A aventura da adoção

Essa é a história de Maurizio e Susanna, um casal que decidiu adotar três crianças.

Testemunhos
Opus Dei - A aventura da adoção

Publicamos uma história do livro italiano "La fatica e la gioia" (O cansaço e alegria, Edizioni Cantagalli) onde Arturo Cattaneo, Alessandro Cristofari e Gioia Palmieri contam 47 histórias de vida matrimonial e familiar. A história escolhida é a de Maurizio e Susanna, um casal de supernumerários que decidiram adotar três crianças.

Maurizio (1968) é funcionário e sua esposa Susanna (1972) é coordenadora de um jardim de infância. Casaram-se em janeiro de 1999. Durante o namoro os seus planos de casamento encontraram um obstáculo: um exame médico revelou que não poderiam ter filhos. Decidiram se casar de qualquer maneira e embarcar na aventura da adoção. Com muito trabalho e muita alegria chegarão a adotar não um, nem dois, mas três filhos.

"Quer fazer um curso de dança latino-americana comigo?" Maurizio finalmente consegue arrancar um sim a Susanna depois de tentar com propostas de vários tipos. E começam a sair juntos por um tempo: sexta-feira à noite era dia de dança.

Já tinham se visto muitas vezes no bairro, mas não se conheciam. Alguns anos antes Maurizio decide ir a Londres por um ano; no final da sua estadia, está na fila para fechar a conta bancária, e vê Susanna que - pelo contrário - tinha acabado de chegar a Londres e precisava abrir uma conta. Reconhecem-se numa cidade estranha, rostos familiares vislumbrados ao andar na calçada ou no ponto de ônibus.

Aqui, em Londres, pela primeira vez, se apresentam e conversam... Tomam um café e, depois cada um segue o seu caminho. Quando os dois já voltaram à Itália, por casualidade, se encontram de novo. Maurizio toma a iniciativa, pede o telefone de Susanna e a convida, primeiro para um filme na língua original, depois ao teatro... Mas ela recusa. Até que aceita o convite para a dança: muito tentador e divertido! Além disso, ela não imaginava que Maurizio poderia ser a pessoa certa, tão diferente do cara que sempre imaginou e sonhou. Dançar é divertido e - embora ambos fossemos um desastre – cada tempo que passávamos juntos era agradável e relaxante.

Sim, é isso mesmo que Susanna percebe... Com Maurizio relaxa, é ela mesma e não precisa mostrar nada de especial, mas simplesmente ser ela mesma. Ele tem quase 28 anos e ela vai fazer 24. Começam a sair juntos frequentemente, como amigos, por mais de um ano. Cada um tem a sua própria vida, sem vínculo ou compromisso com o outro, mas em alguns momentos, procuram-se para contar suas coisas, se divertir... Para estarem juntos sempre e só como amigos (apesar de que Maurizio espera algo mais). Passam os meses e são convidados para o casamento de Claudio e Francesca, dois amigos muito especiais, começam a dançar e Susanna percebe que está colocando barreiras a um sentimento que lhe dá medo. Sente que vai começar algo mais com Maurizio e desta vez é sério. Vê que é verdade quando ele a procura na saída e se declara abertamente, pedindo-a diretamente em casamento.

O namoro é breve e, em algum momento, difícil, especialmente quando souberam, através de alguns exames, que não poderiam ter filhos. "Nesses momentos de dor, procuramos o apoio em Jesus, falamos com Ele e percebemos que a nossa abertura à vida, bem como a santidade do casamento não poderia ser realizada apenas pela chegada dos filhos: a nossa união e o nosso amor deve ir além da fertilidade; não exclui-la, mas superá-la.”

Mas como? "Excluindo de entrada qualquer tentativa de inseminação artificial, decidimos nos prepararmos para a adoção." Seus filhos, se eles chegarem, será através da adoção e não por geração: com esta consciência respondem “sim" à pergunta do padre Giovanni, que celebra o rito de seu casamento: "Prometem aceitar os filhos que Deus enviar?". É o 16 de janeiro de 1999: Susanna tem 26 anos e Maurizio 30.

