilhe a interpretação dos fatos.

O que se nota claramente é que os fiéis do Opus Dei vivem sua entrega a Deus com plena liberdade, e que essa entrega os ajuda a experimentar a felicidade, uma felicidade relativa dentro do que é possível neste mundo.

Por isso, a imensa maioria dos homens e mulheres que se aproximam dos Centros da Obra guarda afeto por toda a vida. Mas nem sempre é assim, e não me parece negativo, ao contrário, que um livro como o de John L. Allen faça eco desses casos.

Quando o autor perguntou ao Prelado por esta questão, D. Javier Echevarría disse que pedia perdão de todo coração às pessoas não se sentiram bem tratadas. Como pode compreender, eu não tenho nada a acrescentar.

Gostaria que houvesse uma “segunda parte” deste livro? Carroggio: Cada livro é único. Essa é a sua força, me parece. Ainda que o livro de John L. Allen não é só um livro sobre controvérsias, as polêmicas pesam muito. Na minha opinião, trata as questões controvertidas de modo respeitoso e oferece dados experienciais mais do que explicações tendenciosas ou ideológicas.

Além do mais, o autor faz um esforço por resumir alguns traços essenciais do Opus dei: filiação divina, liberdade, santificação do trabalho e da vida ordinária, etc.

Gostaria que um futuro livro desenvolvesse mais esses aspectos, e precisamente em forma de reportagem jornalística: um livro que conseguisse contar com frescor a experiência da vida cristã no meio do mundo. O recurso admirável que a fé e a oração oferecem para a vida ordinária, também nos momentos mais difíceis como a enfermidade física ou psíquica, a perda do trabalho ou a morte de um ente querido. Há muita história para contar.

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