A inscrição para adotar só pode ser feita no tribunal de menores depois de três anos de casamento, e em 17 de janeiro de 2002, vão ao tribunal de Milão para entregar os documentos para adoção nacional e internacional. O processo inclui entrevistas com assistentes sociais e psicólogos para os cônjuges amadurecem a sua decisão e conhecerem as diferentes realidades de crianças que esperam ser adotadas. O encontro com os serviços sociais é sereno e muito enriquecedor: “nos sentimos acompanhados nesse crescimento pessoal e familiar”. Não falta a oração diária, para que o Senhor decidisse de onde viria, se viesse, o nosso filho. Ele sabia melhor, conhecia os três e tinha decidido que se reuniriam desde sempre.

É 6 de outubro, quando viajam a Roma com os amigos Francesca e Claudio (que também se decidiram pela adoção), para a canonização de São Josemaria Escrivá, fundador do Opus Dei, a quem têm devoção. Poucos meses antes, tinham sido convocados pelo Tribunal de Milão, que tinha recebido o relatório dos serviços sociais e no dia 22 de novembro receberam o decreto de aptidão. Seria como dizer que o teste de gravidez deu positivo. Começa a busca de uma instituição através da qual realizar a adoção internacional. Depois de encontrá-la começam a preparar a documentação para a Colômbia. Os documentos necessários variam de país para país, mas são sempre numerosos e levam tempo para serem preparados. Enquanto a documentação está em andamento recebem um telefonema: é terça-feira, 28 de janeiro de 2003!

Uma mulher, com voz ao mesmo tempo gentil e decidida convida-os a comparecer ao Tribunal de Menores, para que ela - juíza honorária - possa conhecer melhor o casal. Admirados e animados, vão ao encontro no dia seguinte: uma longa conversa com a juíza e com outra jovem mulher, e depois se despedem com a esperança (pelo menos por parte do jovem casal) de se reencontrarem novamente em breve.

No dia seguinte, Susanna viaja para a Suíça por motivos profissionais e mal tinha cruzado a fronteira recebe um telefonema de Maurizio: "Você tem que estar de volta amanhã, porque eles vêm ver a casa!”.

Susanna chora de emoção: sabe que se vão ver a casa há uma criança à espera. Seus pais e seu irmão Carlo, que também estavam no carro, ficam emocionados. Depois da visita à casa recebem um novo chamado: para o Tribunal de Justiça na segunda-feira seguinte, de carro! “Foi o fim de semana mais longo das nossas vidas”, disse Susanna, agora já sabiam que logo seriam pais, mas de quem? Menino ou menina? Quantos anos? A vontade era forte, mas também o medo: a vida deles ia mudar! A oração nos acompanhou e tornava-se mais intensa: Senhor, tu sabes ".

Finalmente na segunda-feira, 3 de fevereiro, chegam ao tribunal, e o juiz, levantando-se, parabeniza os novos pais: "uma menina linda, chamada Eleonora, está esperando vocês! Nasceu no dia 9 de janeiro”. “Tão pequena?” 9 de janeiro! Imediatamente percebem que é o dia do nascimento de São Josemaria! Maurizio chora, não consegue conter as lágrimas de tanta alegria. Para Susanna, a emoção é tão forte que não reage, fica imóvel, quase atordoada por este acontecimento maravilhoso: até ontem esposa, agora esposa e mãe! O encontro com Eleonora é tão intenso que não consegue descrevê-lo: ela é uma maravilha e, a partir deste momento, aprenderão a crescer os três juntos... Eles viverão com ela a paternidade e ela aprenderá a ser filha. Que presente é a adoção: um adota o outro e isso é um privilégio. Susanna e Maurizio percebem que a sua infertilidade é fecunda, e agradecem a Deus pelo "dom" da infertilidade física que os tornou pais de Eleonora. "Sim, a infertilidade pode ser um presente! Parece absurdo, mas quem tem a alegria de ser pai adotivo como opção resultante de uma infertilidade biológica pode testemunhar."

Eleonora cresce, assim como Maurizio e Susanna, que depois de algum tempo acham que a sua família poderia acolher outra criança. Então recomeçam o caminho de adoção, desta vez com outros serviços sociais e num novo Tribunal, de Brescia, porque em 2004 se mudaram de Milão para uma cidade na província de Bérgamo.

Estamos em Setembro de 2005 e o decreto de aptidão chega em janeiro de 2007. Depois de ver algumas instituições, o casal decide fazer a petição através de uma organização que vai acompanhá-los ao Vietnã: a espera é curta... Em maio do mesmo ano são chamados. Desta vez, a fita é azul: Huy, de 13 meses de idade, está esperando por eles do outro lado do mundo! A viagem para conhecê-lo e abraçar demora mais do que o esperado e só em novembro podem ir! Vão os três e voltam quatro.

Partem de Hanói no dia 9 de novembro, de van, acompanhados pelo intérprete e depois de duas horas de viagem chegam à instituição onde está o pequeno Huy. O encontro é breve, intenso. Huy chora, não os conhece e está assustado... Só Eleonora consegue chegar perto. Susanna toma-o nos seus braços e sente sobre si todos os seus medos. Depois de meia hora se despedem, entre as lágrimas e a espera de um novo encontro no dia 15 de novembro, o dia da cerimônia oficial. Este é o dia em que se tornarão definitivamente os pais adoptivos. As autoridades conseguem encontrar a família de origem de Huy para que haja uma reunião das duas famílias.

Para todos, mas especialmente para Susanna - e, provavelmente, para a mãe biológica de Huy - este é o dia mais emocionante, intenso, forte de uma vida. De mãe para mãe, um abraço e um olhar que somente duas mães podem viver: Susanna percebe que outra mulher está confiando o filho aos seus cuidados, ao seu amor. A sua maternidade trouxe-o ao mundo, para tê-lo consigo por alguns meses e, depois, perceber que ela não pode, não consegue continuar, por muitos motivos e precisa de outra mulher que possa ser a mãe do seu filho. Quantas palavras num olhar! Um entendimento entre as mães que ninguém fora das duas poderia entender! O Vietnã é uma bela terra, a terra de Huy, a terra do seu segundo filho, a terra que se tornará parte da vida de Susanna e de Maurizio, de toda a família.

Começa a vida a quatro: no início não é fácil. Precisam reencontrar o equilíbrio familiar, como em todas as famílias quando chega um novo elemento. Transformar-se numa família, para Susanna e Maurizio, requer esforço: um tijolo de cada vez, uma descoberta de cada vez... Tornam-se pais todos os dias. Huy torna-se filho lentamente, com profundidade e confiança nos cuidados de mamãe e papai. Eleonora se torna irmã, com as alegrias e dificuldades que isso implica!

As crianças crescem e Susanna e Maurizio amadurecem mais uma vez o desejo de paternidade. Um terceiro filho, não é automático! "Temos dois braços, duas mãos para cuidar, então mais uma criança poderia trazer sofrimento para Eleonora e Huy." Tanto desejo, mas também muitas dúvidas. Mais uma vez, procuram os serviços sociais: desta vez são quatro a participar dos encontros. Sonham juntos e, com as crianças já crescidas (Eleonora tem 8 anos e Huy 5) tentam pesar os prós e contras da chegada de um irmão mais novo. A petição ao Senhor é intensa: só Ele pode realmente saber se a disposição de Susanna e Maurizio é boa ou não para a família.

A responsabilidade e o primeiro pensamento são para os filhos que lhes foram confiados: Eleonora e Huy. "Se não é para ser, que não seja, Senhor." Em vez disso, quase inesperadamente, no dia 23 de dezembro de 2011, o Tribunal de Brescia, depois de receber o relatório da psicóloga e da assistente social, entrega o terceiro decreto de aptidão. Que alegria! Desta vez, a escolha recai sobre um organismo que vai levá-los a outro país longínquo: Etiópia! A espera é longa e pesada. Só em novembro 2014 chega o telefonema que informa ao casal que na Etiópia, na fronteira com o Sudão do Sul, há outra parte da família: um menino, de 5 anos!

Alegria e ao mesmo tempo preocupação: seu terceiro filho chegará já grandinho, com uma história que não será fácil de reconstruir, porque as notícias da Etiópia são fragmentárias e nem sempre confiáveis! O casal então se pergunta "que dificuldades terá? Como Eleonora e Huy vão reagir? Vamos ser capazes de acompanhá-lo como ele precisa? E a língua? Como será o encontro?

Quando esperamos um filho, imaginamos como será, com que vai se parecer, há temor e curiosidade. Assim é quando se espera um filho para adoção... Muitas perguntas, mas diferentes e só o tempo poderá respondê-las. Um longo tempo; quem adota uma criança sabe que a espera será de muito mais que nove meses, mas vale a pena esperar para ser família, para se tornar uma família mundial”.

E a espera continua... Porque até o momento (abril de 2015) Susanna, Maurizio, Eleonora e Huy ainda estão aguardando para abraçar a parte da família que os espera na Etiópia.